Lisboa-Porto: a rivalidade que guiou a escolha do palco para a final da Liga dos Campeões

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PORTO, PORTUGAL - MAY 19:  A general view of the stadium prior to the Liga NOS match between FC Porto and Belenenses SAD at Estadio do Dragao on May 19, 2021 in Porto, Portugal. Sporting stadiums around Portugal remain under strict restrictions due to the Coronavirus Pandemic as Government social distancing laws prohibit fans inside venues resulting in games being played behind closed doors. (Photo by Jose Manuel Alvarez/Quality Sport Images/Getty Images)
Estádio do Dragão, do Porto, sediará a final da Champions League (Jose Manuel Alvarez/Quality Sport Images/Getty Images)

PORTO (PORTUGAL) - Quando Manchester City e Chelsea pisarem no gramado do Estádio do Dragão, no Porto, para a final inglesa da Liga dos Campeões no próximo sábado, às 16h (horário de Brasília), atletas, técnicos, dirigentes e torcedores dos dois clubes presentes certamente nem estarão atentos ao simbolismo daquele ato para uma parte dos portugueses. Mas o simples fato de iniciar a partida naquele palco já significará uma vitória para uma região do país que reflete no futebol a rivalidade histórica entre as duas maiores cidades de Portugal: Lisboa e Porto.

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Capital do país, Lisboa é historicamente o centro do poder político e financeiro, com uma região metropolitana de 2,8 milhões de habitantes. O Grande Porto representa o espaço que economicamente mais se expande no país, com um forte polo turístico que cresce acima da média nacional e é habitado por cerca de 1,7 milhão de pessoas. Além disso, as cidades dividem uma rivalidade mais do que centenária entre os lisboetas do Benfica e os portuenses representados pelo Futebol Clube do Porto, no norte de Portugal.

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Palco da decisão daquela que é considerada por muitos a maior competição de clubes do mundo, o estádio do FC Porto recebe pela primeira vez o jogo que decidirá a taça da competição continental. Nem em 2004, quando a “equipa” foi campeã ao vencer o Monaco (3 a 0), teve a honra de receber o jogo final, que na ocasião aconteceu na Alemanha. O fato é que, não fosse por uma suposta pressão interna de políticos e dirigentes portuenses, o jogo no sábado certamente voltaria a acontecer em Lisboa, no estádio da Luz, que por sua vez já recebeu a final em duas outras oportunidades: em 2014 (Real Madrid 4 x 1 Atlético de Madrid) e no ano passado (Bayern de Munique 1 x 0 PSG). Some-se a isso a Eurocopa de 2004, sediada em Portugal.

Na ocasião, foi o estádio da Luz, do Benfica, com maior capacidade (65 mil torcedores), a receber a final da competição que terminou com a vitória da Grécia sobre a seleção portuguesa comandada por Luiz Felipe Scolari (1 a 0). O Dragão, com capacidade inferior (50 mil torcedores), ficou com o jogo de abertura, considerado de menor expressão. “Essa tensão existiu e volta a acontecer sempre que há uma decisão política no campo desportivo. O Porto, com alguma legitimidade, reclama para si esse direito de receber grandes eventos e defende que não pode ser sempre a Lisboa que recaia esse privilégio”, ressaltou o historiador e pesquisador do futebol português Ricardo Serrado.

De acordo com o portal ESPN, em notícia veiculada na Inglaterra, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) assumiu um papel crucial na decisão da UEFA em realocar a final da Liga dos Campeões para o Dragão. Originalmente, o jogo deste dia 29 de maio aconteceria no Estádio Atatürk, em Istambul, mas o Reino Unido colocou a Turquia em sua lista vermelha de destinos turísticos em razão da Covid-19. Cogitou-se levar o jogo para Wembley, em Londres, mas logo o presidente da UEFA, o esloveno Aleksander Čeferi, descartou a hipótese. Na lista verde da pandemia, Portugal voltou a ganhar preferência para receber a decisão novamente. A opção número um seria mais uma vez o estádio da Luz, em Lisboa.

