Lutadora Jaqueline Almeida batalha por direitos das mulheres no Brasil e Irlanda

Jaqueline Almeida dá aulas de defesa pessoal. Foto: Arquivo Pessoal
Jaqueline Almeida dá aulas de defesa pessoal. Foto: Arquivo Pessoal

Em 2016, quando Jaqueline Almeida, 32, deixou a cidade de Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo, para estudar inglês na cidade de Dublin na Irlanda, partiu ainda lidando com traumas de experiências vividas dentro do núcleo familiar e relacionamentos tóxicos, outras oriundas da violência urbana, somando a experiência de ter sobrevivido à três acidentes automobilísticos além de parcas condições financeiras e baixo conhecimento do idioma local.

Com auxílio de um terapeuta, assim como também de atletas e profissionais locais e a própria força de vontade, Almeida cresceu na cena de jiu-jítsu irlandesa, modalidade iniciada no Brasil, sendo hoje faixa marrom – uma antes da preta –, competidora vencedora de diversos títulos, o último sendo o IBJJF Championship World Jiu-Jitsu 2022, realizado em Anaheim, na Califórnia.

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Entretanto, seu feito mais impressionante é partir de sua própria dor para auxiliar mulheres irlandesas a combaterem situações de violência doméstica e quadros de depressão, seja por meio de suas aulas ou palestras nos eventos TEDx Talks. Sendo assim, se encontra em sintonia com o discurso de respeito pelos direitos humanos e debate de saúde mental crescentes no mundo contemporâneo.

Em entrevista ao Yahoo Esportes, Almeida fala de seu próprio trabalho com o terapeuta para processar seus traumas e dores assim como também buscar sua evolução, a importância do lado psicológico das artes marciais sem negligenciar a relevância dos profissionais de saúde, o desenvolvimento de técnicas de defesa pessoal e didáticas para mulheres em condições de violência doméstica e possíveis agressões em ambientes externos assim como também seu trabalho com aquelas que lidam com depressão além de sua vitoriosa trajetória.

Yahoo Esportes: Como foi sua entrada no mundo das lutas?

Jaqueline Almeida: Em 2012, com 21 anos, e quando ainda morava no Brasil, dei início ao jiu-jítsu, por incentivo de um amigo, Juan Manoel. Ele me incentivou a fazer a primeira aula com ele. Para mim, foi “amor à primeira-aula” (risos). Minha hiperatividade sempre foi muito alta, desde criança. Naquele momento, senti que desacelerei bastante. Foi também incrível entender que eu estava aprendendo como me autodefender e, ao mesmo tempo, atacar, mesmo que inconscientemente. Ainda encontrei uma válvula de escape, uma ferramenta de poder. Na época, eu tinha muito medo de ficar sozinha em casa. Então, pensava que, com o jiu-jítsu, se algo acontecesse comigo, estaria mais preparada. E, por ser uma modalidade dinâmica, acabei me interessando cada vez mais pelas aulas e até me “viciando”. Afinal, é um desafio diário. Os professores te motivam a ser melhor a cada dia.

Quais ferramentas as artes marciais te deram para lidar com os desafios da rotina?

Não sei se teria conseguido superar tudo que superei na minha vida se não tivesse lançado mão da minha mentalidade de lutadora. E isso, em várias searas. Por exemplo, quando dei início ao jiu-jítsu, eu era fumante. De cara, nas aulas, percebi que, em relação aos outros alunos, eu era mais ofegante. Então, tive de repensar algumas posturas, e isso acabou influenciando toda uma rotina. Minhas companhias já não eram mais as mesmas - eram pessoas que também tinham o esporte como referência e que preferiam se alimentar de maneira mais saudável. Essa mudança de hábito, aliada ao fato de eu estar me exercitando, me fez eliminar 10 quilos, e sem dieta. O jiu-jítsu passou a me oferecer cada vez mais resultados físicos e bem-estar. Chegou uma hora, que os benefícios ultrapassaram o tatame. Me tornei mais resiliente e passei a escutar mais. Comecei a ter mais disciplina e a respeitar o meu ritmo de aprendizagem. Além disso, aprendi a não desistir facilmente, a me aperfeiçoar e a estar confortável no desconfortável. E, não menos importante: aprendi com a modalidade que para se chegar ao propósito é preciso respeitar o processo.

A lutadora Jaquelina Almeida. Foto: Arquivo pessoal
A lutadora Jaquelina Almeida. Foto: Arquivo pessoal

No Brasil, você teve o apoio de um psicólogo. Quão importante é o trabalho do profissional de Psicologia e como você avalia a terapia desenvolvida com você?

