Lucarelli, o 'poeta' medalhista do vôlei brasileiro

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O medalhista olímpico Ricardo Lucarelli Souza posa para a AFP em Contagem, Minas Gerais, em 16 de maio

Ricardo Lucarelli respira fundo e coça o queixo antes de improvisar um poema. As letras são outro hobby do premiado jogador de vôlei, que atua como ponta e se prepara para defender o ouro nas Olimpíadas de Tóquio.

"Ganhar o primeiro ouro olímpico me deixou muito feliz/

sempre em meus sonhos foi algo que eu sempre quis/

Espero que este segundo também venha, não seria nada mal/

seria muito melhor do que 25 presentes de Natal".

O sorriso do jogador de 29 anos, um dos destaques na conquista da medalha de ouro nos Jogos do Rio em 2016, começa a aumentar à medida que sua criação ganha corpo.

Ele escolhe cada palavra com a mesma precisão com que acerta a bola no campo oposto, habilidade que o tornou um dos melhores jogadores de vôlei do mundo.

"Eu gosto muito das rimas, sempre que escuto músicas que tem rimas, normalmente gosto mais...Acho que comecei a gostar de poemas talvez por isso", afirma em entrevista à AFP, concedida no centro de treinamento da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), em Saquarema, na Região dos Lagos no Rio de Janeiro.

O hobby começou quando ele era um menino de dez anos que se dividia entre o futebol e o vôlei em sua cidade natal, Contagem, em Minas Gerais. Ele escrevia poemas para sua mãe, Rosa Maria, e para algumas namoradas na escola.

“Acho que é uma forma de passar o tempo, de ativar esse lado criativo. Nunca pensei em publicá-los, só divulguei um. Infelizmente perdi alguns, porque anotei no celular e não guardei", diz o jogador.

Em seus textos, que ele costuma redigir durante longas viagens e que às vezes compartilha com a família ou amigos, falam de amor, esportes, política ou "o sentimento do momento".

Na escola ele aprendeu as "regras" para escrever, mas é guiado mais pelo exemplo de compositores de samba ou hip-hop.

"Tenho feito muito pouco ultimamente. Estava conversando com alguns amigos sobre relaxar e reativar esse lado criativo", comenta.

- Aumentar os títulos -

Lucarelli e seus companheiros de seleção encerraram esta semana, em Saquarema, a preparação para a Liga das Nações, que será realizada na cidade italiana de Rimini, entre 28 de maio e 27 de junho, e para as Olimpíadas, nas quais o Brasil estreia no dia 24 de julho contra a Tunísia.

Os treinamentos foram marcados pela internação desde 16 de abril do técnico Renan Dal Zotto por um caso grave de covid-19.

O ex-jogador de 60 anos está evoluindo bem e sua presença no Japão dependerá de sua recuperação, onde mais de 80% da população se opõe à realização do Jogos Olímpicos por conta da pandemia, segundo pesquisa recente.

“É uma decisão complicada, acho que os atletas de quase todas as equipes que vão competir vão ser vacinados, então [a realização do evento] pode não ser problema”, diz Lucarelli.

A viagem à Itália para ganhar a Liga das Nações pode ser fonte de inspiração para novos poemas. Além de alcançar um título inédito para o Brasil, vencer este torneio aumentaria a lista conquistas deste ponta, entre as quais se destacam, além do ouro olímpico, a Copa dos Campeões de 2017 e a Copa do Mundo 2019.

O evento em Rimini também servirá como teste de fogo para as Olimpíadas na capital japonesa, pois os brasileiros enfrentarão na cidade italiana a poderosa Polônia, que os derrotou na final do Mundial de 2018, Estados Unidos, Rússia, Itália e França.

Depois dos Jogos de Tóquio, os franceses terão como técnico um conhecido de Lucarelli, Bernardinho, treinador com quem ganhou a medalha de ouro em 2016, a terceira do país depois das conquistadas em Barcelona-1992 e Atenas-2004.

“Mais uma vez temos grandes chances de medalha, temos um time muito forte em todas as posições”, diz Lucarelli, que em 2020 deixou o Brasil para jogar na Itália pelo Trentino, com quem perdeu a final da Liga dos Campeões para o polonês ZAKSA no início deste mês.

A derrota na Europa foi um golpe duro para um atleta acostumado a vencer. Mas repetir o ouro e aliviar a dor do Brasil, o segundo país com mais mortes pelo coronavírus (mais de 440 mil), já são inspiração suficiente para novas poesias.

"O Brasil sempre vai nesses campeonatos para tentar ganhar/

a gente sabe que vai ser difícil, temos muitos adversários por passar/

mas sabemos de nossa capacidade, sabemos que podemos vencer/

e esperamos que todos ali em casa possam com nós torcer".

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