Embora em Portugal seja uma espécie de senso comum que houve intervenção dos portuenses para que a decisão não se repetisse na capital, oficialmente ninguém fala sobre o assunto. A FPF, procurada por nossa reportagem, não confirmou se a mudança foi ocasionada pela rivalidade ou pelo bom senso em promover o revezamento entre as duas maiores cidades do país. No entanto, os fatos falam por si. Presidente do FC Porto há 39 anos, Jorge Nuno Pinto da Costa, 83 anos, incorpora o espírito da rivalidade que existe entre o norte e o sul.

Em entrevista à FC Porto TV, além de exaltar a estrutura do estádio, inaugurado em 2003 para a Eurocopa do ano seguinte, e o potencial turístico da cidade do Porto, também não deixou de alfinetar os lisboetas ao apontar o confronto entre polícia e torcedores do Sporting que comemoravam o título nacional dos Leões após 19 anos, no último 11 de maio. “Depois da vergonha que se assistiu em Lisboa, é necessário desmanchar essa má imagem que Portugal deu, que as autoridades de lá deram, pois permitiram que houvesse aquela cena degradante”, disse. Para o desagrado de Pinto da Costa, os portistas ficaram com o vice-campeonato português este ano.

Outra personalidade importante a manifestar-se sobre a final da Champions League foi o presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira. O autarca destacou o esforço da cidade para colaborar na organização do evento em um curto espaço de tempo e fez saudações às autoridades com poder de decisão. “Queria agradecer em nome dos portuenses à Federação Portuguesa de Futebol, à UEFA e ao Governo português, que se empenharam nesta realização muito importante para a retomada da atividade na cidade”, destacou. Todos os vestígios apontam mesmo para uma influência política na decisão de levar o jogo para o Dragão.

Um dos torcedores-símbolos do FC Porto, Fernando Madureira destacou o orgulho em receber o jogo no seu estádio. “No ano passado ficamos com aquele gostinho amargo, de que poderia ter sido aqui. A nossa cidade é mais bonita, nosso estádio é mais moderno, nós sabemos receber melhor as pessoas. E é com muito orgulho como portista e portuense que recebemos essa final”, afirmou o líder da Super Dragões. Apesar de rival, o torcedor do Benfica Sérgio Engracia, antigo líder dos Diabos Vermelhos, minimizou a final no estádio do adversário. “Acho mais que justo e óbvio que a federação conjugasse esforços para que a final fosse realizada no Dragão, acho isso perfeitamente normal até porque a cidade do Porto merecia também ter a sua vez”, ressaltou.

Rivalidade histórica

De acordo com o historiador Ricardo Serrado, a rivalidade Lisboa-Porto tem início por volta do século 18, quando o norte começa a tornar-se uma região com mais protagonismo político e industrial e a ficar famosa pela exportação do Vinho do Porto. “Penso que há uma centralização excessiva do poder político em Lisboa e o que acontece é que durante o século 20 essa rivalidade é transportada para o campo esportivo”, afirmou o historiador que é lisboeta, mas está ligado atualmente à Universidade do Porto.

“A rivalidade Lisboa-Porto existe e sempre existiu, mas é a partir dos anos 1980, quando Pinto da Costa assume a presidência do FC Porto que o clube adota um discurso antissul, a dizer que o poder político estava todo centrado na capital, que a capital era favorecida, que tinha influência que condicionava o futebol e o país e que o norte era desfavorecido em relação à Lisboa. Isso é um discurso que acaba por ter um efeito tremendo”, explicou Serrado.

À época, o FC Porto era um clube notadamente menor que os rivais de Lisboa, com dimensão regionalista. Tornou-se, ao passar dos anos, um clube que além de uma cidade, representa uma região. “A ‘equipa’ do Porto de uma certa forma vai representar no futebol uma luta contra a centralização do poder de Lisboa”, disse o pesquisador. Apesar da rivalidade entre as cidades, diferentemente do que ocorre entre Madri e Barcelona, por exemplo, não há em Portugal qualquer mentalidade separatista entre as regiões. “O que acontece é que, por questões históricas, Portugal de norte a sul tem consigo um sentimento de pertença muito forte, apesar do sentimento de rivalidade”, pontuou o historiador.

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