‘Judas’ em Portugal, Paulo Sousa tenta superar sombra de Jesus no Flamengo

Paulo Sousa durante clássico contra o Fluminense (Foto: Wagner Meier/Getty Images)
Paulo Sousa durante clássico contra o Fluminense (Foto: Wagner Meier/Getty Images)

LISBOA - A capa do jornal esportivo A Bola, o mais tradicional de Portugal, estampava em 1993: “o ‘Calcio’ pode esperar. Paulo Sousa no Sporting. Já enviou o pedido de rescisão para o Benfica”.

Quase 30 anos se passaram desde então, mas aquela janela de transferências ficaria marcada para sempre entre os portugueses e seria apelidada de “verão quente”. Paulo Sousa, em especial, ainda sente os efeitos dela até hoje, fruto de sua decisão de rescindir o seu contrato com o Benfica, então em crise, por causa de salários atrasados e assinar com o rival Sporting.

Em sua apresentação em Alvalade, admitiu ser torcedor sportinguista desde a infância e disse que precisava pensar no seu futuro.

Jamais foi perdoado pelos torcedores do Benfica.

Até hoje, o ex-volante de 51 anos é tratado pela maior torcida de Portugal como “Judas” e considerado persona non grata no estádio da Luz. Por esse motivo, poucos ficaram surpreendidos no país com a decisão de Sousa de trocar a seleção polonesa que disputa a repescagem para a Copa do Mundo por um Flamengo em reconstrução no fim de dezembro.

No Ninho do Urubu, o bicampeão da Champions League como jogador da Juventus e do Borussia Dortmund tem tido um começo de ciclo agitado.

Por um lado, é elogiado por sua filosofia de trabalho inovadora e pelas mudanças que tem promovido, mas, por outro, contestado por uma parcela reduzida da torcida, que se apressou para vaiá-lo logo em seu terceiro jogo oficial pelo rubro-negro.

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O coro de “burro”, no entanto, não deverá ser suficiente para assustar um treinador de personalidade forte, poucas palavras e que enfrenta resistência muito maior do que essa em seu país.

O mesmo pode se dizer da sombra do compatriota Jorge Jesus, de passagem marcante pelo Flamengo e que se encontra desempregado após negociar um possível retorno para o Rio de Janeiro. Em comum entre os dois, contudo, somente a imagem negativa perante a torcida do Benfica.

“Quando era mais novo, Paulo Sousa foi o responsável logo cedo por me mostrar uma realidade do futebol que me acompanha até hoje: nada de reverenciar atletas. Somente o Benfica. Jogadores vêm e vão. Quem fica é o clube. Ele é o maior Judas da história benfiquista”, afirma Filipe Marques, uma das principais vozes da equipe entre seus torcedores.

“Assim como Jesus, não possui lugar em nossa história”, completa.

Depois de trocar o Benfica pelo Sporting em 1993, Sousa se transferiu para a Juventus na temporada seguinte e nunca mais voltou a pisar em um clube português.

Como jogador e membro da famosa geração de ouro que ganhou os Mundiais Sub-20 de 1989 e 1991, sempre se mostrou competitivo, chegou a apostar relógios rolex no vestiário do Dortmund para motivar colegas, mas viu sua carreira limitada pelas lesões recorrentes.

Pouco depois de se aposentar, virou, então, treinador, atingindo o seu ponto máximo em 2015, quando viu os dois times que comandou naquele ano, Basel e Fiorentina, marcarem 97 gols ao todo.

É um número que costuma sempre repetir para ilustrar o estilo de futebol que persegue em seus desafios.

E, não tem a mínima dúvida, uma cifra que, se alcançada agora no Flamengo, poderá garantir troféus e também um lugar entre os grandes técnicos da história rubro-negra. Para isso, no entanto, precisará contar com uma dose de paciência maior do que tem sido vista.