Laird Hamilton, o inventor do surfe

Yahoo Esportes
(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)


Por Emanoel Araújo

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

Você pode chamá-lo de egoísta, por ter abandonado sua dupla de tow-in na praia com a perna aberta e ter voltado ao mar para encarar ondas de até 20 metros.

E achá-lo vaidoso após ter surfado a onda do milênio e logo depois ter abandonado seus melhores amigos, ou melhor, demitido parte de sua equipe para brilhar sozinho.

SIGA O YAHOO ESPORTES NO INSTAGRAM

Talvez seja muita presunção dele se considerar um dos melhores surfistas da história sem ter disputado um campeonato sequer.

Mas o fato é que Laird Hamilton sempre se esforçou demais para ser exatamente quem é: um obcecado pelo surfe. E ninguém no mundo desenvolveu tanto o assunto quanto o pai do quadricóptero, ou como é mais conhecido, o foil.

NADADOR NATO

A relação com o mar vem desde o início da vida. A mãe, Joann Zyrek, participou de um estudo em São Francisco, Califórnia, chamado batisfera. O objetivo era sugar líquidos do abdômen e dar mais espaço para a criança dentro da placenta. Por coincidência ou destino, ele já nadava antes mesmo de respirar.

Brincando na praia, Laird falou para Bill ser seu pai e eles formaram uma família (Arquivo pessoal)
Brincando na praia, Laird falou para Bill ser seu pai e eles formaram uma família (Arquivo pessoal)


Após ser abandonada pelo marido, Joann buscou a liberdade prometida que o Havaí da década de 60 oferecia aos americanos com o filho junto. A conexão com o surfe foi tão imediata quanto a entrada de Bill Hamilton (uma lenda do esporte por lá) na vida de sua família. Ele se tornou seu padrasto, lhe deu seu sobrenome e uma lição: nunca competir.

“Como cresci muito ligado a competição, observar Bill Hamilton [padrasto] surfando uma competição na qual devia ter ganho e... perdendo, aquilo me deixava com um amargo na boca”

:: MODELO DE SURFISTA

Sem disputar campeonatos que, normalmente, tinham ondas pequenas, Laird não conseguia dinheiro para bancar equipamentos e viagens para ondas maiores. Um fotógrafo da revista Vogue, de passagem pela ilha de Oahu, era tudo o que o surfista de 17 anos precisava para ganhar algum dinheiro em sessões de fotos.

No filme North Shore, Laird fazia o surfista antipático e brigão; papel reproduzia sua fama pelo Havaí (empresa/fotografo
No filme North Shore, Laird fazia o surfista antipático e brigão; papel reproduzia sua fama pelo Havaí (empresa/fotografo


O sucesso do modelo-surfista chegou ao seu ponto alto na dramaturgia. Em 1987, Laird fez sua estreia na indústria do cinema com “North Shore”, no qual interpretava o vilão. Desempenhou tão bem o papel que chamou atenção para outras participações e assim se revezou entre trabalhos como modelo/ator e seguiu experimentando as várias formas de aproveitar o mar até chegar no windsurf.

:: EMBRIÃO DOS AÉREOS

Com os pés presos na prancha e a possibilidade de fazer manobras aéreas, o windsurf mostrou, pela primeira vez, a capacidade criativa de Laird Hamilton. O esporte permite que você entre em ondas com segurança para realizar manobras mais ousadas, como é possível ver no vídeo abaixo:


Munido de uma prancha com velcro e uma meia do mesmo tecido nos pés, ele tentou alguns aéreos. Só mais tarde percebeu que criara não só um treinamento para ‘aerialistas’, mas também uma forma de manobrar nas ondas grandes e manter a prancha encaixada no pé.

:: MERRECAS E TOW-IN

Já sem os papéis em TV ou cinema, Laird dedicou-se ao mar em tempo integral. Em um dos períodos sem vento ou ondas grandes, ele e seus amigos de windsurf puxavam uns aos outros brincando de wakeboard em mares sem onda. Em um dia desses, uma ressaca chegou à praia e ele teve uma ideia:

“Eu puxava alguém que depois soltava a corda ou me puxavam e eu depois me soltava. Mas começamos com ondas pequenas, tentando dominar a técnica. Naquele momento, tive uma epifania. Aquele reboque podia puxar para as ondas e até mesmo as maiores”


No início da década de 90, a partir desta epifania de Laird, o surfe de ondas grandes explodiu no mundo graças a técnica do tow-in (reboque).

