A longa estrada de César Sampaio como dirigente de futebol no Brasil

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Sampaio em evento do Palmeiras em 2017 (MARCELLO FIM/Raw Image/Gazeta Press)
Sampaio em evento do Palmeiras em 2017 (MARCELLO FIM/Raw Image/Gazeta Press)

Por Rodrigo Herrero (@rodrigoherrero)

A carreira do volante César Sampaio é bem conhecida. Começou a jogar no Santos, mas virou ídolo no Palmeiras, onde foi bicampeão brasileiro e paulista na primeira passagem e ajudou a conquistar a Libertadores de 1999, na segunda passagem pela equipe. Defendeu a Seleção Brasileira no Mundial da França, em 1998, jogou no Japão, na Espanha, no Corinthians e encerrou a carreira no São Paulo, em 2004, aos 36 anos. Com uma vida pela frente, optou por seguir no futebol, mas não tão perto dos gramados. A gestão acabou sendo uma escolha natural. Começava aí a longa jornada do ídolo dos campos pela dura estrada da cartolagem no Brasil.

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A primeira experiência de César Sampaio como gestor foi ainda quando atuava dentro das quatro linhas. Fora delas, no entanto, tentou dar seus primeiros passos ao lado do pentacampeão Rivaldo. Ambos formaram a CSR Futebol e Marketing e em 2000 assumiram a gestão do Guaratinguetá. Mas eles tiveram que aprender, na prática, que as coisas não são tão simples como podem parecer.

“Foi um projeto bem legal desportivamente falando, porém, a gente não tinha noção de business. Aí o time subiu (da quinta para a quarta divisão paulista), o que foi muito bom, mas para a gente foi difícil. Foi o primeiro acesso que eu lamentei, porque éramos os mantenedores e a gente não tinha previsto o orçamento. Você sobe de divisão e as receitas são as mesmas ou diminuem, porque numa divisão acima o nível de exigência é maior, gasta mais para contratar jogadores. Profissionalmente para a gente foi difícil, pagamos pela ignorância”, conta.

Após deixar o clube do Vale do Paraíba em 2001, outra empreitada, essa mais exitosa, ocorreu em Santa Catarina. César Sampaio participou como investidor do projeto Figueirense Participações, que transformou o clube em empresa e ajudou a reestruturar a agremiação, que foi campeã estadual em 2002.

Hora de se qualificar para encarar os desafios

Mas César Sampaio nutria o desejo de trabalhar mais diretamente no futebol. Por isso, ao se aposentar no São Paulo, em 2004, ele decidiu se qualificar na área e fez um curso de gestão de esportes, com especialização em futebol, após indicação dos dirigentes tricolores Marco Aurélio Cunha e João Paulo de Jesus Lopes. “Eles me convidaram para ser gerente da base em Cotia, mas não me achei qualificado para isso e daí fui estudar”, lembra.

Em seguida, o ex-jogador fez um curso de Marketing e outro de gestão com foco em futebol, além de diversos outros de especialização em áreas relacionadas ao futebol, inclusive os da CBF, até conseguir aplicar seus conhecimentos em uma equipe. Em 2007, como gerente de futebol do Pelotas, viu como é trabalhar sem dinheiro, do zero.

“A gente tinha uma gestão compartilhada, em que eu era homem forte do futebol, mas a gente não tinha dinheiro. Então não adiantava nada (risos). Era um homem forte sem força. Levamos uns meninos para jogar lá, ficamos em quarto lugar na Segundona Gaúcha e revelamos o Jorge Preá, que depois foi para o Palmeiras. Foi uma experiência bem legal, a Segunda Divisão lá é muito difícil, muito frio, jogo pesado, muita pancadaria”, comenta.

Entre 2008 e 2010 comandou o futebol do Rio Claro com ajuda de investidores e ajudou a equipe a subir para a Série A1 do Paulistão em 2009. Porém, no ano seguinte ao acesso, a queda para a A2. Nesse meio tempo também participou da gestão do Mogi Mirim, quando Rivaldo assumiu o clube. “Fizemos dois anos de gestão. A meta era não cair e não caímos, o Rivaldo ainda jogava, no Uzbequistão. O (zagueiro) Cleber era o gerente e eu o diretor e as contratações passavam por mim e pelo Rivaldo”, diz.

