Ligas de vôlei e basquete tentam driblar pior onda da pandemia no Brasil

Colaboradores Yahoo Esportes
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NBB 2020, SÃO PAULO X CAMPO MOURÃO - jogador do Campo Mourão arremessa lance livre durante partida contra São Paulo no Ginásio do Morumbi pelo NBB 2020.

Por Marcelo Laguna (@MarceloLaguna)

Terceiro país com o maior número de casos e segundo na triste relação de total de óbitos pelo coronavírus no planeta, o Brasil vem encarando uma segunda e mais poderosa onda da pandemia. E assim como em todas as atividades, o esporte no país não iria passar sem sofrer com estes efeitos. As principais ligas de clubes do país das modalidades olímpicas tentam manter seus campeonatos em meio a surtos de Covid-19 nas equipes.

Embora criassem protocolos detalhados antes da retomada das competições, no ano passado, vôlei e basquete encaram realidades bem diferentes. Enquanto a Superliga (feminina e masculina) sofre com vários casos positivos e partidas adiadas, o NBB (Novo Basquete Brasil), também com muitos casos, parece ter controlado melhor a doença entre os clubes participantes.

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A reportagem do Yahoo Esportes conversou com representes das duas ligas para entender como as modalidades estão mantendo as competições mesmo com o quadro da pandemia não dando trégua em território nacional.

Superliga sofre com adiamentos

Liga nacional mais longeva no esporte olímpico (a primeira edição foi realizada na temporada 1994/95), a Superliga de vôlei viu sua imagem de modelo de competição a ser seguido arranhada pela pandemia. Desde 9 de novembro, quando a competição foi iniciada, foram detectados 153 casos positivos entre atletas e comissões técnicas, segundo dados divulgados pela CBV (Confederação Brasileira de Vôlei), coletados até a primeira quinzena de fevereiro.

Curioso notar que a pandemia do coronavírus parece fazer mais estrago na Superliga feminina. Ao todo, o torneio já teve registrados 102 casos nas equipes participantes, contra 51 na competição masculina. No feminino, acontecerem os dois casos mais graves também. O técnico Luizomar de Moura, do Osasco/São Cristóvão Saúde, ficou 11 dias internado na UTI por causa da Covid-19. Seu colega Rubinho, comandante do Sesi Bauru, ficou oito dias internado em dezembro, também após ser contaminado.

A própria CBV não consegue explicar a discrepância de casos nos dois naipes da Superliga. “Não temos uma explicação para essa diferença nos números de casos. O protocolo de segurança adotado tanto para Superliga Masculina como para a Feminina é exatamente o mesmo sendo que as normas foram estabelecidas com participação dos clubes e da comissão médica da CBV”, explica Renato D’Avilla, superintendente de competições de quadra da CBV.

Esta explosão de casos trouxe como consequência o adiamento de diversas partidas, em razão dos clubes não terem o número mínimo de atletas para entrar em quadra.

Segundo a CBV, desde o começo da pandemia, foram feitos 5.400 testes. “A Covid-19 é uma doença que ainda traz uma série de questionamentos por suas particularidades e imprevisibilidade. Seriam meramente suposições se atribuíssemos um motivo ou outro para as atletas mulheres terem testado positivo mais do que os homens”, disse D’Avilla.

Por isso, a entidade entende que os protocolos para a Superliga estão sendo cumpridos à risca.

“Discutimos com frequência todos os protocolos de segurança, revisando e atualizando todas as recomendações e sugestões feitas pelos profissionais da saúde envolvidos nesta operação. O que a CBV enfatiza e alerta é que todos esses cuidados devem ser seguidos dentro e fora das quadras, independente das competições. Os atletas e clubes devem adotar protocolos pessoais de segurança, assim como toda a população”, afirmou.

“Na última reunião, reforçamos que continuaremos jogando sem a presença de público por tempo indeterminado. Lembramos a importância da testagem de todas as equipes, com destaque para o respeito ao prazo estabelecido para o envio destes resultados. Os times que não os enviarem seguindo o cronograma de datas perderão a condição de jogo”, disse Avilla. Ele lembrou que o período de testagem a cada 15 dias foi definido em comum acordo com clubes e Comissão de Atletas da CBV.

