A história bizarra da empresa de álcool em gel que está lucrando com o coronavírus

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O impacto do coronavírus na economia global é enorme. Enquanto a verdadeira tragédia são as vidas perdidas, o efeito econômico é uma consideração secundária, extremamente significativa. Empresas de todo o mundo estão sentindo as sérias consequências. Uma recessão pode estar a caminho.

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Entretanto, algumas empresas estão se beneficiando da crise. Não porque necessariamente se esforçaram para se beneficiar da situação, mas porque elas têm o produto ou serviço certo. O Zoom Video, que oferece um serviço de conferência que evita a necessidade de reuniões pessoais, é uma delas. A Clorox, que produz alvejantes e outros produtos de limpeza, viu suas ações subirem 13% no ano (enquanto o mercado está abaixo de 9%), é outra.

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E depois vem a Purell, fabricante do famoso álcool em gel para as mãos — que deve estar vendendo loucamente, certo? Provavelmente, já que seus produtos estão esgotados em todos os lugares, mas não sabemos ao certo, isso porque a Purell é de propriedade de uma empresa privada, a GOJO Industries.

Então, o que há com Purell e a GOJO? Pesquisamos um pouco e descobrimos.

Primeiro, enquanto a empresa de Akron, Ohio, diz que está aumentando a produção, ela se recusou a nos dizer o quanto, ou mesmo dizer o quanto a Purell vendeu no ano passado. Na verdade, a GOJO não respondeu a nenhuma de nossas perguntas e, em vez disso, nos enviou uma resposta padrão já preparada para a imprensa, que dizia que poderíamos procurar a porta-voz da GOJO, Samantha Williams.

O comunicado diz: "... os pedidos dos produtos da empresa aumentaram significativamente. Intensificamos a produção em janeiro e continuamos a disponibilizar capacidade adicional on-line para atender a essa crescente demanda, caso continue... Criamos mais turnos de trabalho e temos equipes trabalhando horas extras”.

Aposto que estão.

O comunicado também observa que a GOJO emprega cerca de 2.500 pessoas e fabrica produtos Purell em instalações em Wooster e Cuyahoga Falls, Ohio e na França. (Você deve se perguntar se esses funcionários estariam isentos de um pedido para trabalhar remotamente em casa.)

Álcool em gel para as mãos da Purell em exposição. (Foto AP / Charlie Neibergall)
Álcool em gel para as mãos da Purell em exposição. (Foto AP / Charlie Neibergall)

Próxima pergunta, qual é a eficácia do Purell contra o coronavírus?

A empresa afirma que "Purell... mata 99,99% dos germes mais comuns, aqueles que podem deixar você doente". Parece impressionante, mas observe a frase "germes mais comuns". Isso inclui o COVID-19? Ninguém realmente sabe.

De fato, em 17 de janeiro, quando o coronavírus estava se tornando uma notícia global, o FDA enviou a Purell uma carta alertando a empresa sobre as declarações nas seções de FAQ de seus sites que sugeriam “que o álcool em gel para mãos da PURELL® Healthcare se destinam a reduzir ou prevenir doenças do vírus Ebola, norovírus e influenza.” O FDA observou que não havia evidências de que o produto da Purell seja eficaz contra essas doenças.

O FDA declarou: “... não temos conhecimento de evidências que demonstrem que os produtos da linha PURELL® Healthcare, conforme são formulados e rotulados, sejam reconhecidos por especialistas qualificados como produtos seguros e eficazes para uso nas condições sugeridas, recomendadas ou prescritas no rótulo".

Williams disse à FOX que a empresa imediatamente tomou as medidas necessárias depois de receber a carta e "começou a atualizar o conteúdo relevante dos sites e outros conteúdos digitais conforme indicado pelo FDA".

Purell faz algo para impedir a contaminação do COVID-19? O ingrediente ativo do Purell é realmente feito de apenas 70% de etanol ou álcool etílico. Os especialistas geralmente concordam que uma solução que contém mais de 60% de álcool pode ser eficaz em alguns casos, como limpar bandejas de um avião e talvez como um álcool em gel para as mãos.

Na verdade, essa distinção — superfícies versus mãos — cai sob a regulação da EPA, em termos da primeira, e da FDA para a segunda, como reflete as informações dadas pela GOJO. Isso pode ser observado no seguinte trecho: “...  conforme a guia de patógenos emergentes da EPA, nosso PURELL® Spray para superfícies pode ser usado para matar o COVID-19 em superfícies sólidas e não porosas, quando usado de acordo com as instruções e dentro de um tempo de contato de 1 minuto." Mas continua: “O FDA, que regula o álcool em gel para as mãos, e o EPA, que regula o álcool em gel para superfícies, têm regras diferentes. A EPA permite que os fabricantes respondam perguntas sobre eficácia do produto contra vírus”.

