O locutor do Brasil

Mauro Beting e Mauro Beting
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Luciano do Valle e Mauro Beting, Copa de 1998, Parque dos Príncipes
Luciano do Valle e Mauro Beting, Copa de 1998, Parque dos Príncipes

Quando Pinilla mandou aquela bola no travessão do Mineirão no Brasil X Chile da Copa de 2014, ele havia acabado de chegar. Como sempre fez com elegância, quando não concorda com algo, prefere o silêncio. Ou o trabalho bem feito. Contra a Alemanha, na semifinal daquela Copa, ele não disse nada para o novo patrão. Mas pensou quanto diria ao microfone que tão bem usou por mais de 50 brilhantes anos.

Quando a australiana mandou em 2016 um balaço no mesmo travessão do Mineirão, ele resolveu se levantar. Não falara nada em 2014 que tanto sonhou com a Copa por aqui. Mas agora, com as meninas que sempre tratou tão bem, que tanto levantou a bola, já era demais!

O Brasil não jogava o bolão que mostrara contra Suécia e China na disputa do ouro do futebol feminino da Olimpíada do Rio. Sem Cristiane, Marta centralizada não fluiu tão bem no 4-2-4 contra o bem armado 4-1-4-1 australiano. Nem o avanço da incansável Debinha para fazer dupla com Bia funcionou.

De volta à armação pela direita, no 4-4-2, Marta e todo Brasil fizeram menos, mesmo com o notável esforço de Andressa Alves. Mas ainda fizeram mais que a Austrália. As rivais jogaram a melhor partida delas. Só não fustigaram tanto pela ótima partida de Monica e Rafaela.

Faltou Vadão apostar antes em Andressinha. Mas como tirar Formiga ou Thaísa? Ainda que fosse a mais pálida partida brasileira com o time completo, a excelente goleira Williams impediu a vitória nos 90 minutos que pareceram dias, nos 120 que foram a tensão de 220.

Pênaltis...�

Na mesma meta contra o Chile de 2014...�

Muitas canhotas batendo pelo Brasil... �

Eu quero 11 canhotos no meu time jogando. Mas 11 destros batendo pênaltis. E JAMAIS o craque do time cobrando o último pênalti.

Aquele que Marta bateu rasteiro e Willians foi pegar. Mineirão não mais berrando EU ACREDITO.

Tudo acabado.

Então ele não se aguentou de vez. Já tinha perdido a oportunidade de narrar a Copa no Brasil, levado que foi antes da hora pelo coração verde-amarelo. Já não pode narrar aqui no país que tão bem contou a história o que só ele podia relatar de tantos esportes que não só elevou, mas criou, recriou, levantou, promoveu, reforçou.

A Olimpíada no Brasil tinha de ser com ele. Contada por ele.

Ele chegou ao dono da bola antes da cobrança que seria fatal. Ele foi falar com os deuses do esporte e com que o levou:�

- Assim não dá! Essas meninas não merecem ser eliminadas. O Mineirão não merece outra derrota assim. Eu já não posso narrar. Você não vai deixar isso acontecer!

Ele é misericordioso, você sabe, o dono da bola. Ouviu os apelos da voz dos esportes no Brasil. O Magnânimo deu força para Bárbara defender o pênalti que empatou a série. E deu à goleira a técnica e rapidez para buscar o pênalti decisivo de Kennedy.

Aquele que fez as meninas pularem na direção da goleira, enquanto Marta se virava para o meio-campo para celebrar a merecida redenção dela e das meninas.

Depois da virada e da bronca que deu Nele, nosso companheiro de tantas jornadas voltou ao lugar lá no céu que é dele desde 2014.

Para continuar vendo a Olimpíada que, mais que qualquer outro brasileiro, merecia ver e contar ao país. Aquilo que, como diria outro gênio da narração como Silvio Luiz, "só ele viu" no futebol feminino nos anos 1990, no vôlei nos anos 1980, e no esporte quase sempre.

Obrigado, Luciano do Valle, pelos 17 anos de amizade, pelos 40 de aprendizado, pela vida que fez o Brasil ser mais esportivo e, também, pela virada nos pênaltis contra as australianas.

A Marta, as meninas e você não mereciam perder essa.

Você fez o Brasil virar aquele jogo.

Esse é Luciano do Valle. Esse foi o texto que publiquei naquela noite olímpica no Mineirão.

4 de julho ele faria 73 anos. Neste domingo a Band o homenageia.

Neste sábado tive que ir a Santos. Na volta, passei pelo túnel Joelmir Beting, na Imigrantes. Subi mais um pouco para casa e passei pelo túnel Luciano do Valle, na mesma estrada.

Na mesma estrada.

Me fez lembrar tudo isso:

Copa de 1998. Parque dos Príncipes. Bulgária x Nigéria.

Juro. Não lembro quanto foi esse jogo da primeira fase. O primeiro que comentei numa Copa com o Luciano do Valle na Band. Mas se você me perguntar o que ele falou em 1982 no Sarriá. Como ele terminou a transmissão daquele Mundial pela Globo. Eu vou lembrar o que ele falou.

Como jamais esquecerei tudo que ele me falou como colega e depois amigo. Nas cabines, aviões, carros, restaurantes e um final de tarde na casa dele, em Porto de Galinhas, em frente ao mar, onde morava com a querida Luciana Marianno: "Maurinho [ou Maurão, dependia do momento], quando estou aqui nesse horário às vezes eu penso em voltar pra trabalhar em São Paulo, ficar próximo da Record... Mas daí eu imagino este fim de tarde na marginal Tietê... Aí eu penso. Vou mesmo ficar por aqui. Indo e voltando pra Pernambuco. Mas lembra daquele nosso papo na primeira transmissão nossa em Araçatuba, em 1997, que eu iria só fazer Sydney 2000 e me aposentar? Pois é... Já estamos em 2003... Acho que só vou parar quando me pararem...".

Seria em 2014. Indo narrar como só ele. Como vejo essa foto e penso na minha petulância de dividir cabine e transmissão. E amizade. Luciano, obrigado pela amizade da família querida e colega. Obrigado por sua carreira. E muito pela minha também. Mais tarde publico nos meus blogs um pouco mais desse craque.