Se não lutássemos, ainda seriamos escravizados

As pessoas que hoje acusam o movimento negro de “mimimi” são as mesmas que naquele período histórico defendiam a continuidade do escravismo e acreditavam que negros e brancos não poderiam ser colocados em pé de igualdade de direitos (Ricardo Moraes/REUTERS)
As pessoas que hoje acusam o movimento negro de “mimimi” são as mesmas que naquele período histórico defendiam a continuidade do escravismo e acreditavam que negros e brancos não poderiam ser colocados em pé de igualdade de direitos (Ricardo Moraes/REUTERS)

Texto / Pedro Borges

Você tem todo o direito de não concordar com o que o movimento negro brasileiro apresenta de soluções políticas para o Brasil. O que você, nem qualquer pessoa pode, é deixar de reconhecer a importância histórica da luta protagonizada por mulheres e homens negros para a conquista de direitos para o maior segmento racial do país.

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A afirmação que faço no título é contundente, mas não é exagerada. Ela é real. Os 388 anos de escravidão concedem ao Brasil o título de país onde o regime de tortura e trabalho forçado perdurou por mais tempo em toda as Américas.

O fim desse formato de governança só foi possível com a junção de uma série de fatores, entre eles e o principal, a resistência cotidiana. Africanos e seus descendentes fizeram revoltas, queimaram fazendas, praticaram o suicídio, entre outras formas de enfrentamento, para resistir diante do mais duradouro e perverso regime escravista do continente. 

Com o fim do escravismo, as dificuldades não cessaram e a luta continuou. As associações e a imprensa negras foram fundamentais para que esse grupo se organizasse e pudesse participar, mesmo que de maneira bastante segregada, do mercado de trabalho.

Foram essas pessoas que também lutaram para que vocês, negras e negros que nos leem, pudessem ter o direito ao voto. Brigaram também para que se pautasse a erradicação do analfabetismo, porque de que adiantava o negro poder votar, se só os alfabetizados podiam e não havia educação pública e gratuita para esse grupo?

Por conta desses ativistas, as empregadas domésticas atingiram o básico, a possibilidade de ter os mesmos direitos que qualquer outro profissional. Em 2015, depois de muita pressão, essas trabalhadoras adquiriram cerca de 16 direitos, entre eles o FGTS. Uma profissão ainda marcada por traços do Brasil colônia e responsável por exigir das mulheres negras uma mão de obra pesada e mal remunerada. Com a luta do movimento, há agora uma mínima garantia de direitos.

É esse movimento que lutou para que as universidades públicas abrissem as portas para a entrada de jovens negros. A generosidade da ação antirracista no país é tamanha que junto das cotas raciais sempre vieram as sociais e a possibilidade de estudar para um jovem branco da periferia.

É esse movimento social que se articula todos dias para acabar com a brutalidade policial e o encarceramento em massa contra jovens negros. São pessoas, leitor, que você provavelmente não conhece e talvez nunca venha a conhecer, mas que oferecem ajuda para mães, pais e familiares que tiveram seus filhos assassinados. Gente que tenho orgulho de caminhar junto. 

Por isso, faço questão de recordar esses grupos e praticar um exercício de valorização do coletivo. Cito, com muito carinho, o nome de organizações que foram e são importantes para esse processo: Quilombo dos Palmares, Frente Negra Brasileira, Associação Cultural do Negro, Movimento Negro Unificado (MNU), Unegro, CONEN, Educafro, Uneafro, Marcha das Mulheres Negras, entre tantas outras.

As pessoas que hoje acusam o movimento negro de “mimimi” são as mesmas que naquele período histórico defendiam a continuidade do escravismo e acreditavam que negros e brancos não poderiam ser colocados em pé de igualdade de direitos.

Provável que daqui a 100 ou 200 anos, isso se a humanidade não tiver destruído todo o planeta, as pessoas olhem para esse período histórico e vejam como existiram pessoas que lutaram pelo fim do encarceramento em massa, pelo fim do projeto genocida de execução de pessoas negras e pela entrada desse grupo nas universidades.

Fico feliz de fazer parte desse lado da história, de andar com pessoas que acreditam em um mundo mais justo e democrático. Ando com pessoas que, se tivessem nascido durante o período colonial, estariam ao lado de Dandara e Zumbi. Eu, com certeza, estaria.

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