Liga da Justiça: como a bolha da internet engoliu o cinema

Zack Snyder (dir.) dirigindo Gal Gadot (Mulher-Maravilha, centro) e Ben Affleck (Batman, esq.) no set de Liga de Justiça (2017). Foto: Clay Enos - © 2016 Warner Bros. Entertainment Inc., Ratpac-Dune Entertainment LLC / Ratpac Entertainment, LLC
Zack Snyder (dir.) dirigindo Gal Gadot (Mulher-Maravilha, centro) e Ben Affleck (Batman, esq.) no set de Liga de Justiça (2017). Foto: Clay Enos - © 2016 Warner Bros. Entertainment Inc., Ratpac-Dune Entertainment LLC / Ratpac Entertainment, LLC

Por Thiago Romariz* — Desde o dia em que Liga da Justiça estreou, os fãs ardorosos da DC pedem o lançamento da versão do diretor. Afastado da cadeira de comando após uma tragédia familiar, Zack Snyder viu seu filme ser finalizado (e não refilmado) com cenas adicionais por Joss Whedon, cineasta que chegou após executivos estarem insatisfeitos com a visão de Snyder para o filme que continuaria a história de Batman vs Superman. Em outros anos, a troca e a ingerência dos produtores na obra final seria dada como lenda urbana ou fato comum nos corredores de Hollywood. Hoje, porém, na era de filmes de herói e com uma internet dando voz a todo tipo de fã, este caso não seria deixado de lado.

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Essa semana, a Warner, que tanto apoiou a versão de Whedon e sempre negou a versão de Snyder, anunciou ao lado do diretor o lançamento de um "novo" Liga da Justiça em seu vindouro serviço de streaming, o HBO Max (no Brasil em 2021). Ironias à parte, a atitude mostra como os executivos de Hollywood cada vez mais se rendem aos algoritmos da internet para buscar o sucesso, ainda que ele seja medido dentro das inúmeras bolhas que existem no mundo digital. E não se discute aqui se a versão de Snyder é melhor, pior ou merece ser lançada. De antemão, dá pra dizer que para qualquer profissional é frustrante ter sua obra final negada, ainda que isso seja mais do que comum em muitos ambientes de trabalho. 

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Desde os primeiros dias do Universo DC (Homem de Aço, Esquadrão Suicida e outros) no cinema, os executivos se mostram mais do que sensíveis aos pedidos de (alguns) fãs, ao mesmo tempo que não conseguem se livrar do claro objetivo dessas obras: o lucro. O primeiro filme do Superman nas mãos de Snyder teve reações divididas, mas desempenho razoável na bilheteria. O suficiente para a Warner deixar nas mãos dele o futuro de toda a equipe de heróis. O problema foi que, já em Batman v Superman (sequência de Homem de Aço), a visão "sombria" do diretor sofreu críticas de parte do público, seja ele fã ou não. Não à toa, o próprio embate dos heróis tem uma "versão do diretor" pública. 

Fato é que, após lançado, o filme teve desempenho abaixo do esperado e dividiu ainda mais a audiência. Foi o argumento final para que os executivos voltassem os ponteiros para o lucro e começassem a tolher a proposta aceita por eles meses antes. O primeiro prejudicado foi David Ayer, diretor de Esquadrão Suicida, que viu seu filme ser completamente modificado após exibição para o estúdio. Eis que Liga da Justiça, planejado para ser um filme em duas partes, como já sabemos se transformou no objeto de experiência da Warner para retomar a bilheteria e o prestígio que aqueles heróis perderam ao longo dos anos - algo potencializado pela Marvel e seus Vingadores explodindo na bilheteria.

A rendição da Warner aos fãs que pediram a versão de Snyder (que nunca fez questão de esconder esse desejo também) é só mais uma constatação do poder dos fãs e da internet em Hollywood. E como toda influência, ela vem com diferentes pesos, todos eles já comprovados. Deadpool é um bom exemplo, já que o vazamento de um vídeo-teste e a campanha online por Ryan Reynolds assumir o papel trouxe liberdade criativa sem precedentes. Star Wars foi pelo caminho oposto e entrou na bolha que fez Episódio IX ser um remendo que destrói o legado da franquia. É como se os produtores engravatados usassem os argumentos do Twitter para decidir o direcionamento de uma produção. "A internet pediu, nós fazemos."

A diferença deste momento para outras épocas em Hollywood, que é moldada por pesquisas e bilheterias desde sempre, é como a internet potencializa discursos tendenciosos e tira de proporção qualquer opinião, seja ela individual ou de um grupo. Uma pessoa pode ter o poder de um milhão, um grupo de milhares pode não ter um segundo de atenção. E cabe, pelo bem da indústria e da justa preservação da visão artística, uma busca pelo equilíbrio na hora de navegar pelos Trending Topics. 

Estúdios como a Marvel e Netflix entenderam isso há anos, e moldam seus filmes e campanhas a partir disso. Outros ainda precisam compreender que o frisson da timeline, às vezes, é como uma manchete chamativa, mas fugaz. No dia seguinte, nem mesmo os que espumam de raiva por uma decisão vão se lembrar do que escreveram, pois seguem o fluxo direcionado pela manada. E isso independe do sucesso ou fracasso da versão de Snyder, que até ser lançada será só mais uma peça publicitária da Warner - um estúdio que mesmo tendo anunciado um novo Batman, um reboot do Esquadrão e outro Coringa, decidiu voltar ao passado para, teoricamente, agradar aos fãs.

*Thiago Romariz é jornalista, professor, criador de conteúdo e atualmente head de conteúdo e PR do EBANX. Omelete, The Enemy, CCXP, RP1 Comunicação, Capitare, RedeTV, ESPN Brasil e Correio Braziliense são algumas das empresas no currículo. Em 2019, foi eleito pelo LinkedIn como um dos profissionais de destaque no Brasil no prêmio Top Voice.

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