Michael Coelho, este é o nome do terapeuta que me socorreu num dos momentos mais difíceis da minha vida. Por mais que eu o recomende, nunca será o suficiente, por tudo e por tanto que ele fez por mim. Foi a terapia que me fez organizar ideias, esclarecer dúvidas e a resolver traumas que me bloqueavam. Comecei a fazer terapia com o Michael em 2015 e não larguei ele até hoje. Nossas sessões continuam on-line; eu por aqui, e ele no Brasil. Terapia foi uma das minhas melhores escolhas. Para mim, é prioridade, não sai da minha planilha. Nossa mente é muito desafiadora. Mesmo para quem luta, não é diferente. Existem momentos em que você acha que não é capaz, pensa em desistir, se acha inferior. A terapia me ajudou a entender que tudo é processo, é quebrar traumas. O terapeuta, o psicólogo, o psicanalista têm técnicas adequadas para nos avaliar. Michael me avaliou como jamais eu poderia fazer sozinha. Nunca tive boas referências de homem na minha vida, por exemplo. Tive pai ausente e alcoólatra, que abandonou a família e não ajudou em nada em minha criação; um padrasto com quem tive por tempos uma relação muito conflituosa, pois me rejeitava e tinha ciúmes da minha mãe comigo; além de namoros abusivos com homens que não me valorizavam e que, mesmo assim, por falta de autoconfiança e amor-próprio, eu me sujeitava a ser menos só para estar ao lado deles. Mesmo eu tendo amigos e familiares que me escutavam, eles não podiam me ajudar, por mais boa vontade que tivessem. Além disso, a proximidade, muitas vezes, atrapalha, paralisa, causa desconforto. Michael interpreta meus pensamentos, bons ou ruins, avalia minhas atitudes, leva em consideração os meus sonhos e usa técnicas que fazem com que eu mesma me examine e chegue a uma resposta ou a uma solução concreta. Tenho como tarefa exercícios de comportamento, para avaliação. São “lições de casa” eternas (risos). Terapia é um exercício diário.

Nas suas aulas de jiu-jítsu, você trabalha autodefesa. Como é este jiu-jítsu mais voltado àqueles que buscam recursos para se defender de uma possível agressão?

Nas minhas aulas, compartilho opções que podem ser utilizadas tanto como um golpe no jiu-jítsu, como para a defesa pessoal. Com uma amiga terapeuta, a Lorna Lawless, também mantenho o programa “Mind&Body Defense”, desenvolvido com a Sports Ireland e que oferece ferramentas incríveis de autodefesa, incluindo estratégia, habilidade e inteligência emocional, e não apenas a técnica da modalidade esportiva. Ainda ministro workshops específicos de defesa pessoal, que surgiu após eu perceber que muitas alunas, após um curto período, tinham dificuldades de lembrar do movimento aprendido recentemente. Também cursei qualificação em Personal Trainer com ênfase em Fisiologia do Exercício Físico, para identificar melhor as partes mais frágeis do corpo. Com este estudo e experiência, cheguei a um método mais simples para iniciantes. Em vez de ensinar golpes mais desafiadores, ensino os pontos mais frágeis do corpo que podem ser atacados, como utilizar a força do agressor contra ele mesmo e a ler a postura corporal em alguns cenários, que, na minha opinião, previne muitos ataques. Importante ressaltar que se autodefender não é apenas lutar com alguém. Falo sempre em não andar próximo a parques, se não houver iluminação; em deixar a localização ligada no celular e enviar a alguém em situação de perigo ou suspeita; e a não usar o celular enquanto anda na rua à noite. Prestar atenção ao redor também é autodefesa.

Como por meio do jiu-jítsu você trabalha o lado psicológico de suas alunas?

Tanto nas aulas quanto nos workshops, falo às minhas alunas que elas estão ali para aprender técnicas que podem salvar suas vidas. Então, aguço muito o lado criativo delas e, o principal, a terem paciência para agir com precisão. Coloco elas em situações desconfortáveis que as forçam a pensarem de forma estratégica. Treinamos mulheres para que enfrentem ou saiam de situações conflituosas ou de violência. Para tanto, sempre menciono a evolução de cada uma, principalmente quanto a movimentos que diziam que jamais conseguiriam fazer. Motivação é evolução.

Como você lida com uma aluna com quadro de depressão?

Converso muito com as minhas alunas. Além disso, como ensino linguagem corporal, também as avalio por meio de suas posturas. Procuro manter elas com o pensamento positivo e com a cabeça boa o tempo inteiro. Principalmente, as incentivo a fazerem listas do que elas têm controle e do que elas não têm controle, para que foquem em soluções e a não ficarem frustradas. Ensino como aplicar técnicas do jiu-jítsu no tatame e, também, na vida, com relação a um problema, e a como pensarem de forma estratégica e a terem paciência para achar uma solução. O “Mind&Body Defense”, programa que eu a Lorna criamos e que desenvolvemos em parceria com a Sports Ireland, combina a mente com o corpo como opção de defesa. Nas rodas de conversa, são compartilhadas, ainda, técnicas sobre mentalidade positiva e autoimagem.

