Lembrado em biografia, locutor dos anos 50 ainda inspira narradores e bordões

LUCA CASTILHO
Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo." "Sai daí que o jacaré te abraça, garotinho." "O que que eu vou dizer lá em casa?" "Cruel, muito cruel." "Mandou mal, lá na geral, que nem perna de pau." Muito antes da chegada dos vídeos sob demanda, dos podcasts e até dos canais fechados de TV, a transmissão esportiva no rádio, especialmente do futebol, fazia sucesso nos rádios por vozes imponentes e bordões eternizados por grandes narradores.

Embora a primeira narração de um jogo no Brasil tenha ocorrido em 1932, na voz do locutor Nicolau Tuma, seguido por nomes como Ari Barroso, Luiz Mendes e Gagliano Neto, foi na década de 1950, com a concorrência da TV, que Fiori Gigliotti uniu a narrativa informativa e dramática nas rádios Bandeirantes, Pan-Americana, Tupi e Record, inaugurando a era romântica das locuções esportivas.

"O Fiori Gigliotti fez parte daquela linha de ataque em que você tem Pedro Luiz Paoliello, Edson Leite, Fiori Gigliotti, Osmar Santos e José Silvério. Talvez os cinco grandes nomes do rádio paulista para não dizer brasileiro. São geniais! Cada um com seu estilo, com sua categoria e com uma longevidade impressionante de todos", afirma o jornalista Mauro Beting, autor de um livro recém-lançado sobre Gigliotti.

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Apesar de ter vivido seu auge na década de 1960, o protagonista de "Fiori Gigliotti - O locutor da torcida brasileira", biografia escrita por Beting e também pelo jornalista Paulo Rogério, influencia até os dias de hoje narradores de futebol.

"É uma referência para todos nós porque ele trouxe um método de narração muito diferente. Era poético, muito genuíno, sutil, belo. Ele transformava um gol em um soneto", destaca Marcelo do Ó, 40 anos, narrador das rádios CBN/Globo e da plataforma Dazn.

"Ele teve um jeito único de transmitir jogos de futebol, era uma transmissão um pouco cantada, que não rebuscava palavras", comenta Oscar Ulisses, 62 anos, da rádio CBN/Globo.

Para Paulo Andrade, 40, da ESPN, o legado do narrador passa pela forma de se relacionar com os ouvintes. "Um locutor precisa agregar a parte técnica, que eu entendo como fundamental, à parte lúdica. O esporte mexe com o coração das pessoas", diz. "A minha geração tende a ser muito técnica, o passar dos anos cobra isso. Quem nos assiste é bem informado e exige que sejamos também."

Há 38 anos na rádio Jovem Pan, o locutor e amigo Nilson Cesar, 58, enfatiza o estilo único de Fiori. "Ele despertou uma geração, foi espelho de muita gente, não só na carreira profissional, mas na pessoal também. Sempre foi um cara com uma conduta pessoal extraordinária e profissionalmente genial."

"O Fiori tinha uma transmissão personalíssima. Fazia com que os ouvintes fossem obrigados a imaginar um cenário todo diferente daquilo que os outros davam a entender. Poético, transmissão lenta, mas precisa de onde estava a bola. Essa sua característica o diferenciava", lembra Silvio Luiz, 85 anos --e na ativa pela rádio Transamérica--, que seguiu os passos de Fiori e imprimiu a irreverência e bordões clássicos como "olho no lance" e "pelo amor dos meus filhinhos" em suas narrações.

Dono de diversos bordões ("Tiroliroli, tirolirolá!"; "no caroço do abacate") e um dos principais nomes do meio, Osmar "pimba na gorduchinha" Santos, 70 anos, criou uma verdadeira legião de fãs e deixa saudade até hoje desde que parou de narrar, devido a um acidente automobilístico, em 1994, que afetou sua fala.

"Falar do Osmar é chover no molhado. É um sujeito que me ensinou tudo e que foi um divisor de águas. Esse jeito mais nervoso de contar a história dos jogos é um pouco do estilo do Osmar. O linguajar dele foi muito moderno para época, os bordões que ele criou, e isso porque está há mais de 20 anos fora da mídia", destaca Oscar Ulisses, irmão do "Pai da Matéria".

Com ou sem bordões, craques do microfone como Pedro Luiz Paoliello, Edson Leite, Jorge Curi, Oduvaldo Cozzi, José Silvério, Garotinho, Waldir Amaral, José Carlos Araújo, Luciano do Valle, Milton Neves, Nilson Cesar, Galvão Bueno e uma seleção de grandes narradores mexeram e ainda mexem com o imaginário de milhões de brasileiros e seguem influenciando uma gerações de narradores.

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