Kscerato foi da lan house na favela às finais da Copa de Counter-Strike

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O mundo do e-sport brasileiro prendeu a respiração durante os playoffs da PGL (Professional Gamers League), uma espécie de Copa do Mundo. Lá estava a equipe brasileira FURIA que chegou às quartas de final para enfrentar os russos da Gambit no game Counter-Strike.

Esta edição em Estocolmo, na Suécia, foi o primeiro campeonato oficial presencial --chamado de Major-- desde a parada provocada pela pandemia.

Foi uma partida eletrizante, com direito a viradas, prorrogação e tensão. A plateia lotada urrava diante de telões enormes, o palco tremia com o final dos rounds. Fogos de artifício eram disparados, narradores perdiam o fôlego com as reviravoltas no placar enquanto a audiência online passava da casa do milhão de espectadores.

Em meio a esse caldeirão, Kaike Cerato, o Kscerato, o craque brasileiro, estava calmo. "Não sou apegado a rede social, foco só no meu trabalho, eu me criei jogando em lan house", disse o jogador ao site F5 por uma videochamada direto da Sérvia --o país é muito usado por equipes de e-sport para fazer treinamentos intensivos. "Me sinto em casa quando jogo com torcida".

Ele está de malas prontas para chegar na Finlândia no final deste mês para seu último compromisso, um campeonato de Counter-Strike de duplas.

Nascido no Jardim Helena, uma das regiões mais pobres de São Paulo, na zona leste, em 1999, Kscerato joga Counter-Strike desde os nove anos. Game conhecido simplesmente como CS, trata-se de um jogo de tiro tático, com uma equipe fazendo o papel de polícia e outra de terrorista.

É febre no Brasil há décadas. Surgiu no final dos anos 1990 como uma modificação de "Half-Life" e ajudou a impulsionar as lan houses pelo país. Em 2008, chegou a ser proibido pela Justiça, o que motivou cenas como um protesto de 30 pessoas no vão livre do Masp. Atualmente, "Counter-Strike: Global Offensive" chega a ter mais de 1 milhão de jogadores simultâneos.

A família de Kscerato o incentivava. O irmão três anos mais velho, Kauan, o também e-atleta Kncerato, foi um de seus primeiros parceiros de treino. "Xingava todo mundo na lan house, meu irmão tinha que me defender", afirma Kaique, que disputa campeonatos desde os dez anos.

Nesse início de jogatina, um parente chegou a abrir uma lan house. O negócio não andou. "Era difícil manter, é preciso de investimento alto e a região tem muito alagamento". A falta de infraestrutura contra enchente é uma reclamação antiga na região.

Apesar dos percalços, a carreira do e-atleta decolou. Em 2018, foi contratado pela FURIA Esports, com uma rápida passagem pela equipe de base e chegada à equipe principal. Além de Kscerato, a equipe é composta por arT, VINI, drop e yuurih. Esse último forma uma dupla estilo Bebeto e Romário, a qual os fãs apelidaram de "Yurato". "A gente foi colecionando momentos, foi criando uma conexão de irmão, a gente entende os pensamentos um do outro", conta Cerato.

A pandemia brecou as disputas presenciais, levou tudo para o online. Segundo Kscerato, é um ambiente que dá vantagem aos europeus. "Eles estão em casas confortáveis, junto da família, só jogando CS".

Mesmo assim, a FURIA cresceu. Fundada há quatro anos, colocou seu emblema no cenário de e-sports mundial. Em 2020, o time obteve títulos importantes como a ESL Pro League e a DreamHack Open Summer.

Kscerato também evoluiu, mudando até mesmo o estilo com que segura o mouse. Se há dois anos ele usava a quina da mesa de eixo para correr a mira da arma lateralmente, hoje ele apoia o antebraço, uma postura mais usual.

O ápice da ascensão meteórica veio na PGL, com a classificação para as quartas de final. Neymar, jogador do PSG que às vezes parece levar o CS mais a sério que o futebol, declarou publicamente seu apoio aos brasileiros. "Hoje é dia de clutch do @kscerato", tuitou o atacante da seleção. "Clutch" é uma gíria para viradas em situações de desvantagem, marca de Kscerato.

A partida foi disputada --principalmente no primeiro mapa, com direito a prorrogação. No entanto, os brasileiros foram eliminados. A Gambit confirmou o favoritismo e venceu com um placar de 2 a 0, com parciais de 19 x 17, no mapa Inferno, e 16 x 10, no Overpass.

"Faltou entrosamento, tivemos uns timings ruins. Mas deu para ver que os caras não são tão bons assim em disputas offline quanto são no online", conta Kscerato. Segundo ele, as conversas internas após a partida foram saudáveis. "Assisti aos melhores momentos da transmissão do Gaules, a vibração era incrível".

Gaules é Alexandre Borba, popular streamer e ex-atleta de CS. É ele quem narra e comenta as partidas mais importantes. Após a partida da FURIA contra Gambit, ele postou que sua transmissão teve pico de 342 mil usuários simultâneos e audiência total de 1,1 milhão de espectadores. Nos últimos meses, Gaules vem quebrando sucessivos recordes dentro da plataforma Twitch, especializada em transmissões ao vivo de games.

"Se nós ganhássemos ia ter desfile de caminhão de bombeiro na favela", diz Cerato, que declara estar morrendo de saudade de voltar a tomar caldo de cana lá pelos lados da zona leste.

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