A ideia é que as alunas reflitam sobre como elas se percebem e como se posicionam como mulher, como ser humano na sociedade. Além disso, trabalhamos a capacidade de se alcançar metas e objetivos mentalizando o passo a passo e por meio da disciplina. O cérebro, afinal, também é um músculo que pode ser treinado.

Você recomenda para algumas delas que procurem um psicólogo?

Recomendo, e muito, um terapeuta, inclusive, o meu, Michael (risos). Sou defensora total da terapia. Com toda a certeza, foram as sessões que me ajudaram em pontos cruciais e a ser uma mulher mais autoconfiante. Aprendi com a terapia a não seguir padrões da sociedade; a ter independência financeira; a não ter vergonha ou medo de ser sexualmente independente; a entender que minha melhora não depende dos homens; a aceitar o meu corpo; e a não romantizar os relacionamentos. Todos estes aprendizados me fizeram a não aceitar do outro ou de alguma situação menos do que eu ofereço a mim mesma, incluindo amor e cuidado.

Na Irlanda, você se deparou com casos de violência doméstica e com pessoas sofrendo de depressão. Como sua própria história ajuda a lidar e fazer palestras sobre estes assuntos tão difíceis de se abordar?

Tive diversas experiências, que, de acordo com algumas pesquisas científicas, são responsáveis por um alto índice de depressão. Entre as situações pelas quais passei estão: perda de autoestima; ansiedade extrema; rejeição; viver com medo, esbarrando em pânico; me comparar muito com outras pessoas. Desde a infância, eu tinha claro na minha mente que iria ter que batalhar para vencer, até mesmo por crescer vendo a minha mãe trabalhando, e muito, para dar à nossa família o melhor que podia. O jiu-jítsu e a terapia chegaram para agregar e me ajudaram a não me entregar aos problemas. Além disso, me concederam coragem para mudar. Me arrisquei muito em ir para outro país, em passar a viver numa nação sem nem ao menos saber a língua local. Me desafiei a encarar outra cultura e sem saber o que aconteceria, se daria certo ou não. Foi na incerteza sobre o meu futuro, que encontrei a certeza para mudar radicalmente. Também não posso deixar de valorizar a minha espiritualidade neste processo – e isso não tem nada a ver com religião. Falo sobre a conexão que temos com algo maior e que nos sustenta nos piores momentos, que nos faz escolher à luz em detrimento da escuridão. Eu faço meu possível, com disciplina, coragem e gratidão. Para Deus, deixo o impossível, quando já não depende mais de mim alguma circunstância. E, não é questão apenas de ser uma espécie de “exemplo” para outras pessoas, por apresentar bons resultados, indicar caminhos de superação e defender que a felicidade e o recomeço são possíveis. É ter o compromisso de passar isso para frente. De multiplicar. É quase uma responsabilidade social.

Você desenvolveu técnicas próprias. Fale um pouco deste processo:

Um grande mestre do jiu-jítsu, pelo qual tenho grande admiração, Rubens Charles Maciel, o Cobrinha, me disse, uma vez: “treine, mas de forma inteligente. Faça diferente. A partir do momento que você mostrar que o que faz está dando certo, as pessoas começam a seguir sua teoria e, consequentemente, você cria uma cultura, o seu método”. Achei isso fundamental, não somente para treino, mas para todos os aspectos de nossa vida. Minha experiência é só minha, então, não adiantava muito eu seguir a receita de alguém para compartilhar o que vivi – seja na tristeza, nos erros e nos acertos, no enfrentamento dos desafios, ou na felicidade por vencer vários obstáculos. A cada aula, a cada especialização que fiz, a cada palestra que ministrei fui moldando, experienciando apostando em mudanças. Procuro dizer que em vez de medo, de vergonha e de reclusão, apostei em bravura, em força e em coragem para expor minhas feridas e orientar outras mulheres que há espaço para o recomeço. Combato a solidão que nos enclausura nos momentos mais difíceis.

Quanto à violência doméstica, quais as diferenças e as semelhanças entre a realidade brasileira e a irlandesa?

