Lenda do surfe vê Medina e Filipinho com chances reais de título no Havaí

Ricardo Guimarães*
LANCE!


Quando Ítalo Ferreira acertou um sensacional aéreo, com direito a um 360º, bem acima da crista da onda, o campeão da Liga Mundial de Surfe (WSL) de 2014 Gabriel Medina viu que não seria na etapa de Peniche, em Portugal, que o tão sonhado bicampeonato iria se concretizar. A disputa agora vai para a etapa final na mística Pipeline, no Havaí, entre os dias 8 e 20 de dezembro. Para o bicampeão Mundial de ondas grandes, Carlos Burle, o cenário dessa edição do WSL é muito favorável para os brasileiros:

- Eu vejo com muito conforto. Nos melhores dos meus sonhos, eu não conseguiria pintar tudo isso. Vejo o Gabriel Medina como o cara mais difícil do circuito. O mais completo. Oferece risco em todas as posições para qualquer competidor. E vejo o Felipe Toledo como um cara único, que anda em uma velocidade acima dos outros e que tem muito a evoluir e os dois merecem estar aí no topo do tour com condições de serem campeões.

Medina lidera a competição com 56,190 pontos, seguido do australiano Julian Wilson e do brasileiro Filipe Toledo, o Filipinho, que estão empatados com 51,450 e fecham a briga pelo título. No duelo em Peniche, Medina precisava vencer para ser campeão antecipadamente, mas caiu nas semis para Ítalo, que acabou conquistando a etapa. Ítalo, porém, está em quarto e não briga pelo campeonato, mas faz sua melhor temporada na WSL.



Carlos Burle
Carlos Burle
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Burle vê Medina como o favorito ao título (Foto: InnerSport)


Brasil bem representado

Após anos de domínio absoluto de americanos e australianos, Gabriel Medina abriu as portas em 2014 para a Brazilian Storm (Tempestade Brasileira), e foi seguido por Adriano de Souza, o Mineirinho, campeão mundial em 2015, tendo, inclusive, vencido em Pipeline, o que o tornou o único brasileiro que triunfou na praia havaiana até hoje. Em vantagem e com experiência de ser o único campeão na disputa do título, para Burle, Medina é franco favorito para repetir o feito de 2014.

- O Medina é favorito, sim. No meu ponto de vista, sempre achei que ele tem um potencial muito grande e ele consegue ser completo e surfar qualquer tipo de onda. Ele está entendendo mais o jogo do circuito. Quando ele foi campeão muito jovem, não tinha maturidade para entender isso. Ele passou por um momento de explosão como ídolo, fenômeno, muita pressão, com patrocinadores, mídia e assédio. E a tendência é de que ele amadureça - disse.

Burle destacou ainda o que seria a melhor estratégia a ser traçada por Medina e Charles, seu padrasto e técnico.

- Se eu fosse o Charles e estivesse com ele agora eu falaria assim: "Vamos jogar para as quartas. Garantir a primeira e a segunda ondas boas. Chegando lá, fazemos um resumo da competição e planejamos uma nova estratégia” -apontou Burle.






O que está em jogo?
Burle vê pressão pelo resultado em Filipinho e Julian, e acha que Medina tem tudo para alcançar Kelly Slater, 11 vezes campeão da WSL.

- Para o Filipinho, fica em jogo toda a confiança nele mesmo. É um cara que sabemos que já poderia ter sido campeão e, se não ganhar, vai ficar como um trauma a ser superado. O Julian também. Quem está levando a vantagem é o Gabriel, que está na frente e tem mais calma e frieza. Ele sendo campeão, vai ficar mais confiante. Quem sabe ele não engrene e não fale em chegar perto do Kelly Slater ou até ser maior vencedor do que o Kelly? - argumentou.

Água no chope brasileiro
No entanto, o australiano Julian Wilson, um dos postulantes ao titulo, pode estragar a festa brasileira.

- As chances do Julien existem, mas eu diria que são pequenas. Se formos dividir, eu faria 60% Medina, 30% Julian e 10% Felipe. Mas com 10% já dá para ele virar esse jogo. Existe, sim, a possibilidade, mas estou confiante, assim como todo mundo. O Medina está mais maduro, provavelmente não vai cometer uma interferência e boiar na bateria. Vai pegar a primeira e a segunda ondas e vai avançar às quartas. Depois, fica mais difícil para o Julian mudar esse resultado, ou o Filipinho - afirmou o veterano.

Matemática do título em Pipeline
O vencedor da etapa ganha 10 mil pontos e o vice, 8 mil. Com cerca de cinco mil pontos de vantagem, Medina precisa "apenas" chegar na final e não correrá riscos de ser ultrapassado pelos adversários. Se o atual líder chegar na terceira posição, Julian e Filipinho terão de conquistar a etapa para ficar com o título. Se Medina ficar entre a quinta e a 25ª posição, os dois precisam chegar à final para conquistar o Circuito Mundial. Nesse cenário devastador para Medina, se ambos os adversários se enfrentarem na final, é campeão quem levar a etapa.

Uma vitória na etapa do Havaí, além de garantir o bicampeonato, quebra o jejum de Medina em Pipeline, já que em 2014, o surfista venceu o campeonato antes das quartas, quando o seu adversário na luta pelo título, Mick Fanning, foi derrotado pelo argentino naturalizado brasileiro Alejo Muniz, na quinta fase do torneio. Medina chegou à final, mas perdeu, curiosamente, para Julian Wilson, mesmo adversário que pode estragar a festa brasileira.

Histórico do trio no Havaí
A vitória do australiano em 2014 foi a única vez que um dos postulantes ao título conquistou a etapa havaiana. Medina bateu na trave também em 2015, quando perdeu na final para Mineirinho, que foi campeão da WSL naquele ano, sendo, até hoje, o único brasileiro que venceu em Pipeline.

Como consolação, Medina ficou com a Tríplice Coroa Havaiana, torneio que premia o melhor desempenho, somando as três competições do ano no Havaí: Pipeline, pela elite e Haleiwa e Sunset Beach válidas pelo QS, a divisão de acesso, que o brasileiro chegou até a semifinal nas duas ocasiões.

O melhor resultado de Filipe Toledo em Pipeline foi um quinto lugar em 2014. Ele ainda ficou em 25º duas vezes (2013 e 2017), 13º em 2015 e nono em 2016. Gabriel Medina, Além dos dois vices (2014 e 2015), ficou em 13º duas vezes (2013 e 2016), duas vezes em quinto (2011 e 2017) e uma vez em nono (2012). Já Julian triunfou em 2014, mas ficou com quatro 13º lugares (2011, 2012, 2015 e 2016) e dois quintos lugares (2013 e 2016).

* Estagiário, sob supervisão de Fábio Storino






















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