Lava Jato descartou prisão de Lula para não torná-lo "mártir vivo"

Colaboradores Yahoo Notícias
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ARCHIVO - En esta imagen de archivo del viernes 4 de marzo de 2016, el expresidente de Brasil Luiz Inácio Lula da Silva es rodeado de seguidores a su salida del edificio del Partido de los Trabajadores en Sao Paulo, Brasil. (AP Foto/Nelson Antoine, Archivo)

A força-tarefa da Operação Lava Jato cogitou não prender o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por temer transformá-lo em “mártir vivo”, revelam diálogos entre procuradores pelo Telegram que tiveram o sigilo suspenso pelo ministro Ricardo Lewandowski, do STF (Supremo Tribunal Federal).

De acordo com reportagem do portal UOL, os diálogos ocorreram em março de 2016, quando Lula teve sua nomeação para ministro-chefe da Casa Civil, pela então presidente Dilma Rousseff, suspensa pelo ministro do STF Gilmar Mendes.

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“Caraca!!!”, escreveu o procurador Paulo Galvão em um grupo da Lava Jato em aplicativo de mensagens. “Dá-lhe, Gilmar!”, comemorou em seguida a procuradora Jerusa Viecili. Na mesma conversa, de 18 de março, o procurador Andrey Borges de Mendonça sugeriu: “Agora vamos preparar a denúncia e se, até lá, estiver ok, apresentamos para o Moro”. Na sequência, ele lembrou que o petista também poderia ser denunciado em Brasília por obstrução à Justiça.

Um temor de Mendonça era de que a denúncia em Brasília “poderia facilitar a alegação de conexão e de que tudo deveria subir [sair de Curitiba]”: “É importante refletir sobre isso. Ter uma posição uníssona com o PGR [procurador-geral da República, Rodrigo Janot, à época] seria bem importante”.

O debate sobre acerto com PGR e o MPF no Distrito Federal a respeito de denúncia teve o apoio de outros procuradores. “Temos que alinhar tudo muito bem com os meninos em Brasília e PGR!”, escreveu Roberson Pozzobon.

“Concordo. O PGR agiu muito bem no episódio do grampo e estamos todos no mesmo barco", pontuou Diogo Castor de Mattos, também se referindo a uma fala de Janot que disse que a interceptação de uma conversa telefônica entre Lula e Dilma foi “legal”. O áudio foi divulgado por Moro em 16 de março e foi uma das bases para brecar a nomeação de Lula.

Também membro da força-tarefa à época, o procurador regional Antônio Carlos Welter sugeriu cautela sobre o momento da denúncia contra Lula. A tese dele tinha como base o fato de que o plenário do STF ainda iria avaliar se manteria ou não a decisão provisória de Gilmar.

“Caríssimos, acho que temos que ter um pouco de cuidado para não fazer um mártir. Ou pior, um mártir vivo, justificando o discurso do Lula de que se vê como preso político”, escreveu Welter no grupo. “Possivelmente a liminar será levada a plenário em uma semana, talvez na quarta pós-Páscoa. Não vejo, assim, necessidade de pressa (embora minha vontade seja noutro sentido).”

“Ele [Lula] voltaria encarnando um ressuscitado após a semana santa. Pior cenário impossível. Sugiro, assim, que seguremos o andor. Até porque, se confirmada a liminar, qualquer providencia poderia ser encetada imediatamente”, prosseguiu Welter.

Outro integrante do grupo da Lava Jato (o qual não é possível identificar) afirmou: “Concordo com o Welter no sentido de que não há espaço político para um pedido de prisão”. “Quanto ao mais, vamos trabalhar na denúncia, como estava previsto. Quando estiver pronta, levamos o caso para o PGR e decidimos.”

Na sequência, Jerusa mostrou um meme em que aparece Moro fechando uma porta e dizendo: “Peço licença. Preciso preparar um papel para o japonês entregar. Valeu, Gilmar!”. A figura faria referência a um suposto pedido de prisão preventiva de Lula.

“Brincadeira, gente! Preventiva só quando a denúncia estiver redondinha e com aval da PGR. Creio que só em caso de fato novo, grave, atual e clássico de prisão. Salvo isso, iríamos perder mais que ganhar”, escreveu a procuradora também em 18 de março.

Dias antes, em 14 de março, o então coordenador da força-tarefa, procurador Deltan Dallagnol, também já havia indicado que um pedido de prisão demandaria novidade. “Em relação à prisão do Lula, somente se houver fato significativo, clássico e atual para um novo pedido. É minha posição.”

Procurado pela reportagem, o MPF não se manifestou sobre as mensagens.