Mãe e filho unem gerações na escalada, que fará estreia olímpica

JOÃO GABRIEL
Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Camila Macedo, 37, fica mais nervosa com as provas do filho Lucca, 17, do que com as suas. Atual campeã brasileira e líder do ranking nacional de escalada de velocidade, ela transmitiu a paixão pelo esporte ao jovem.

Como a apreensão pela performance do filho atrapalhava seu próprio desempenho, a estratégia adotada por ela, após discussão com treinador e psicólogo, foi não assistir mais às baterias de Lucca.

"Mas estou sempre acompanhando e dando pitaco. O meu marido [Eduardo], pai dele, fica levando e trazendo informações para mim", conta Camila.

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Na manhã de domingo (12), abrindo o ano no qual a escalada fará sua estreia em Jogos Olímpicos, a dupla estará no Caminho Niemeyer, em Niterói (RJ), para o campeonato Escalada de Velocidade.

O evento, a partir das 10h, terá entrada gratuita e transmissão da Globo. Entre suas atrações, além da dupla de mãe e filho, estão o brasileiro César Grosso, melhor brasileiro no ranking mundial, e o russo Vladislav Deulin, melhor do mundo na categoria.

Camila já foi nadadora. Sempre gostou de esportes e cursou fisioterapia, mas interrompeu a faculdade quando engravidou, aos 19 anos. Mais tarde, resolveu retornar aos estudos, na educação física. Foi em uma viagem no interior de Santa Catarina, no fim de 2010, que ela se interessou por escaladas em montanhas.

Quando voltou para Curitiba, onde mora, descobriu uma academia para a prática do esporte. Cerca de um ano depois, participou de seu primeiro torneio, o brasileiro de boulder (em que o atleta tem um tempo para alcançar o topo da maior quantidade de percursos que conseguir) e ficou com o terceiro lugar.

Ela ajudou na fundação da Associação Brasileira de Escalada Esportiva, em 2014, entidade que hoje administra o esporte no Brasil, auxiliando atletas e organizando torneios e o calendário da modalidade.

Lucca praticou lutas e jogou futebol antes de subir paredes. Recentemente, foi promovido do juvenil para o profissional e passou a receber o Bolsa Atleta, benefício do governo federal.

Camila lembra que no início era raro ver mulheres escalando. Ao longo dos anos, disse que já precisou fazer vaquinha para participar de competições, o que ainda acontece atualmente com atletas mais jovens, mas reconhece uma evolução do esporte no Brasil.

Segundo Janine Cardoso, diretora técnica e de planejamento da Associação Brasileira de Escalada Esportiva (ABEE), a visibilidade conferida pelos Jogos Olímpicos é importante pelo fato de o evento popularizar e desmistificar a modalidade. "Tem muita gente que nem coloca filhos na escolinha por ter medo de ser perigoso, então conscientiza. E também pelo maior aporte financeiro", diz.

A escalada estreará em Tóquio-2020, assim como o skate, o surfe e o caratê. Por isso, nos últimos anos a associação passou a receber verbas do Comitê Olímpico do Brasil (COB) destinadas às modalidades olímpicas. Em 2020, por exemplo, o valor anual previsto é de R$ 882 mil.

Para entrar no programa olímpico, a modalidade teve que se adaptar. Se tradicionalmente as três categorias (velocidade, boulder e dificuldade) são disputadas separadamente, para os Jogos foi criado um combinado que une o resultado delas para decidir o resultado.

A nota é o produto da multiplicação da posição do atleta nas três disputas. Por exemplo: quem ficar em primeiro na velocidade, quinto na dificuldade e terceiro no boulder soma 15 pontos (1 x 5 x 3 = 15). Ao fim das três etapas, vence quem tiver a menor pontuação.

"Houve uma resistência da comunidade em geral. Nunca vi o recordista mundial de speed escalando outra coisa. Mas eu achei uma bela estratégia da federação internacional. Colocando as três [categorias] juntas, você tem um grande chamariz que é o speed, que chama mais atenção para quem não conhece o esporte", diz Camila.

Na velocidade, dois atletas competem em paredes lado a lado, e quem chegar mais rápido ao topo vence.

No boulder, a parede é composta de quatro rotas, e cada competidor tem quatro minutos para tentar se estabilizar na maior quantidade de topos (o ponto mais alto da rota) que conseguir. Quanto menos tentativas forem necessárias, melhor.

Já na categoria de dificuldade, cada agarra em que o atleta se estabilizar vale ponto. Quanto mais alto ele chegar, mais pontos soma. Juízes determinam quando o escalador está estável e podem dar pontuação parcial.

A tendência é que, para os Jogos de Paris, em 2024, a disputa de velocidade seja separada da dupla boulder e dificuldade.

Sem classificados do país para a Olimpíada de Tóquio até agora, a Associação Brasileira de Escalada entende que o foco deve ser intensificar a preparação de atletas jovens e a formação de novos escaladores, visando os Jogos de Paris, em 2024.

A última chance de garantir uma vaga no Japão será no Pan-Americano, que acontece em fevereiro nos Estados Unidos, com apenas um lugar em jogo em cada gênero.

Atualmente, as potências do esporte são países europeus, além do Japão, que ganhou força com o investimento para os Jogos e a criação da disputa combinada.

Uma das dificuldades enfrentadas pelos brasileiros é a ausência no país de paredes de escalada licenciadas pela federação internacional, como as que são usadas em Mundiais e serão nos Jogos. Apenas atletas como César Grosso, que treina na Itália, tem acesso a tal tipo de equipamento.

"Já tem o projeto [da parede] até protocolado junto ao COB, mas como é um investimento grande e que precisa de manutenção, não temos como colocar em qualquer lugar. E ainda temos poucos adeptos. É como criar um estádio que não será usado", finaliza Janine.

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