:: SURFE DE ONDAS GRANDES

Enormes massas de água que jamais foram surfadas em lugares sem nenhuma disputa por elas. O surfe de reboque (tow-in) mostrou que havia muitos lugares a se explorar. Laird e seus amigos pararam de viajar e voltaram seus olhos a uma onda indicada pela lenda Gerry Lopez. A praia de difícil acesso era mais complicada ainda no outside: bombas de 20 metros de altura desafiavam a equipe. Peahi, em havaiano, significa farol. Os americanos chamavam o local de Jaws (Tubarão). Tal qual a boca do predador, as ondas eram ferozes. Depois de Laird, elas também ficaram famosas.

Pela primeira vez na história do surfe, uma onda (e um surfista) viraram capa da National Geographic (Reprodução)
Pela primeira vez na história do surfe, uma onda (e um surfista) viraram capa da National Geographic (Reprodução)


O grupo que descobriu como surfar a onda também sofreu críticas ao popularizar o tow-in até transformar Jaws em um inferno. A superlotação do pico causou acidentes como morte por afogamento e um enorme número de atropelamentos por jet-skis.

Com a popularidade em baixa no Havaí, Laird Hamilton encontrou a redenção no Taiti. Foram necessárias duas tentativas para a sorte do surfista mudar. Com, aproximadamente, cinco metros de altura, a Onda do Milênio o transformou em estrela nos Estados Unidos.


:: SEM LIMITES PARA O IMPOSSÍVEL

Surfar ondas grandes pareceu cada vez mais profissional. Subitamente, Laird Hamilton cortou relações com a maioria de seus amigos que o rebocavam às ondas gigantes. Para alguns, o trauma do fim dessa relação foi pior, como foi o caso de Brett Lickle, que o puxava em um mar com ondas de mais de 35 metros. Após resgatar Laird Hamilton, a dupla foi engolida por uma onda gigante e levada às profundezas de Peahi. Lickle explicou o que aconteceu depois disso:

“Foi aí que percebi que a água estava completamente vermelha. Eu me lembro que passei a mão na minha perna e ela estava aberta de o joelho até o tendão de Aquiles, este foi o rasgo que a aleta da prancha fez”

Após o acidente, Brett nunca mais voltou ao surfe de ondas grandes (Reprodução)
Após o acidente, Brett nunca mais voltou ao surfe de ondas grandes (Reprodução)

Após o acidente, Brett nunca mais voltou ao surfe de ondas grandes (Reprodução)

Até mesmo nessa hora, o surfe virou prioridade. Por sorte, Laird encontrou o jet-ski, nadou até ele, resgatou Lickle, o deixou com os paramédicos e, com os dois tornozelos quebrados, voltou ao mar. Sua motivação em parte foi explicada em espantar o medo pela situação extrema, ou como ele mesmo afirmou: “não saberia quando e se teria outro swell daquele pra surfar”.

:: A INVENÇÃO DO FOIL

Com tanta obstinação, Laird marcou seu nome no surfe graças a uma diversão com uma cadeira equipada com uma aleta. Durante a brincadeira na água, percebeu que o instrumento, que arrastava a massa de água abaixo da superfície, dava mais força e velocidade na onda. Somndoa-se isso as experiências de risco e, mais uma vez, ele encontrou uma solução/invenção.

"Um dos grandes problemas que tivemos com o tow-in foi encontrar estes bumps nas ondas, que é a única coisa que você não quer em uma parede de água de 15 metros"

Laird Hamilton – em entrevista à ABC

Assim nasceu o foil, ou quadricóptero, que dá ao surfista o poder de flutuar com uma velocidade e força nunca antes vistas. Para se ter uma ideia do quanto isso pode ser revolucionário para o mundo do surfe, criador e criatura demonstram que é possível ficar em pé em uma onda, por mais de quatro minutos, como ele fez em Pascamayo, no Peru:


A vida de Laird Hamilton faz parte da história do surfe. E o Yahoo Esportes teve o prazer de contar. Caso queira saber mais sobre esta lenda, seu filme, “Take Every Wave” (tradução: Pegue toda onda) está disponível no Youtube e Netlflix.

Siga o Yahoo Esportes

Twitter | Flipboard | Facebook | Spotify | iTunes | Playerhunter


Leia também