A luta do pole dance para se transformar em esporte olímpico

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Evento com participação da Federação Brasileira de Pole Dance (Reprodução)
Evento com participação da Federação Brasileira de Pole Dance (Reprodução)

Na antiguidade, lutadores e ginastas utilizavam técnicas muito parecidas com o pole dance para desenvolver músculos e ganhar desenvoltura. Alguns séculos depois, como tudo na vida, a prática se desenvolveu e sofreu adaptações pontuais. Não é incomum que as pessoas se lembrem de movimentos provocativos e sensuais quando ouvem falar de pole dance. Mas até isso está mudando. Acredite se quiser, o pole dance quer virar esporte no Brasil.

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O passo para essa mudança nem é tão novo assim. Em 2009, foi criada a Federação Brasileira de Pole Dance, a FBPOLE, que ajudou a abrir outros caminhos, sobretudo o de concepção como atividade artística/esportiva. Passando por transformações que traçam paralelo com o estilo burlesco, o pole dance ganhou alguma projeção nos anos 1980 com a cultura do strip-tease em boates nos Estados Unidos.

Já se foi o tempo em que a modalidade era praticada com o único fim de provocar e ser um apoio erótico. O pole dance moderno abrange outros gêneros de arte. E agora, além de ser uma performance propriamente dita, adentra o mundo competitivo. O intuito é desmistificar o conceito a respeito da dança, de forma que ela seja vista como atividade física de alto rendimento. Além disso, a FBPOLE criou regras e parâmetros para arbitragem específica.

Recentemente, o estúdio V, uma academia de pole dance de São Paulo, promoveu um evento completo com várias atividades para projetar ainda mais a modalidade no Brasil. Cerca de 200 academias ao redor do Brasil, como o estúdio V, estão filiadas à FBPOLE.

Os campeonatos de pole dance estão crescendo no país. Assim como na ginástica olímpica, existe uma exigência de combinar a coreografia com a música de fundo. E se engana quem pensa que apenas mulheres participam desses torneios. Há espaço para apresentações individuais e em duplas. Em longo prazo, a tendência é que mais atletas brasileiras se profissionalizem, para que o Brasil seja realmente competitivo em eventos internacionais.

O desafio do ponto de vista desportivo

Falamos especificamente sobre isso com Vanessa Costa, presidente da FBPOLE, que nos deu um panorama mais básico e traçou algumas das dificuldades, desafios e missões no esporte. “O pole já é considerado como prática esportiva. Para que ele seja considerado como esporte, é necessário que haja adesão de uma maioria de pessoas. Atualmente, temos mais de 200 academias cadastradas à Federação ao redor do Brasil, o que implica em cerca de 2000 praticantes. Fora o cenário mundial, que é muito grande.”

“No próximo fim de semana, estou indo para Las Vegas, onde acompanharei um evento fitness, onde a gente vê o pole inserido. É uma feira de fisiculturismo muito famosa, que é o Mr. Olympia. Mais uma vez, vou estar presente nisso. É um marco histórico grande. O pole, em conjunto com outras modalidades esportivas, olímpicas ou não, todas são práticas físicas, à medida em que você se exercita, trabalha a mente e o corpo, pode-se dizer que você está praticando uma atividade física”, diz Vanessa.

“O futuro é promissor. O pole vem ganhando espaço e conquistando cada vez mais adeptas, apesar dos desafios que eventualmente surjam. “O caminho é o de crescimento. O pole conserva o lado lúdico e tem um apelo artístico muito grande. Mas ele evolui esportivamente, também. Nós da Federação trabalhamos para que, um dia, quem sabe, seja olímpico e que ele possa ser reconhecido, para que cada vez mais pessoas possam praticar a modalidade.”