Experiência traumática no Palmeiras

Sua primeira experiência em um gigante do futebol nacional foi logo no time onde ganhou vários títulos e é tratado como ídolo. O problema é que César Sampaio chegou em 2011, num momento conturbado dentro e fora do campo. “Na época havia um problema entre o Felipão e o Kleber e eu entrei nesse turbilhão, mas conseguimos apaziguar as coisas”, afirma o ex-jogador, que atuou como gerente de futebol no Alviverde.

No ano seguinte, o Palmeiras viveu do céu ao inferno em pouco mais de quatro meses. Em julho, levantou o caneco da Copa do Brasil. Em novembro, foi rebaixado à Série B do Campeonato Brasileiro. “Nós tínhamos uma limitação de investimento… não é uma justificativa, mas os pilares de sustentação tiveram problemas, o Marcão parou, o Marcos Assunção teve problema no joelho, o Valdívia machucou e o Barcos também. Acho que foi o momento em que mais aprendi, foi a verdadeira escola de gestão de crise. Você cai num grande clube e é algo bem traumático” relembra.

Planejamento sucumbe à prática no futebol

Após deixar o Palmeiras no começo de 2013, César Sampaio foi para a Europa, mais precisamente para Londres, na Inglaterra, para estudar inglês e gestão esportiva, conhecendo mais a fundo o modelo europeu. Seu retorno a um time ocorreu no final daquele ano, quando assumiu o futebol do Joinville para uma reformulação. Na agremiação catarinense viveu momentos bem distintos. Venceu a Série B em 2014, conquistando o acesso à elite nacional naquele ano. Porém, em 2015, o título catarinense escapou por um erro primário de escalação de jogador juvenil André Krobel, que não tinha contrato profissional com o JEC.

“Para a última partida do Hexagonal Semifinal, contra o Metropolitano, montamos uma equipe alternativa porque já estávamos na final e no banco tinha um jogador não era profissionalizado, era sub-20, e a legislação diz que ao completar 20 anos para jogar no profissional tem que ter contrato profissional. Esse jogador ficou no banco e o Figueirense acabou levando o título catarinense no tapetão. Foi um erro que eu assumi, pedi demissão, mas o presidente não me demitiu. Mas aí começamos mal o Brasileiro e com esse problema anterior acabei sendo demitido pela primeira vez como gestor”, explica.

No ano passado, César Sampaio fez parte do processo de reformulação do Fortaleza, visando o acesso à Série B, para acabar com o trauma de todo o ano bater na trave e permanecer na Série C. A ideia inicial era de utilizar o Estadual, a Copa do Nordeste e a Copa do Brasil como base para construir e ajustar o elenco, com o objetivo de estar bem na Série C. Só que o planejamento no Brasil não costuma sobreviver aos resultados.

“Nós fomos eliminados da Copa do Brasil e o presidente (Jorge Mota) achou por bem demitir o treinador (Hemerson Maria) e aí eu fui contra. Por isso, chegamos num acordo e eu saí. Mas foi maravilhoso porque a equipe que subiu para a Série B tinha oito atletas que trouxemos, me sinto parte disso e é legal ver hoje o Fortaleza líder da Série B com o Rogério Ceni fazendo um grande trabalho lá, você pega carinho pelos clubes”, garante.

O sonho da inclusão social

Hoje em dia, César Sampaio trabalha como comentarista nos canais ESPN e na rádio Capital, além de ser membro da ABEX (Associação Brasileira de Executivos de Futebol), atuando na busca pela regulamentação do cargo de executivo no futebol no Brasil e, consequentemente, pelo reconhecimento dos clubes quanto a esse profissional.

Além disso, Sampaio é presidente do Comercial de Tietê, cidade que fica a 121 quilômetros da capital paulista. O intuito deste projeto, porém, é basicamente o de incluir socialmente jovens por meio do esporte, como uma forma do ex-jogador devolver à sociedade algo que recebeu. “É um projeto social de formação semelhante ao que eu surgi para o futebol. Não temos muita verba, vai demorar mais, mas é um projeto de vida que estou desenvolvendo. E vamos ver se a gente consegue voltar a disputar competições regulares assim que tivermos orçamento adequado”, sonha.

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