No mundo, três em cada cinco jovens sofreram ou conhecem alguém que sofreu abuso, de acordo com a womensaid.com. Infelizmente, este cenário está em constante crescimento, seja no Brasil, na Irlanda ou em outros países e, sobretudo, após a pandemia de Covid-19. Tenho a sensação de que, em relação às irlandesas, as brasileiras desenvolvem a autoconfiança mais rapidamente, talvez por conviverem desde cedo com situações ruins. Geralmente, crescemos com medo de algo (desemprego, violência), lutamos contra o abandono, a desilusão, a depressão. Então, penso que, nós, brasileiras, acabamos sendo “treinadas” desde tenra idade para estarmos sempre em alerta. Em termos de Segurança Pública, é nítido que aqui, na Irlanda, o índice criminal é indiscutivelmente menor. Esta sensação de estar seguro pode fazer com que as mulheres daqui fiquem menos em alerta. Outro fator que influencia, a meu ver, na formação desta autoconfiança, é a falta de vitamina D, ativada naturalmente pela exposição ao sol. Só que não tem tanto sol na Irlanda. Segundo a Ciência, a vitamina D regula as funções do sistema nervoso central, cujos distúrbios estão associados à depressão. Além do mais, há ainda a não aceitação de imagem por parte de algumas pessoas, em razão da cor da pele ser muito clara. Outro problema que leva à depressão, por aqui, é o uso de droga, que também leva à agressão e à vulnerabilidade.

Como foi a experiência de falar com mulheres indianas que vivem na Irlanda?

De acordo com uma pesquisa da Thomson Reuters Foundation, a Índia é o país mais perigoso do mundo para as mulheres. É quase que cultural. Sabendo disso, foi delicado abordar defesa pessoal com elas, ao mesmo tempo em que era tão necessário. E, por isso, agradeço a uma das alunas do meu workshop que me indicou para este webinar. Por outro lado, fiquei tranquila em falar de como o Esporte pode oferecer mais autoconfiança a elas, mas respeitando a cultura e a religião que seguem.

Lutadora Jaqueline Almeida em combate. Foto: Arquivo pessoal
Lutadora Jaqueline Almeida em combate. Foto: Arquivo pessoal

Quão importante de maneira geral é falar dos problemas que afligem as mulheres para o grande público?

É inegável que o século 20 representou um grande avanço em relação aos direitos das mulheres. Contudo, hoje em dia, as mulheres ainda encontram problemas estruturais que dificultam a busca por igualdade social, e isso em diversos aspectos. Então, é inegável a importância de se falar de forma clara sobre experiências e superações. Infelizmente, a sociedade ainda não está preparada para abrigar mulheres confiantes. Para muitos homens, principalmente, isso é assustador. Não aceitam mulheres tendo poder, nem com personalidade bem definida – popularmente conhecida como “personalidade forte”. Sempre menciono às minhas alunas que mulheres não deveriam precisar aprender defesa pessoal, mas que, no mundo em que vivemos, infelizmente, não vejo outra alternativa a não ser estar sempre em alerta. Com relação ao poder de fala, atualmente temos mais espaço quanto a empoderamento, a direitos da mulher e demais temas relacionados a esta seara. Contudo, não concordo, muitas vezes, com a abordagem. Não se pode fazer dessas bandeiras algo piegas, instrumento meramente eleitoral (e não de política pública), algo pejorativo ou instrumento para separar ainda mais elas deles. Precisamos batalhar, agora, pela igualdade, mas no sentido de união e de se exigir uma nova aceitação por parte da sociedade, mesmo perante às diferenças que há entre homens e mulheres, inclusive físicas. Na luta, por exemplo, é natural que o homem tenha mais força do que a mulher. Por outro lado, a mulher pode ter técnicas e estratégias diferentes para ter, também, um resultado positivo.

Na Irlanda, você entrou para a academia de John Kavanagh, treinador de Conor McGregor. Como foi conhecê-los, treinar e trabalhar com eles?

Treinar com John Kavanagh e Conor McGregor foi um privilégio. Eles são a personificação do que me disse, um dia, o meu grande ídolo, o Cobrinha: “primeiro, você mostra os resultados, para depois se tornar o exemplo e criar uma cultura”. Esses dois mostraram um resultado incrível para o mundo. Então, estar ao lado deles em algum momento da minha vida foi um presente, uma vez que são referências para mim. O John, além de ser um excelente mentor, muito técnico, é crítico, criterioso e detalhista. Trabalhar com ele foi ter a oportunidade de tentar, de aceitar e até de errar e de melhorar diante do desastre e do acerto. O John está sempre disposto às tentativas de ver algo dar certo. E, mesmo quando não dá certo, para ele, algo você aprendeu com o que aconteceu. Para o John, não existe perda, somente ganho e aprendizado. Já o Conor é extremamente prestativo e respeita muito a mulher no tatame. Sempre ajuda nos treinos com conselhos, técnicas e ponderação. Uma vez, falei para ele, toda eufórica, que queria muito participar de campeonatos de jiu-jítsu e ser campeã mundial. Ele respondeu: “então, treine bastante... a sua paciência”. E ele estava correto. O fim até pode ser a vitória, mas o começo passa por coragem e o meio tem ligação direta com a paciência, o respeito e a disciplina.