“Por incrível que pareça, os maiores desafios são internos. A nossa maior batalha é de conscientizar os próprios praticantes do que eles estão fazendo. Depois é que conscientizamos o senso comum. Isso é muito bacana, mas de certa forma dá muito trabalho. Estamos procurando consolidar a atividade dentro desse meio é importante, provar para as pessoas o quanto era importante participar dos eventos, competir e demonstrar resultados, de forma que a atividade crescesse cada vez mais”, finaliza Vanessa.

Quem pratica, recomenda

O que dizem, então, os praticantes e entusiastas de pole dance? Falamos com uma adepta da modalidade, Christiane Coelho Intrieri, estudante de psicologia, que frequenta uma academia em Curitiba. Ela ajuda a explicar melhor a motivação e os benefícios que essa prática traz para a nossa rotina.

“Eu procurei o pole dance porque já fiz circo e gostei muito da parte mais acrobática, tecido e trapézio. Mas quando comecei a faculdade, não deu para continuar com as aulas de circo. Aí resolvi experimentar pole dance e me apaixonei. Muitas coisas melhoraram, desde então. Fisicamente, eu noto que ganhei força e massa muscular, de uma maneira que nenhum outro tipo de treino havia proporcionado. Também melhorei bastante o alongamento. Além, claro, de ter constatado uma melhor disposição e bom humor. O pole dance faz muito bem para a minha saúde mental, certamente”, afirmou Christiane.

Por fim, entramos em contato com Vanessa Reichert, dona do estúdio V. Ela nos fornece um olhar de quem ensina e quem há muito tempo trabalha com o pole dance. Vanessa comenta sobre preconceitos e divulgação na mídia.

“O preconceito, pois ele ainda existe. Por muito tempo o pole dance foi visto apenas como dança sensual e ligado a filmes de striptease e boates. Algumas alunas ainda demoram um tempo para falar abertamente que praticam. Mas com o desenvolvimento da modalidade, o pole passou a ser visto pelo seu lado fitness e esportivo, com campeonatos de alto nível técnico. Hoje as pessoas buscam o pole como uma atividade física. Muito tem sido feito em matéria de divulgação. O papel da imprensa nesse sentido é muito importante.”

Mas, dentro desse contexto de afirmação e de saúde para os praticantes, por que o pole é uma alternativa diferente aos outros tipos de dança e atividades aeróbicas? Vanessa não tem dúvida a respeito disso.

“Os maiores benefícios estão ligados ao corpo e mente. O pole tem efeitos incríveis na relação da mulher com o corpo, começando pelo uso de roupas bem curtas, que favorecem o atrito da barra com a pele. Durante as aulas precisamos nos encarar em um espelho enorme com roupas pequenas, nos fazendo enfrentar nossos próprios preconceitos com o corpo. As aulas acabam sendo um grande processo de auto aceitação. As alunas passam a se gostar mais e percebem que são mais fortes e bonitas do que imaginavam.”

“A prática do pole ajuda também a aliviar as tensões do dia a dia não só porque as alunas se desligam durante as aulas, mas porque o pole ensina a lidar com desafios e frustrações. Fazemos coisas incríveis: ficamos de ponta cabeça e dobramos o corpo de formas inimagináveis. Mas nada disso é fácil. Precisamos de treino e dedicação. Depois das aulas, essa força interior também é levada para as outras esferas da vida. O pole também tem a vantagem de trabalhar todos os músculos de uma vez e chega a queimar de 300 a 500 calorias em uma hora.”

Fomentar a prática do pole dance é um trabalho mais difícil do que parece. Até pela questão do preconceito, como a própria Vanessa observa. Porém, ela garante que a atividade é inclusiva como nenhuma outra.

“É diferente porque nem todas as mulheres gostam das tradicionais academias de ginástica. Umas porque acham a atividade monótona, outras porque não gostam do ambiente, por considerarem-no competitivo. Os estúdios de pole acabam sendo são um ambiente mais feminino e mais acolhedor. Ele é uma atividade mistura acrobacias, com dança e com fortalecimento. O pole também não tem restrição de idade ou peso”, completa Reichert.

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