Luiz Gomes: A falta que faz Senna vai muito além das pistas de Fórmula 1

Luiz Fernando Gomes
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Meu filho tem 14 anos. Nunca viu uma corrida de Fórmula 1 por inteiro. Não tem a menor paciência de sentar-se a frente da televisão para ver aqueles carros voando baixo, volta após volta. Velocidade para ele, como de resto para toda a sua geração, são as transloucadas perseguições nas telas de videogame assumindo personagens, heróis ou vilões, presentes em seu imaginário, em sua vida muito mais dos que os hoje tão famosos Lewis Hamilton, Sebastian Vettel ou Kimi Raikkonen.

Mas meu filho tem um ídolo, talvez menos, uma referência, que nunca viu. De quem não foi contemporâneo, alguém de quem só conhece a história de ouvir contar, dos vídeos que vez por outra captura no Youtube. Sim, Ayrton Senna --- 26 anos depois de sua morte, 12 anos antes do meu filho nascer -, de alguna forma continua vivo para ele e para adolescentes como ele. Seja pelos gibis e almanaques do Senninha que leram na infância, pela miniatura da Willians azul e branco na estante do quarto ou pelo adesivo colado no vidro da janela.

Talvez, Senna não frequente o universo dessa garotada por ter sido um piloto de Fórmula 1. Poderia ter feito outra coisa qualquer, praticado esportes até mais populares. O que sua história representa e simboliza para Francisco e sua trupe é a persistência, a busca determinada dos objetivos, a luta quase sem limites pela vitória, a obsessão pela perfeição que levava acima de tudo. Mais ou menos como os personagens dos videogames - será? - e isso tem tudo a ver.



Para nós, que vivemos os tempos áureos da conquista do tricampeonato mundial isso tudo importava de fato. Compunha a cena. Mas o talento, a delicadeza feroz com que preparava e conduzia um carro, a competitividade que superava os próprios limites nos impressionavam igualmente. Foi difícil a gente se acostumar com as manhãs de domingo sem poder torcer no sofá da sala, à espera, quase a certeza, de que ia ouvir o Tema da Vitória no final de cada prova.

A Fórmula 1 entrou na vida do brasileiro ainda na era da TV em preto e branco. A TV à cores, na época dos Fittipaldi, era um privilégio de muito poucos, os mais abastados. Eu me lembro de acordar cedo naqueles domingos dos anos de 1970 e ir para o clube onde um então moderníssimo televisor Philco de nem tantas polegadas assim mostrava a Lotus preto e dourada e aquele capacete vermelho e preto de Emerson desfilando pelas pistas do mundo. E vencendo. Foi nosso primeiro herói das pistas.

Vieram José Carlos Pace - que um desastre aéreo cortou o destino de também ser campeão do mundo -, Nelson Piquet e o próprio Senna, a sacudirem corações e mentes brasileiras até aquela curva de Imola. Vieram Rubinho - um talento talvez injustiçado pela sorte - e Felipe Massa que não repetiram como se sabe o sucesso dos antecessores. O que ainda que tivessem feito não mudaria muita coisa, o mundo da F1 jamais voltou - e não voltaria - a ser o mesmo depois da Tamborello.

Rever o título de Ayrton neste domingo é um mergulho no passado. Hoje, não temos mais ídolos, vivos, como ele. Assim como nos faltam referências em outros tantos, ou na maior parte, dos segmentos da vida nacional. Faltam Sennas como faltam Tancredo e Dr. Ulisses, Evandro Lins e Silva e Evaristo de Moraes, Barbosa Lima Sobrinho, Austregésilo de Athayde, Dom Paulo Evaristo Arns e tantos outros que viveram e enobreceram outros tempos. Gente em quem se podia confiar, mesmo que deles se discordasse. E isso valoriza ainda mais a perpetuação do legado e da memória de Senna.






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