Lula sobre Bolsonaro: "A gente não pode permitir que esses milicianos acabem com nosso país”

Leo Correa/AP
Leo Correa/AP

RESUMO DA NOTÍCIA

  • No primeiro discurso à militância em SP, petista disse não ter ódio de seus “algozes”, após 580 dias preso, mas chamou Moro de “canalha” e “mentiroso”.

  • Ao lado de Freixo e Haddad, ex-presidente cobra elucidação do caso Marielle e diz que Bolsonaro governa “para os milicianos do Rio de Janeiro”.

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Por Janaina Garcia

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escolheu o mesmo palco do qual se despedira da militância antes de ser preso, em 7 de abril do ano passado, para anunciar seu retorno mais ativo à vida política o país. Neste sábado (9), a uma multidão presente do lado de fora do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (Grande São Paulo), seu berço político, o petista disse não ter ódio de seus “algozes”, face a uma prisão que durou 580 dias, mas direcionou ataques incisivos ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) e ao ministro da Justiça e ex-juiz federal Sergio Moro, responsável pela condenação dele na Operação Lava-Jato.

Final do ato em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo. Foto: Nacho Doce/Reuters
Final do ato em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo. Foto: Nacho Doce/Reuters

“O Bolsonaro tem que entender que foi eleito para governar para o povo brasileiro e não para os milicianos do Rio de Janeiro”, disse o petista, que reforçou: “Eu acho que não tem outro jeito. Não tem ninguém que conserta esse país se não quiser consertar. A gente não pode permitir que esses milicianos acabem com nosso país”.

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Além de familiares e amigos íntimos, Lula esteve acompanhado da noiva, a socióloga Rosângela da Silva, e de nomes do próprio PT, como o senador e ex-governador da Bahia Jacques Wagner, a presidente nacional do partido e deputada federal, Gleisi Hoffmann (PR), a ex-senadora Benedita da Silva (RJ), o ex-presidente do PT José Genoino (SP), o deputado federal José Guimarães (CE), o senador Humberto Costa (PE) e a governadora Fátima Bezerra (RN). Além deles, aliados pelo PCdoB e pelo PSOL, como o ex-presidenciável Guilherme Boulos e os deputados federais Marcelo Freixo (RJ) e Ivan Valente (SP), também o cercaram.

Ao lado de Haddad e Freixo, o petista cobrou uma nova perícia nas investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) – posição defendida por Freixo, semana passada –e mencionou que a investigação chegou ao condomínio onde mora a família de Bolsonaro, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. “A gente tem que saber quem mandou matar a nossa guerreira Marielle. Não é a gravação do filho [Carlos Bolsonaro] dele que vale – é preciso que haja uma perícia séria para que a gente saiba definitivamente quem matou nossa guerreira”, pediu.

Sobre a ida para a carceragem da Polícia Federal, em Curitiba, o petista afirmou não ter resistido à prisão ou ter buscado asilo em outro país a fim de que não fosse tratado pelas autoridades brasileiras como um fugitivo. “Quando eu saí daqui, eu tinha uma missão. Fiquei numa solitária e durante 580 dias me preparei espiritualmente para não ter ódio e sede de vingança, para não odiar meus algozes, porque eu queria provar que, mesmo preso por eles, eu dormia com a minha consciência muito mais tranquila que a deles”, definiu.

Apesar de se dizer contrário a mágoas e rancores, endereçou críticas menos amistosas também a Moro e ao procurador da força-tarefa da Lava Jato no Paraná, Deltan Dallagnol, autor da denúncia do caso do tríplex do Guarujá que originou a condenação e posterior prisão do petista.

“Tomei a decisão de ir lá para a PF – eu poderia ter ido a uma embaixada, a outro país, mas tomei a decisão de ir lá porque preciso provar que o juiz Moro não era um juiz, mas um canalha que estava me julgando”, disse, para completar: “Duvido que o Moro durma com a consciência tranquila que eu durmo. Duvido que o tal do Dallagnol durma. Duvido que senhor Bolsonaro durma com a consciência tranquila com que eu durmo”, definiu, citando ainda o ex-juiz e o procurador como “mentirosos”.

