O que impede Lula de aderir às frentes anti-Bolsonaro?

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O ex-presidente Lula. Foto: Filippo Monteforte / AFP (via Getty Images)
O ex-presidente Lula. Foto: Filippo Monteforte / AFP (via Getty Images)

Em um vídeo publicado em suas redes sociais no sábado (30), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu união para o que chamou de luta em defesa da democracia contra o governo de Jair Bolsonaro, a quem atribuiu a intenção de dar um golpe no país. 

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No dia seguinte, as alas anti-fascistas de torcidas organizadas de diversos times foram às ruas protestar contra a escalada autoritária de um presidente que incentiva a criação de milícias armadas, ataca a imprensa, joga as Forças Armadas contra Outros Poderes, promete desobedecer ordens judiciais, vê o filho deputado anunciar que a ruptura está próxima e desfila em manifestações que usam símbolos supremacistas com pedido de intervenção.

Com as tochas agora voltadas para elas, e sem nenhuma esperança de que saia alguma alternativa à crise após a famigerada reunião de 22 de abril, juristas, artistas, economistas, personalidades e demais representantes da sociedade civil se mobilizaram em defesa da democracia sob o argumento de que hoje são a maioria da população -- contra 33% que apoiam fielmente o capitão.

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A rebelião ganhava contornos de Diretas Já pelas ruas e páginas de jornais.

Na segunda-feira (1º), Lula voltou a público para dizer que Bolsonaro é “resultado de um processo que se deu desde a cassação de uma presidenta sem crime”. “Agora perceberam que o troglodita que eles elegeram não deu certo”, ironizou ele, em uma reunião online do partido publicada em suas redes.

Lula reclamou da ausência do PT nas frentes de defesa da democracia, que para ele querem “reeducar o Bolsonaro” sem reeducar o ministro da Economia, Paulo Guedes. Querem também, segundo ele, deixar o seu partido de lado no processo. “Tem pouca coisa de interesse da classe trabalhadora nesses manifestos. O editorial do Globo é uma proposta de acordo pra manter o Bolsonaro”, disse.

Lula questionou as razões de parte dos signatários para se livrar de Bolsonaro e perguntou o que querem no lugar. Voltou a falar de elites e atribuiu a perseguição das elites ao seu partido à rejeição das conquistas das classes trabalhadoras durante os governos petistas.  

As diferenças podem não ser só programáticas. 

Segundo a jornalista Mônica Bergamo, Lula já vinha recusando convites para participar de debates e eventos com os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer. A mágoa com o tucano se deve ao fato de ele não ter saído em sua defesa quando sua prisão foi decretada; a bronca com Temer, que sucedeu Dilma, não é preciso nem comentar.

Na videoconferência com o PT, Lula disse que não tinha idade para ser “maria vai com as outras”. Foi efusivamente cumprimentado pelos demais participantes da reunião, Dilma entre eles.

É fato que a condenação de Lula, às vésperas da eleição, mudou a correlação de forças da disputa. E que 2016 promoveu mais traumas do que a união aventada por Michel Temer, o beneficiário do grande acordo nacional, com Supremo, com tudo, confessado por Romero Jucá para conter o avanço da Lava Jato. Mas a crise política tinha uma tempestade econômica de fundo e uma queda de quase 8% do PIB entre 2015 e 2016 que levou a popularidade de Dilma Rousseff ao volume morto dos 10% de aprovação.

Lula reivindica a hegemonia de um campo que se esfacelou.

Em postagem anterior, ele desejou sorte a Ciro Gomes e Marina Silva, mas disse que não dividiria aos fileiras ao lado dos ex-ministros. Há mais de dez anos, a ex-titular do Meio Ambiente deixava o PT sob justificativa de que a legenda se tornara igual às outras. O governo seguiu, com o apoio do que hoje se convencionou a chamar de centrão e tendo o PMDB como aliado preferencial.

No governo que Lula diz ser odiado pelas elites, nunca os bancos lucraram tanto. Ao mesmo tempo, nunca se prendeu tanto: em 2003, o país tinha 160 pessoas detidas a cada 100 mil habitantes; dez anos depois, chegou a 274. A taxa de encarceramento cresceu, entre 2003 e 2013, 71,2%, contra uma média de 8% dos demais países.  A maioria dos presos (80%) não tinha condições de pagar um advogado.

