Os fãs de K-Pop estão boicotando o extremismo político

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Fãs do grupo de K-Pop BTS, chamados de "Armys", são conhecidos pelo engajamento social (Foto: Getty Images)
Fãs do grupo de K-Pop BTS, chamados de "Armys", são conhecidos pelo engajamento social (Foto: Getty Images)


Armys, Monbebes, EXO-L, Blinks… Essas palavras podem não significar nada para você, mas, acredite, elas têm sido responsáveis por uma série de boicotes políticos e ações sociais de grande impacto. Os termos em questão são os nomes dados aos fãs de diferentes grupos de k-pop que, há mais de duas décadas, desenvolvem trabalhos sociais pelos seus ídolos e, agora, decidiram entrar de vez no mundo da política. 

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No último fim de semana, a manchete no mundo inteiro foi o rumor de que os fãs dos grupos musicais coreanos tinham adquirido boa parte dos ingressos de um comício de Donald Trump em Tulsa, Oklahoma, mas não apareceram por lá - de propósito, claro. O resultado? Uma arena para 19 mil pessoas praticamente vazia e toda uma estrutura, pensada originalmente para um milhão de pessoas, desperdiçada. 

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Pelo o que dizem os jornais internacionais, a ação foi inteira orquestrada por adolescentes que usaram redes como o TikTok e o Twitter para combinar um boicote em massa ao atual presidente dos Estados Unidos. Esses jovens, inclusive, foram elogiados por ninguém menos que Alexandria Ocasio-Cortez, congressista norte-americana considerada o rosto da nova geração política do país, por conta da ação coordenada. 

Muito se especula sobre o real impacto dos fãs em incentivar a compra de ingressos para o evento e não comparecerem depois - segundo o The New York Times, a ideia se espalhou pelos fandoms e por grupos nichados de tiktokers. Porém, esse envolvimento não deveria ser visto como uma surpresa para uma comunidade tão forte como essa. 

A gente explica: a cultura sul-coreana, ao contrário da brasileira, tem um senso de comunidade forte, que acabou sendo transferido para os fandoms. Com o crescimento exponencial de grupos como o BTS e o Monsta X, é apenas uma consequência que os grupos de fãs crescam também em outras partes do mundo e unam forças quando necessário. 

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Se até o suporte na luta contra a depressão já virou pauta entre fãs, a política e o ativismo social não ficariam longe por muito tempo. Mais cedo este mês, a polícia de Dallas, também nos Estados Unidos, pediu para que os moradores da cidade baixassem um aplicativo e postassem vídeos de "atividades ilegais" durante os protestos Black Lives Matter, mas foram surpreendidos por uma enxurrada de vídeos dos idols, um movimento das fãs para boicotar a vigilância policial. A interação foi tamanha que o aplicativo saiu do ar. 

Exemplo dado é exemplo seguido

Na Coreia, o papel dos idols vai além de cantar e dançar coreografias que parecem impossíveis: eles são um exemplo de como as pessoas deve se comportar em sociedade. Não é sem motivo que romances, escândalos com drogas ou má conduta de qualquer tipo é motivo para expulsão de integrantes de grupos e agências por toda Coreia. Deixando de lado a questão da pressão social, esses artistas acabam se tornando referências de como se portar em comunidade e acabam recebendo um carinho imenso dos fãs. 

Há 20 anos, no entanto, começou-se um movimento de pedir que os fãs não dedicassem esse carinho apenas a eles, mas que o devolvessem a sociedade de alguma forma. Foi ali que começou o que hoje é comum para essas comunidades: o engajamento em causas sociais. 

O próprio BTS, aliás, se mostrou solidário a causa Black Lives Matter, e doou U$ 1 milhão para movimento, seguindo de perto por um dos seus grupos de fãs nos EUA, chamado "One in an Army", que arrecadou mais US$ 1 milhão para doar ao BLM. 

Fãs do grupo veterano Super Junior ficaram conhecidas por arrecadarem doações de alimentos para o Exército da Salvação. Já fãs de Block B se uniram para conseguir fundos para a construção de um poço de água no Camboja, segundo a CNN. 

No Brasil, o poder das fãs de K-Pop também aparece de outra maneira. Primeiro, esses grupos se uniram recentemente contra um deputado bolsonarista que pediu, pelo Twitter, denúncias de pessoas que se autodenominavam “antifascistas” pela sua base de apoio. O resultado? Uma caixa de entrada repleta de e-mails com fotos de ídolos coreanos que virou notícia em todo país.

De outro lado, temos o projeto B-Armys Acadêmicas. Ele tem como objetivo conectar estudantes universitários que estejam fazendo projetos de pesquisa acadêmica que tenham o BTS ou o k-pop como tema central. Oficialmente, já conta com 45 pesquisadores de todo o Brasil, mas cresce a cada dia. 

Esse trabalho é, claro, não só uma forma de devolver o carinho que recebem dos idols, como também uma maneira de promovê-los. E como o k-pop tem o costume de criar grupos de fãs tão engajados, é o mínimo esperar que isso gere uma nova forma de ativismo social, que vai muito além da internet. 

O mais impressionante é que, ainda que existam grupos de fãs que se unem especificamente para organizar ações sociais, muitas dessas ações acontecem de forma orgânica e espontânea - são pessoas conversando entre si no Twitter que chegam a um acordo e a informação viraliza. 

Considerando que, nos Estados Unidos, boa parte dessa base de fãs são pessoas não-brancas e membros da comunidade LGBTQ+, esse engajamento todo e a oposição ao governo atual faz total sentido.

Por isso mesmo, mais impressionante do que creditar um movimento tão forte a um grupo específico é ver como a juventude atual encontrou formas de usar ferramentas sociais consideradas como entretenimento para mostrarem que não vão tolerar mentalidades antigas ou ideias extremistas.    

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