Em menção ao ministro da Economia, Paulo Guedes, foi direto: “Duvido que o ministro demolidor de sonhos, destruidor de empresas públicas e de empregos durma com a consciência tranquila com que eu durmo. Quero dizer a eles: eu estou de volta.”

O petista prometeu para daqui a aproximadamente 20 dias um pronunciamento à nação. Avisou que estará nas ruas contra o que considera desmonte de políticas públicas, promovidas pelo atual governo, e cobrou da militância “resistência” tal qual a de chilenos, que protestam, há dias, contra a previdência no país. “Precisamos também atacar, e não apenas nos defender”, afirmou.

Marcelo Freixo (à esquerda) e Fernando Haddad (no meio) acompanham o petista no palco. Foto: Leo Correa/AP
Marcelo Freixo (à esquerda) e Fernando Haddad (no meio) acompanham o petista no palco. Foto: Leo Correa/AP

Críticas à Globo e palavrão a Bolsonaro repreendido

Além dos ministros Moro e Guedes, do próprio Bolsonaro e de Dallagnol, o ex-presidente não poupou emissoras de TV como a TV Globo, a qual fez questão de mencionar já nos primeiros segundos de seu discurso à multidão: “Lá em cima está o helicóptero da Rede Globo de TV, para falar merda outra vez sobre o Lula e sobre nós”, observou, irônico. “A TV do Silvio Santos [SBT] está uma vergonha, a Record [do bispo Edir Macedo], idem. A Globo continua a mesma vergonha”, completaria, adiante.

Em uma das menções do petista a Bolsonaro, parte da militância entoou gritos de “Ei, Bolsonaro, vai tomar no c*” e foi repreendida por ele. Lula lembrou que palavras idênticas já haviam sido destinadas à então presidente Dilma Rousseff (PT), na abertura da Copa do Mundo de 1994, e concluiu: "Fui criado para não dizer palavrão. Não vou dizer palavrão a Bolsonaro: ele é o próprio palavrão."

“Não dê munição ao canalha”, escreveu Bolsonaro

Mais cedo, via Twitter, Bolsonaro comentou pela primeira vez a soltura de Lula, ainda que sem citá-lo diretamente, ao pedir a seus seguidores que não dessem "munição ao canalha". Sobre um vídeo em homenagem a Moro, escreveu: “Não dê munição ao canalha, que momentaneamente está livre, mas carregado de culpa."

Petista também gravou vídeo

Também hoje, mais cedo, em sua primeira aparição nas redes sociais após deixar a carceragem da PF em Curitiba, o ex-presidente postou um vídeo nas redes sociais em que brincou com a própria idade e disse estar livre "para ajudar a libertar o Brasil dessa loucura que está acontecendo no país".

Lula se dirigiu aos seguidores por meio de suas contas no Instagram e no Twitter. Agradeceu a solidariedade e disse ser "um senhor muito jovem": "Tenho 74 anos do ponto de vista biológico, mas 30 anos de energia e 20 anos de tesão. Só para ficarem com inveja desse jovem que está falando com vocês".

Ontem à noite, Lula participou de uma festa organizada para ele no apartamento de um amigo em Curitiba, horas após ser solto. Na ocasião, encontrou o ex-ministro José Dirceu, também liberado ontem em Curitiba. Os dois receberam alvará de soltura na sexta-feira, depois da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que derrubou a prisão de condenados em segunda instância.

Condenado pela primeira vez na Lava-Jato em junho de 2017, o ex-presidente estava preso desde 7 de abril de 2018 na capital paranaense, onde cumpria pena de 12 anos e um mês de prisão relativa ao processo do tríplex do Guarujá.

Em abril de 2019, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reduziu a pena de Lula para oito anos e dez meses. Além disso, o petista responde à acusação de ter sido beneficiado por reformas em um sítio em Atibaia, no interior de São Paulo. Nesse processo, o petista já foi condenado em primeira instância a 12 anos e 11 meses de prisão. Resta ainda o julgamento no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), que é responsável por julgar os casos de condenações da primeira instância.


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