Jovens negros e das periferias formados em cursinhos populares dão aulas a outros jovens

Alma Preta
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Eles conseguiram entrar na universidade com a ajuda de iniciativas preparatórias populares e retornaram aos cursos para coordenar e formar outros alunos. Foto: Acervo Pessoal
Eles conseguiram entrar na universidade com a ajuda de iniciativas preparatórias populares e retornaram aos cursos para coordenar e formar outros alunos. Foto: Acervo Pessoal

Texto: Guilherme Soares Dias Edição: Nataly Simões

A dificuldade de ingresso nas universidades brasileiras por jovens negros e periféricos é o mote de cursinhos populares que formam esse público para entrar no ensino superior. Jovens que venceram essa etapa e acreditam no potencial de transformação da educação voltam para os cursos onde se formaram para dar aulas. É o que ocorre em cursinhos populares como UneAfro, Curso Popular Base, Educafro, Projeto Kali, entre outros.

O educador Wellington Lopes, coordenador do Núcleo XI de Agosto e membro do Conselho Geral da UneAfro (CGU), foi aluno do cursinho em 2014 e passou a coordenar o núcleo em 2019. Para ele, a educação funciona como uma ferramenta de descoberta sobre o mundo.

A UneAfro Brasil é uma rede de núcleos de educação popular presente em 35 periferias. “A educação ocupa um papel prático da compreensão do papel histórico do povo negro e das periferias na construção do Brasil como Estado nação. Há um papel civil que nos localiza na história e nos empurra para luta por democracia e direitos civis e humanos para pessoas pretas e periféricas que estão protagonizando de formas locais essa rede”, defende Lopes. O núcleo XI de Agosto foi fundado em 2000.

No cursinho, o professor dá aulas de sociologia, geografia humana e metodologia científica. O educador lembra que viu amigos morrerem e o irmão ser preso enquanto era aluno em 2014. “Entendi que entrar na universidade e devolver minha formação em forma de trabalho comunitário seria atuar para transformar localmente o mundo que eu queria viver”, conta.

Com a pandemia, a UneAfro também atua no mapeamento de famílias negras e periféricas que sofrem os impactos da crise sanitária. A partir dos dados, a entidade distribui alimentos e, de forma preventiva, monitora os casos de Covid-19.

Danilo Vitoriano, de 22 anos, é educador popular do Curso Popular Base, mora em Suzano, na região metropolitana de São Paulo, e sempre estudou em escola pública, onde era alvo de bullying, via professores serem ofendidos e presenciava o uso de drogas em sala de aula. O jovem professor relata ter crescido em uma família machista e conservadora, o que o fez ser uma criança e um adolescente quieto.

Ele diz que não era um aluno exemplar e ao prestar vestibulinho para cursos técnicos e falhar passou a ideia de ser incompetente. Nessa fase, procurou emprego, mas não conseguiu trabalho, foi quando resolveu dar uma segunda chance e buscou um cursinho vestibular. Ele foi o primeiro da família da mãe a ingressar na universidade.

Fez um primeiro cursinho por seis meses, onde teve bons aprendizados, mas não conseguiu ingressar no vestibular. Procurou um cursinho próximo de casa e encontrou o CPU Tetris em Suzano, onde lembra ter conhecido bons professores que o orientaram a escolher o curso de Biologia. “A equipe do Tetris nos levou a uma feira de profissões da USP, onde fiquei encantado com as carreiras e amei de todo coração o stand da Biologia”, recorda.

Enquanto estava no Tetris, conseguiu uma bolsa em bacharelado e licenciatura na UMC, e no terceiro semestre fui o primeiro professor a ser convidado a dar aulas de Biologia no Cursinho Base em Suzano, que existe há quatro anos. “Encontro no cursinho uma realização pessoal que não consigo medir, lá ajudo alunos que enfrentaram problemas como os meus e a gratidão de ajudar eles a conquistarem uma vaga na tão sonhada universidade não tem preço. Pretendo continuar com esse trabalho social que tanto me deixa realizado e conseguir passar essa semente da esperança”, reforça.

‘Nossa missão é formar os jovens’

Outro jovem professor de cursinhos populares é Samuel Dias, 20 anos, voluntário da Educafro, e aluno de Gestão Pública. Ele dá aulas no cursinho popular que tem como foco capacitar estudantes negros e de baixa renda para entrar nas universidades. A instituição abriu cursos preparatórios para o ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) e o Medafro para preparar estudantes para o curso de Medicina, que formou cerca de 50 alunos.

O educador deu aulas de cidadania nas quais trabalhava a consciência racial dos alunos. “As aulas abordavam direitos humanos, em que debatíamos as questões que nos atravessam”, explica. Além das aulas, os estudantes da Educafro, que é liderada por Frei Davi, recebiam bolsa auxílio para custear o transporte e alimentação, garantindo a presença nas aulas.

Paloma Oliveira, de 21 anos, apesar de também jovem, é diretora de Gestão de Pessoas e professora de movimentos sociais e inteligência emocional do Projeto Kali. Ela conta que foi aluna do projeto em 2015 e 2016 e que isso foi um diferencial em sua vida. “Assumi o cargo de diretora em 2019 e dou aula porque nossa missão é formar os jovens. São disciplinas feitas em co-participação com os jovens”, reitera.

O cursinho é mais focado na área de exatas e as aulas de inteligência emocional complementam as disciplinas. O Kali foi criado em 2014 por um grupo de estudantes do curso de engenharia da Poli-USP, sendo dois deles da cidade de Caieiras, na Grande São Paulo, onde o projeto atua. “Surgiu como uma proposta de reforço educacional nas matérias de exatas, mas tem se expandido de lá pra cá”, conta Paloma, informando que nos últimos sete anos foram atendidos mais de 700 estudantes adolescentes.