Lipo lad: procedimento escancara pressão estética em cima de mulheres jovens

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Ludmilla, Virginia Fonseca e Thaynara Og, são algumas das famosas que fizeram a Lipo lad (Foto: Reprodução/Instagram)
Ludmilla, Virginia Fonseca e Thaynara Og, são algumas das famosas que fizeram a Lipo lad (Foto: Reprodução/Instagram)

Por Bárbara Canever

Devido aos padrões estéticos estabelecidos pela sociedade, a febre das cirurgias plásticas está se tornando uma prática cada vez mais comum. Após o boom do silicone nos seios, a lipo lad, que nada mais é do que uma lipoaspiração de alta definição (olha os filtros das redes sociais tomando vida aí), vem se consolidando como a queridinha no vício dos procedimentos e na busca por um corpo escultural.

A operação consiste em “esculpir” o desenho abdominal com o uso de cânulas, que são tubos para aspirar áreas determinadas do contorno corporal - ou seja, para que os músculos se sobressaiam e por isso é necessário que a pessoa já tenha uma certa definição muscular. 

“Com isso conseguimos destacar as linhas que limitam o abdômen, deixando-o com um aspecto forte e bem definido. Para um melhor resultado, utilizam-se conceitos anatômicos e cada músculo específico da parede abdominal é tratado de maneira individualizada”, afirma Dr. Paulo Godoy, cirurgião plástico e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

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Os cortes, que costumam ter cerca de meio centímetro, são feitos para a entrada das cânulas de lipoaspiração nas regiões em que se busca drenar a gordura. 

Se o objetivo é definir o abdômen, são feitos três cortes na parte da frente, perto da cintura e do umbigo. Para aspirar a parte de trás, são mais três cortes: dois nas costas, na altura do sutiã e um no glúteo para sugar a gordura dos flancos, localizados na região lombar.

“Para isso existem diferentes tecnologias que agem no plexo subdérmico promovendo aquecimento e retração dos tecidos. Diferentes categorias de laser e o jato de plasma renuvion promovem um aquecimento do subcutâneo de forma controlada e segura, fazendo com isso o tratamento da flacidez”, explica o profissional.

O médico Victor Cutait explica que não é qualquer pessoa que pode fazer o procedimento. Segundo ele, o indivíduo precisa ter uma musculatura já definida. 

“O médico não vai conseguir isso sozinho, porque não se consegue marcar músculos que não existem. Caso isso seja feito, corre o risco do paciente ficar com buracos, criar irregularidades, porque o profissional vai tentar fazer o efeito meio que aleatório e vai deixar gordura em uma parte e cavar na outra. Vai ficar um efeito meio fake”. Desta forma, se a pessoa deseja perder a gordura da barriga é recomendando fazer uma lipoaspiração comum, que deixa apenas a região chapada, sem a presença do efeito da alta definição.

A cirurgia plástica, estética, que antes era para corrigir imperfeições, agora é para aperfeiçoar o corpo, para enquadrar o corpo nesta prisãoafirma a antropóloga, Mirian Goldenberg

O pós-operatório

Como se não bastasse a cirurgia, no pós-operatório é preciso usar cinta modeladora, fazer drenagem linfática e tomar medicações anticoagulatórias para evitar o risco de trombose, além dos anti-inflamatórios. “Alguns cirurgiões utilizam drenos aspirativos que ajudam a reduzir a quantidade de líquido no local. Em alguns casos, sessões de câmara hiperbárica podem ser benéficas“, diz Paulo. Segundo os especialistas, os resultados costumam aparecer no prazo de um mês após a cirurgia.

E a parte mental fica como?

Entretanto, engana-se quem pensa que apenas as mulheres mais velhas se arriscam na mesa de cirurgia e encaram essa corrida pelos corpos taxados como ideais. As influenciadoras, principalmente as que tem menos de 30 anos, que carregam a ‘responsabilidade de influenciar’ e possuem seu público predominantemente jovem, se deixam levar pela pressão e encaram a intervenção cirúrgica para alterar seus corpos, que muitas vezes já se encaixam nos padrões pré-estabelecidos. Desta forma, essa busca drástica pela perfeição aquece essa indústria, mas pode trazer riscos severos, aumentando a pressão nas mulheres e indo totalmente contrário a ideia da aceitação de seus corpos.

“Essa cultura provoca um enorme sofrimento nas mulheres, não é uma questão de vaidade individual, é uma pressão social para se adequar a esse modelo de corpo. Isso vem se agravando nas duas últimas décadas, os corpos são cada vez mais jovens, magros, mais trabalhados, mais em forma. A cirurgia plástica, estética, que antes era para corrigir imperfeições, agora é para aperfeiçoar o corpo, para enquadrar o corpo nesta prisão”, afirma a antropóloga, Mirian Goldenberg.

O país que mais faz cirurgia plástica no mundo

Segundo a antropóloga, essa obsessão não é individual, não é uma busca de cada mulher. “É cultural para se enquadrar em determinados modelos de corpos. Hoje, você vê inúmeras cirurgias até para corrigir o dedo do pé, a testa, coisas minúsculas na tentativa de se tornar perfeita, mas perfeita para um modelo, de acordo com uma prisão cultural. Isso não ocorre só no Brasil, mas as brasileiras estão sempre em primeiro ou segundo lugar nas que mais fazem cirurgias plásticas no mundo, das que mais tomam remédios para emagrecer, dormir e antidepressivos”.

A lista das adeptas é extensa, Paula Amorim, ex-BBB e agora participante do ‘No Limite’, Virginia Fonseca, Ludmilla, Brunna Gonçalves, Giovanna Chaves, Raissa Barbosa, Viih Tube, entre tantas outras. 

O procedimento não é nada simples. No começo deste ano, após a morte de uma influenciadora de 26 anos devido complicações em sua cirurgia estética, Thaynara OG veio a público contar que foi parar na UTI durante uma semana após realizar a lipo hd. Segundo relato em um vídeo desabafo, o desconforto com a aparência é resultado dessa intoxicação causada pelo padrão de beleza inalcançável. 

A melhor maneira de lidar com isso é procurando profissionais que cuidem da nossa saúde mental (pra gente entender a nossa própria relação com o corpo e autoestima)Thaynara OG

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Riscos

De acordo com o cirurgião plástico Paulo, mesmo com cirurgiões experientes, há o risco de irregularidades durante e depois do procedimento. “Perfurações, inchaço excessivo e resultados inestéticos”, afirma o profissional que destaca que em média são 5 horas de cirurgia.

Outro risco, além do próprio procedimento, é encarar um hospital no auge da pandemia do coronavírus. Durante o isolamento, vimos alguns famosos que aproveitaram as agendas canceladas, compromissos e shows adiados para fazer ajustes, mudanças e “manutenção” de procedimentos estéticos. “Para isso é necessário o teste de covid de todos os pacientes, acompanhantes e equipe médica”, enumera o médico.

O Conselho Federal de Medicina proíbe que os médicos divulguem os valores das cirurgias.

Entretanto, de acordo com alguns cirurgiões, elas podem variar de R$ 20 mil a R$ 30 mil, dependendo do procedimento.