Técnico da moda, Lisca mantém apelido e fala de obsessão pelo futebolístico

Colaboradores Yahoo Esportes
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MG - Belo Horizonte - 27/02/2021 - MINEIRO 2021, AMERICA-MG X BOA ESPORTE - Lisca tecnico do America-MG durante partida contra o Boa Esporte no estadio Independencia pelo campeonato Mineiro 2021. Foto: Fernando Moreno/AGIF
MG - Belo Horizonte - 27/02/2021 - MINEIRO 2021, AMERICA-MG X BOA ESPORTE - Lisca tecnico do America-MG durante partida contra o Boa Esporte no estadio Independencia pelo campeonato Mineiro 2021. Foto: Fernando Moreno/AGIF

Luiz Carlos Cirne Lima de Lorenzi está na moda. Faz tempo que ele deixou o apelido folclórico para trás. Fez isso com seguidos bons trabalhos em equipes das séries A e B do futebol brasileiro. No início de 2021, aos 48 anos, Lisca Doido esteve cotado para assumir o comando do Santos (antes da diretoria optar pelo argentino Ariel Holan) e ganhou elogios pelo seu posicionamento contra à continuidade do futebol brasileiro em meio à pandemia da Covid-19.

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"O nosso país parou, gente. Não tem lugar nos hospitais, eu estou perdendo amigos, estou perdendo amigos treinadores, não é hora mais, é hora de segurar a vida. Presidente (Rogério) Caboclo (da CBF), pelo amor de Deus. Juninho Paulista (diretor de seleções), Tite, Cléber Xavier, as autoridades, nós estamos apavorados, pelo amor de Deus", disse ele em desabafo antes da vitória do América- MG sobre o Athletic, pelo Campeonato Mineiro.

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Duas semanas depois do desabafo, ele mantém a mesma opinião, apenas não esperava a repercussão da sua entrevista.

"Foi algo que veio do coração, de eu ver a situação que está o país no momento. O presidente (do América) disse que tínhamos de cumprir o que determina a CBF e vamos cumprir. Não é hora mais de polemizar sobre isso. Temos jogo da Copa do Brasil ", disse ele ao Yahoo Esportes, antes da partida de quinta-feira (18), contra o Treze-PB.

A opinião acabou elogiada por torcedores e imprensa, mas não foi unanimidade no mundo do futebol. Renato Gaúcho, técnico do Grêmio, disse não concordar. Foi criticado pela Associação Brasileira de Treinadores de Futebol, que o chamou de incoerente e lembrou que em novembro do ano passado, já durante a pandemia, Lisca comemorou classificação para a semifinal da Copa do Brasil abraçando torcedores fora do estádio.

"Eu fiquei sabendo disso (da crítica), mas olha... Eu nem conheço essa associação, prefiro não comentar. Cada um tem sua própria opinião", desconversa.

É uma discussão que tem o mesmo resultado do apelido “doido no passado”: esconder o trabalho de Lisca. No América-MG no ano passado, ele levou o time de volta à Série A do Brasileiro e esteve a 90 minutos de eliminar o Palmeiras e chegar à decisão da Copa do Brasil. Isso fez com que, além do Santos, ele fosse cotado para o Cruzeiro. Preferiu continuar no Coelho.

"As pessoas podem achar que é um desafio ir para outro clube, mas eu acho que é um desafio permanecer no América, clube que tem feito um trabalho sério. Eu gosto dessa seriedade. Curioso que já me falaram algumas vezes que eu tinha de parar com esse negócio de ser chamado de doido. Já ouvi várias vezes. Não vejo, sinceramente, relação entre o meu trabalho e um apelido", analisa.

Ele descarta deixar de lado a alcunha, mas sabe reconhece existir o lado pejorativo. De quem vê em Lisca um desequilíbrio emocional, de não ser tão confiável em momentos decisivos.

"Quem me conhece e escuta o que eu tenho a dizer, vê que é só coisa do folclore por causa da minha vibração à beira do campo, das coisas que eu faço. Percebe logo a seriedade. Mas já perdi oportunidades por causa de ser chamado de doido. Não é algo que me preocupa", completa.

Quando fez o pedido pela paralisação do futebol, o trocadilho nas redes sociais foi inevitável: Lisca é consciente e doido são os outros.

"O certo seria dizer que eu sou doido, sim, mas pelo futebol. É a minha vida 24 horas por dia", confessa.

Integrante de uma família de colorados históricos (bisneto de Carlos de Lorenzi e neto de Jorge de Lorenzi, dois goleiros do Internacional na primeira metade do século passado), Lisca não foi jogador e passou uma década como técnico de categorias de base no Internacional antes de ter chance no time principal do Ulbra em 2001. Tornou-se treinador de vez de elencos profissionais apenas em 2007, ao chegar no Brasil de Pelotas.

Ele reconhece que ser "doido", no início, foi bom marketing porque fez com que aparecesse na mídia. Ele comemorou o acesso do Juventude para a Série C em 2013 subindo no alambrado. Discutiu com D'Alessandro em uma partida do Campeonato Gaúcho daquele ano e a torcida de Caxias do Sul tinha uma música com a palavra que depois se tornaria o apelido de Lisca. Acabou adaptada para o treinador.

Mas a música que se tornou conhecida em torcidas de todo o país foi no Ceará em 2018, o "saiu do hospício tem de respeitar, Lisca Doido é Ceará".

"Faz parte da minha história, né? Até hoje eu recebo mensagens de gente cantando esta música. Não vou achar ruim uma coisa dessas".

Para deixar claro o quanto é obcecado por futebol, ele fala sobre os jogos que viu, os livros que lê sobre o assunto e as observações que faz do trabalho de outros treinadores. Coisas que percebe poder aproveitar em seus trabalhos. O único aspecto que lhe contraria do apelido é quando alguém acha que ele é apenas isso.

"Eu passo o dia pensando em futebol, em treinamentos, em coisas que podemos experimentar, em modelos. Vejo muito os jogos europeus e percebo que treinadores que estiveram no Brasil recentemente, como o Jorge Sampaoli, trouxeram conceitos válidos como o da pressão alta, a saída de jogo. Eu tento unir tudo o que vejo, leio e ouço com o meu estilo apaixonado. Porque eu sou apaixonado pelo futebol."

E quando chegar a um dos principais clubes do país, seria fiel ao seu estilo. Lisca assumiu o comando do Internacional, seu time do coração, nas três rodadas finais do Brasileiro de 2016. O Colorado caiu porque era praticamente impossível mantê-lo na elite naquele momento. Não conseguiu dar sequência ao trabalho.

"Estou muito feliz no América. Minha chance em um dos gigantes do país vai aparecer por causa do meu trabalho. Eu confio nele."