Lutas coletivas não cabem em programas de entretenimento como o BBB

Alma Preta
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O programa é um amplificador de debates, mas o que vemos são pessoas, que erram como todas; as formas de combater às desigualdades são maiores do que quem diz fazer parte dessas lutas
O programa é um amplificador de debates, mas o que vemos são pessoas, que erram como todas; as formas de combater às desigualdades são maiores do que quem diz fazer parte dessas lutas

Texto: Flávia Ribeiro

Segundo o dicionário Priberam, militância é a qualidade do que é militante. Ser militante é defender uma causa. Essas palavras vêm ganhando destaque, positivo e negativo, nas redes sociais graças à amplificação dada pela edição 21 do Big Brother Brasil. A primeira edição do programa que trouxe quase 50% de participantes negros, vários reconhecidos pela atuação em prol de militâncias, causou furor nas redes sociais. Mas o BBB é apenas um programa de entretenimento e não uma aula sobre militâncias ou lutas coletivas.

Há poucas semanas, o ex-participante Lucas Penteado, conversando com Lumena, tentou falar do significado de “quilombo”. Ela não quis porque não queria falar de militância. Ele insistiu porque poderia ser uma oportunidade para várias pessoas que não sabiam. Lumena foi embora.

Voltar ao significado das palavras que estão na nossa rotina é uma dinâmica necessária, que pode nos orientar. Eu, por exemplo, me enganei. Pensava que militância era sinônimo de luta coletiva. Não é. Eu aprendi que ser militante é atuar em prol de causas coletivas, incluindo as pessoas que são contra essa luta.

Minha atuação em organização é recente, tem menos de dez anos, começou pela autonomia materna e daí senti a necessidade de debater mais a racialidade. Assim cheguei no Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), uma das organizações mais antigas do Brasil no combate ao racismo, onde estou até hoje. Penso que mesmo me enganando sobre o significado, não aprendi errado.

Então, sim, estamos vendo militâncias no programa. Militâncias individuais. A causa defendida é o prêmio do programa, apenas. Não estou dizendo que está certo ou errado. Mas nenhum militante pode ser “eleito” como a voz de uma causa ou ter o poder de queimar lutas coletivas. Até porque as desigualdades são históricas e isso é maior do que pessoas que as combatem ou dizem combatê-las.

É preciso que nos debrucemos para os significados de palavras que estão nas nossas rotinas e como são muito citadas como representatividade, militância, lugar de fala, empoderamento, dentre outras. Para que elas não se percam, não se diluam e não sejam ‘ressignificadas’ parecendo ser algo que não são. Que de algo profundo, se tornem superficiais. Usar essas palavras em uma música ou em um discurso pode até ser militância, mas não é o mesmo que atuar em lutas coletivas.

O Google Trends mostra um aumento da busca por “militância” entre ontem, 8 de fevereiro, e hoje, dia 9. O pico foi às 23h56, ou seja, durante a exibição do programa na TV aberta. Também houve aumento na busca por termos relacionados, como “militância seletiva”. No dicionário online Priberam, entre as palavras mais buscadas do dia estão “fenotipicamente”, “influenciador” e “animosidade”, citadas no programa durante a noite de ontem. É bom que as pessoas procurem o significado real, entendam e saibam diferenciar do que estão vendo na TV.