Luiz Gomes: 'Manipulação de resultados é ameaça na volta do futebol'

Luiz Fernando Gomes
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Em entrevista publicada na sexta-feira pelo Globo Esporte.com, o diretor do departamento de anticorrupção e transparência do Centro Internacional pelo Esporte Seguro, Fred Lord, jogou luz sobre um efeito até aqui desprezado da pandemia de coronavírus: a corrupção e a manipulação de resultados. A tese de Lord, que já trabalhou na Fifa e na Interpol investigando fraudes no esporte, é bem simples: sem receber salários, vendo sua condição de vida se deteriorar com o longo período de paralisação de futebol, jogadores que atuam em clubes das divisões inferiores - e mesmo atletas de outras modalidades - tornam-se um alvo mais fácil para a ação dos criminosos que agem no submundo do esporte.

Faz sentido.

As casas de apostas movimentam milhões por todo o planeta. Na última década, invadiram o mundo digital, globalizando sua atuação. Clubes do tamanho do Real Madrid e do Milan, apenas para citar dois dos maiores, já tiveram marcas de sites de apostas estampadas como patrocinador sênior em suas camisas. E até eventos promovidos pela Fifa seguiram o mesmo caminho. Houve quem assumisse uma posição conservadora, purista, condenando tudo isso e defendendo a proibição das apostas no futebol. E qualquer publicidade desse setor no esporte, como aconteceu com o cigarro, a partir do final dos anos 90. É uma visão míope do negócio.



O problema não está nas apostas. Apostar é um hábito quase tão antigo quanto a humanidade. No site Aposta 10, especializados no assunto, o colunista Lucas Portela escreve: “É até engraçado pensar, mas no começo da era primitiva, as pessoas usavam flechas, pedras, lanças, paus e qualquer outro tipo de arma para participar dos jogos. Com flechas, provavelmente ganhava aquele que acertasse determinado alvo. Os registros históricos sugerem que quem arremessasse mais longe sua pedra ganharia a aposta. Nessa época apostavam alimentos, animais, casas e as próprias armas”.

O problema é outro, e não é diferente do que acontece em tantas outras atividades: a ineficiência ou a falta de vontade política dos órgãos reguladores e das próprias confederações esportivas em reprimir a máfia organizada que atua em torno do futebol e de outros esportes em todo o mundo. E, se a fabricação de resultados já acontece em tempos de normalidade, imaginem em um cenário de pandemia. Na entrevista ao GE.com, Lord conta que, mesmo com o futebol suspenso, as fraudes continuaram; um campeonato fantasma foi inventado pelos criminosos na Ucrânia, reunindo equipes amadoras, em jogos que nunca ocorreram mas movimentaram mais de R$ 700 mil em apostas. Não fosse detectado a tempo, esses valores seriam muito maiores.

Não é culpa da banca de apostas se um sujeito como Mauricio Pelegrini, dirigente do São José e banido do futebol pelo TJD da federação carioca, envolvido na manipulação de resultados da terceira divisão do Rio, seja flagrado trabalhando normalmente e fazendo peneiras com jovens atletas, mesmo depois de condenado. São histórias como essa - e mais do que isso, a certeza da impunidade - que alimentam a máfia das apostas no Brasil e em outras partes do mundo, onde num universo muito distante do glamour milionário das elites, clubes pequenos, campeonatos de pouco audiência e jogadores que vivem de um salário minguado são um cenário perfeito para as fraudes.

Proibir as casas ou os sites de apostas seria a mesma coisa que tirar o sofá da sala para a filha não namorar - esse velho ditado popular. É um erro achar que essas casas – ao menos as que são regularizadas - lucram com a fraude. Tanto quanto os apostadores de boa-fé, que acreditam na veracidade de resultados, elas perdem com os altos prêmios que muitas vezes têm de pagar e que são resultados da manipulação mafiosa. Seria importante, embora essa não seja delas uma obrigação, que entrassem firme na repressão aos criminosos do jogo. Atuando ao lado do estado, das entidades esportivas, ou fazendo o papel de quem deveria agir e não age.







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