Carioca troca futebol por skimboard e avança com título mundial

Fernando Del Carlo
·5 minuto de leitura
Lucas Fink pega onda em Ubatuba, no estado de São Paulo (Marcelo Maragni/Red Bull Content Pool)
Lucas Fink pega onda em Ubatuba, no estado de São Paulo (Marcelo Maragni/Red Bull Content Pool)

É possível que nem todos se lembrem de uma marca de protetores solares em 1987 da qual o ator Patrick Oliveira fazia propaganda sobre o uso do produto: ”Garoto esperto, sete anos de praia”. Lembrança à parte e sem buscar comparação, o carioca Lucas Milward Fink, de 22 anos, mostrou-se mais que ágil desde a infância na escolha da prática do skimboard até tornar-se hoje atleta profissional de sucesso na modalidade. Mais recentemente, também foi determinante na alternativa para não parar em tempo de pandemia do novo coronavírus. Ou ser boia (gíria do surfista que espera demais a pegar a onda).

Ao contrário de garotos que sonham em ser jogador de futebol - ele deixou as categorias de base do Flamengo aos nove anos para ingressar em um esporte radical. O skimboard, que usa mini prancha deslizando na praia para pegar a onda (wrap), foi o escolhido. É um misto de manobras de skate, surf e snowboard.

Leia também:

Mais especificamente, o skimboard é praticado em praia de tombo e consiste em correr e atacar uma onda pela frente. Joga-se a prancha na espuma e pula em cima dela para então se deliciar nas manobras. A origem da modalidade foi 1920 com o uso das pranchas por salva-vidas nas praias de Laguna Beach, na Califórnia), nos Estados Unidos. Antes arredondadas e de madeira, as pranchas por aqui foram apelidadas de Sonrisal. Remédio no formato redondo e efervescente.

Já bicampeão mundial da modalidade, Fink foi campeão mundial profissional em 2019. Segundo ele, tudo foi planejado em uma carreira desde moleque, pois jamais sentiria à vontade encarando jornada de oito horas em escritório várias vezes na semana. Hoje sua base está calçada sobre sólido projeto de empresa de marketing esportivo que entre outras ações pontuais estão a de divulgação do desempenho através das redes sociais e em eventos.

A palavra foco sempre fez parte da vida de Lucas. “Dos seis aos nove anos, era viciado em futebol”, recorda. Mas o contato com a galera que usava a mini prancha levou o menino do Leblon, bairro carioca, a fazê-lo mudar de ideia. Além disso, o futebol dependia bastante de decisões coletivas. E ele acreditava que obteria sucesso em um projeto particularizado.

“O amor além da primeira vista veio com a possibilidade no uso de pranchas de fibra de carbono”, compara quanto a seus primeiros atrativos.

Assistir a vídeos de feras da modalidade no YouToube casos de Brad Donke e Bill Brian, o Kelly Slater do skimboard, foi decisivo para assegurar sua escolha naquele momento. A importância de Donke foi ter dado um boom ao skim retirando o estigma de surf de beira de praia.

Aos 14 anos anos, Fink já competia na categoria mirim entre os amadores e viria o título. Mas este formato é composto de apenas uma etapa. Seu objetivo era conquistar o mundial profissional (que são várias provas). Ele fez o circuito e levou com etapa de antecipação em 2019, em Vila Beach, na Flórida (EUA). No entanto nada foi tão suave, pois um ano antes chorou ao perder o campeonato. “É no erro que se aprende”, receita.

Neste interim era oportuno fixar sua presença na mídia. Por isso fortaleceu sua imagem ao fazer uma web série mostrando seu lifestyle a fãs nas redes sociais. Também passou a ministrar aulas e clínicas do esporte. Sobressaindo o lado sensível ao oferecer curso gratuito a comunidades. Incansável e de olho em fortalecer seus conhecimentos e no futuro, ingressou na Faculdade de Comunicação, mas não deu certo. Buscava algo mais ligado a negócios, pois ressalta ser empreendedor nato. Seguindo até a linha familiar – seus pais deixaram o Brasil e rumaram a Portugal para empreender lá – espera finalizar agora Faculdade de Marketing na Estácio, no Rio de Janeiro.

Para Fink, seu sonho caminhava sem pesadelos. Mas veio a pandemia ano passado. Então teve de pensar no plano B evitando cair o astral e ficar digamos assim depressivo, “Não parei, tinha acompanhamento na parte física, alimentação, mas busquei treinos online. E fui surfar isolado em Búzios na região dos Lagos. Pois no Rio, estava tudo fechado para atividade esportiva.” Surgiu ainda a oportunidade para Fink participar de competições de ondas grandes motivado por Carlos Burle, o surfista recordista das ondas gigantes. Ele encarou o desafio no Brasil em praias de São Paulo, Santa Catarina. Graças à galera casca grossa, de surfistas renomados, ganhou espaço.

Nesta linha veio o acaso para estar em Portugal. “Minha família saiu do Brasil e foi abrir negócio lá. Tive a chance de estar em Nazaré e gostei de experimentar.”.

Questionado sobre a hipótese de medo ao encarar as ondas enormes com a mini prancha em Nazaré.” Nunca me assustei com ondas grandes. Tudo passa a ser positivo e a pessoa ganha motivação como ser humano. Nas areias portuguesas encarou ondas de 10 metros de altura. A superação já ofereceu susto em gente experiente como a surfista carioca Maya Gabeira. E com pranchas de quilhas e bom tamanho. Ela almejava bater o recorde mundial e pegou uma onda de 78 pés (24 metros) sofrendo acidente na praia do Norte (Nazaré). Machucou o tornozelo. Foi uma provação para o skimmer Fink utilizar prancha leve, pequena e sem quilha. E ganhar outra experiência.