Tanya Crum, professora assistente de biologia da Universidade Beneditina em Lisle, Illinois, diz que água e sabão é sempre o melhor, mas que "se você está em algum lugar onde não consegue ter acesso à água e sabão, ter um álcool em gel para desinfetar as mãos é ótimo. Eu não o usaria como primeira opção, usaria apenas em uma segunda opção." Crum também diz que "existe uma eficácia variável, em termos de álcool em gel, que elimina vírus", mas como o COVID-19 é um vírus com uma proteína capsídica, ou o que é chamado de camada de proteção, pode ser mais fácil de matar com um álcool em gel para as mãos. Notícias potencialmente boas para Purell.

Começo humilde da Purell

A GOJO tem uma história bem americanizada. A empresa foi fundada em 1946 por Goldie e Jerry Lippman (e ainda é controlada e administrada em parte por membros da família). Goldie e Jerry trabalhavam em fábricas de pneus e aeronaves em Ohio durante a Segunda Guerra Mundial. Eles notaram que tinham dificuldade em remover completamente o óleo e outras coisas gordurosas das mãos depois do trabalho, e assim o casal trabalhou com um químico da Universidade Estadual do Kent para desenvolver um produto para limpar as mãos. (O primeiro produto foi "GoGo, apelido de Goldie, mas outra empresa já havia usado o nome, então os fundadores criaram a GOJO, com o "G" representando Goldie e o "J" representando “Jerry", de acordo com o histórico da empresa.)

Mais tarde, Jerry criou o primeiro dispensador de álcool em gel, para o qual ele recebeu uma patente em 1952. A empresa orgulhosamente relata: “Todo dispensador de sabonete na parede hoje, em qualquer lugar do mundo, é descendente desse primeiro dispensador. Jerry o inventou! A GOJO não criou o Purell até 1988, mas esse se tornou o principal produto da empresa. A Pfizer distribuiu a Purell por algum tempo nos anos 2000, um negócio comprado pela Johnson & Johnson, mas a GOJO readquiriu a Purell da J&J em 2010. Decisão inteligente. Ao longo do caminho, alguém colocou os dispensadores Purell em quase todos os elevadores de quase todos os escritórios na América.”

Dispensador de álcool em gel para as mãos Purell na primeira rodada do Arnold Palmer Invitational, apresentado pela MasterCard no Bay Hill Club and Lodge, em 5 de março de 2020 em Orlando, Flórida. (Foto de Kevin C. Cox / Getty Images)
Dispensador de álcool em gel para as mãos Purell na primeira rodada do Arnold Palmer Invitational, apresentado pela MasterCard no Bay Hill Club and Lodge, em 5 de março de 2020 em Orlando, Flórida. (Foto de Kevin C. Cox / Getty Images)

As pessoas certamente estão loucas por Purell agora. As lojas estão com os produtos esgotados. Você não consegue comprá-lo on-line - bom, conseguir, até consegue, mas por preços ridículos. Nesta semana, o senador norte-americano Edward Markey (Massachusetts) enviou uma carta à Amazon exigindo que a empresa tome medidas para impedir que vendedores pratiquem preços abusivos do álcool em gel da Purell.

A Reuters relata que “uma caixa de frascos pequenos Purell que normalmente é vendida por $10, está agora custando $400, disse ele. Um vendedor apresentou um frasco por $600 na quarta-feira à tarde. No entanto, a marca Amazon de álcool em gel para as mãos custava $8,25, um frasco grande.”

A GOJO desaprova essa atitude abusiva dos vendedores, dizendo (duas vezes!) em suas declarações para a imprensa: "... sentimos fortemente que não se pode deixar passar abusividade de preços, especialmente durante os períodos de maior preocupação com a saúde pública". A Reuters relata que "a Amazon chamou os vendedores que estão se aproveitando da situação de 'mal-intencionados'." "Não há lugar para aferição de preços na Amazon", disse um porta-voz, em um comunicado. "Continuamos monitorando ativamente nossa loja e removendo ofertas que violam nossas políticas".

Para a maioria de nós, o coronavírus pode se tornar um pesadelo. Para a Purell - não que a empresa queira isso e nem que seu produto seja algum tipo de panaceia - o COVID-19 já é um sonho que virou realidade.

Andy Serwer com Max Zahn

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