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Ao contrário do NBB, a Superliga preferiu não adotar um sistema de sedes fixas para a competição. “A CBV cogitou e levou esta proposta, mas decisões finais sobre Superliga são tomadas em colegiado. Ouvimos todas as partes envolvidas, tanto masculino como feminino, e a maioria não achou interessante essa solução”, disse Avilla. A Superliga B feminina, em compensação, adotou este formato de Grand Prix.

Por fim, a CBV não teme que as edições deste ano da Superliga sofram a mesma consequência da edição passada, que terminou sem a definição de um campeão, logo que a pandemia começou. “Este é um problema global, que desperta ainda sentimentos de incertezas e insegurança diante do futuro. Estamos acompanhando tudo o que ocorre no Brasil e no mundo e tomaremos sempre as decisões cabíveis e responsáveis para o momento, ouvindo clubes, comissões técnicas e atletas, priorizando a segurança e saúde de todos os envolvidos.

NBB cria “bolha” e faz testes frequentes

Administrado pela LNB (Liga Nacional de Basquete), o NBB (Novo Basquete Brasil), que reúne as principais equipes da modalidade no país, obviamente não passou ileso dos efeitos da pandemia. Porém, os números mostram que soube contornar melhor os danos.

De acordo com dados da própria LNB, até a primeira quinzena de fevereiro foram feitos 4.608 testes, que detectaram 61 casos positivos de Covid (37 atletas, 15 membros do staff das equipes e 9 árbitros), desde o início do torneio, em 14 de novembro. Em relação ao último controle, a média de casos caiu de 1,24 para 0,74, sempre de acordo com a LNB.

“Nosso objetivo central sempre foi o de minimizar os riscos de contágio e inibir o surgimento de "surtos" e até o momento estamos conseguindo. A contaminação esporádica acontece no mundo inteiro e no NBB não esperávamos que fosse diferente”, afirmou Paulo Bassul, diretor-operacional da LNB. Segundo ele, em média todos os participantes são testados a cada três dias, de acordo com o protocolo estabelecido para o torneio.

Outro fator que pode explicar um número menor de casos em relação ao que acontece na Superliga de vôlei talvez seja o das “bolhas”. As equipes participantes foram divididas em mini sedes para a realização dos jogos da primeira fase do NBB. No mata-mata, porém, os clubes mandarão os jogos em seus próprios ginásios.

“O que está aprovado pelo Conselho de Administração da LNB, formado pelos próprios clubes, é que a Fase Regular será integralmente disputada em mini sedes e os playoffs acontecerão normalmente em jogos de ida e volta. Serão poucos deslocamentos e isso não coloca as equipes em risco na avaliação da equipe responsável pela elaboração do protocolo do NBB”, disse Bassul.

Mesmo com estes cuidados, o NBB sofreu efeitos colaterais da pandemia. O Corinthians chegou a ter quase todo o seu elenco contaminado com a Covid. Sem o número mínimo de atletas para colocar em quadra, o clube solicitou o adiamento de partidas, mas não foi atendido. Resultado: perdeu dois jogos por W.O. O São Paulo também teve recentemente um surto em seu elenco mas ainda teve jogadores para atuar. A LNB não acha que este tipo de situação cria um desequilíbrio técnico no campeonato.

“Com a criação do WO especial para casos como o do Corinthians, no qual a equipe atingida por um grande número de casos simultâneos de Covid faz jus ao ponto da derrota, a questão do desequilíbrio técnico ficou minimizada. De qualquer forma, esperamos que isso não ocorra novamente e todas as medidas estão sendo tomadas neste sentido. Mas não se pode negar que estamos lidando com um vírus que tem se mostrado um adversário difícil para o mundo inteiro, não somente para nós. Estamos cientes de que não podemos relaxar, muito pelo contrário, há um processo constante de aperfeiçoamento do protocolo”, afirmou Paulo Bassul.