Entender as contradições desses anos Lula é entender a contradição do discurso elite x povo que Bolsonaro tenta atualizar sob os signos de sistema x povo. 

Isso não quer dizer que os antípodas sejam lados opostos da mesma moeda. Até Bolsonaro, o Brasil ainda não tinha visto um presidente eleito citar Benito Mussolini em manifestação pública. Agora vê. Nem transformar uma falsa declaração atribuída a Winston Churchill em nova peça de coleção de fake news.

Lula, que optou por um governo de conciliação (em contraste com a disrupção anunciada diariamente por Bolsonaro), acerta em questionar o que será o day after de uma eventual queda do governo atual -- que, vale dizer, dificilmente cairá, nem que os 70%, que não são bem 70%, se tornem um país inteiro, menos Bolsonaro e sua família. Para ele, o problema não é só Bolsonaro; é também Paulo Guedes.

Mas erra em minimizar o antipetismo como a força que transformou um azarão rejeitado por 44% dos eleitores em 25 de outubro de 2018 (dados do Datafolha) em presidente da República. A rejeição de Fernando Haddad, o candidato petista que entrou na corrida às pressas quando todos sabiam que a candidatura de Lula era uma miragem jurídica, era de 52%. (A de Ciro Gomes, por exemplo, era de 22%).

Menos de dois anos após a sua eleição, Bolsonaro é rejeitado por 43% dos eleitores, segundo o Datafolha mais recente. Número similar ao que foi apontado ao longo da campanha que o elegeu.

A força dos que avaliam o governo regular, como eram os indecisos até certa altura da campanha de 2018, ainda é uma incógnita, e depende de quem estiver do outro lado. Hoje somam 22% -- e não necessariamente estão conectados com os 43% que se afirmam como 70%.

O fato é que, longe da aprovação raquítica de seus dois antecessores, o governo Bolsonaro não é hoje nem sombra daquele que deu a largada com uma perna na barca da Lava Jato e outra no liberalismo que se rebelava contra o neodesenvolvimentismo ancorado no apoio bilionário aos chamados campeões nacionais.

Emparedado, Bolsonaro já não tem Sergio Moro para exibir como troféu nos jogos do Flamengo. Não tem sequer ministro da Saúde com formação médica para evitar o morticínio que ceifa em média mil novas vidas por dia na pandemia do coronavírus. E a terra prometida por Paulo Guedes é um país que crescia 1,1% ao ano em condições favoráveis -- hoje o rombo mais otimista previsto é de 10% no PIB.

Tirando os tubarões de sempre, não tem investidor com visão de longo prazo que não veja a capacidade técnica dos escolhidos para a Educação e Ministério das Relações Exteriores e não arranque os cabelos diante do despreparo e dos riscos com os parceiros comerciais.

De queda, Bolsonaro vê o discurso anticorrupção se esborrachar no primeiro poste. Ainda assim, busca a sobrevivência abrindo a caixa de ferramentos do governo para o centrão, transformando a ala militar em segurança particular e gestora do orçamento para construção de estradas e obras públicas.

Parte dos eleitores ou apoiadores notáveis de Bolsonaro pulou do barco. Outros entraram, atraídos pelas medidas de combate à crise articuladas com o Congresso.

Alessandro Janoni, diretor de pesquisas do Datafolha, e Mauro Paulino, diretor geral do instituto, lembram que entre os 33% dos eleitores que avaliam o governo positivamente, 11% sequer votaram no então candidato do PSL. A maioria deles entrou com o pedido de auxílio emergencial de R$ 600 fornecido pelo governo aos brasileiros de baixa renda. 

A discussão hoje é se este auxílio será permanente ou não. Dele pode resultar o casamento definitivo com as classes populares que, em sua maioria, ainda rejeitam o capitão e a política privatista de Paulo Guedes.

Lula parece saber disso quando joga para o campo da economia a disputa que os manifestos em apoio à democracia adiam em fazer.

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