Antes agitado, Jorge Jesus vira personagem "tristonho" e "apático" em vida pós-Fla

Marcus Alves
·4 minuto de leitura
Jorge Jesus of SL Benfica during the Portuguese Cup match between Club Football Estrela da Amadora and SL Benfica at Estadio Jose Gomes on January 12, 2021 in Amadora, Portugal. (Photo by Paulo Nascimento/NurPhoto via Getty Images)
Jesus durante jogo do Benfica na Copa de Portugal (Paulo Nascimento/NurPhoto via Getty Images)

LISBOA (PORTUGAL) - Ainda corria o primeiro tempo na goleada de 4 a 0 do Benfica sobre o Estrela da Amadora, na última terça-feira, pela Taça de Portugal, quando Jorge Jesus virou para Pedrinho, ex-Corinthians, e soltou: “Você é um passarinho? Está sempre no chão”. Com o estádio vazio, o diálogo era facilmente ouvido por todos. O técnico de 66 anos não ficou nisso. Pouco depois, deu uma bronca na revelação Gonçalo Ramos por não conseguir segurar a bola na frente. “As chuteiras estão muito pesadas, garoto?”, perguntou.

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Foi, sem dúvida, um Jesus mais agitado na beira do campo.

Acima de tudo, um Jesus como há muito não se via após deixar o Flamengo e retornar a Portugal para assumir mais uma vez o Benfica, em agosto.

Em sua segunda passagem pelo estádio da Luz, o que se tem acompanhado é um treinador descrito, de forma recorrente, como “tristonho” e “nostálgico”, que insiste em falar sobre o Brasileirão a cada entrevista e que mesmo seus principais rivais enxergam como “apático”.

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Praticamente seis meses após deixar o Fla, a obsessão por relembrar suas façanhas no Rio de Janeiro provoca, inclusive, situações desconcertantes. Ao fim de coletiva de imprensa recente, em que foi indagado sobre por que seguia falando tanto do Brasil, coube a um assessor do Benfica tirar satisfações com o repórter que fez a questão, causando ainda mais rebuliço no ambiente, segundo o jornal Record.

Em outra altura da carreira, teria sido o próprio Jesus a tomar iniciativa de o fazê-lo. Ele prega, no entanto, que mudou.

“Não sou o mesmo de há dez anos”, repete.

A postura menos combativa gera preocupação, sobretudo, em um momento em que o Benfica não chega nem perto de “jogar o triplo”, como ele prometeu em sua volta, não empolga a ninguém e, mesmo após gastar mais de 100 milhões de euros (R$ 621 milhões) em reforços, ainda derrapa nos resultados. O clássico com o Porto nesta sexta-feira, pela Liga Portuguesa, é tratado como fundamental para o seu futuro. Em caso de tropeço fora de casa, a pressão sobre o Mister atingirá níveis quase insuportáveis.

É um cenário que soaria inimaginável pouco tempo atrás, quando o Benfica foi buscá-lo no Rio, mas que não surpreende completamente diante de sua falta de vibração atual.

“Jesus é aquele amigo que encontramos no supermercado e que não anda com boa cara, meio amarelado. Será fígado? Divórcio? Damos uma palmada nas costas dele e a reação é quase invertebrada. Nota-se uma falta de apetite pela vida, uma rendição voluptuosa à melancolia. Assim está Jesus. Precisando de umas ampolas, umas vitaminas, uma injeção de vitalidade”, escreveu recentemente o colunista Bruno Vieira Amaral no semanário Expresso.

“Nas coletivas, a fanfarronice desapareceu. No seu lugar, uns suspiros saudosos, uns lamentos lúgubres: no Brasil tinha 70 mil torcedores a aplaudi-lo, no Brasil aquilo é que é futebol, no Brasil é que sabem dar cabo do Cóvi, Brasil, Brasil, Brasil, ai, ai, meu Brasil, Brasileiro, meu rico Arão, meu querido Gerson, meu santo Gabigol. Imagino Jesus no vestiário, sentado ao lado de Cebolinha e Pedrinho e pedindo que eles falem do cheiro da goiaba e do sabor da pitanga, do quindim e do açaí, enquanto as lágrimas lhe escorrem pelo rosto”, completou.

Personagem caricato, com um alcance local muitas vezes maior que o do compatriota José Mourinho, Jesus nunca escondeu a sua paixão pelo Brasil. Antes da ida para o Flamengo, carregava a fama entre os portugueses de passar madrugadas e mais madrugadas vendo jogos do país no canal PFC. Não havia melhor embaixador, inclusive, para o serviço por assinatura.

Essa aura folclórica se perdeu, contudo.

Na falta de resultados, Jesus prefere se calar cada vez mais e fugir das polêmicas que lhe parecem inerentes.

“Hoje já tenho de falar de maneira diferente. Quando cheguei (de volta) a Portugal, vinha com a ideia de falar sem segredos, mas, em Portugal, não se pode falar”, decretou nesta semana.

Com o Porto pela frente nesta sexta, o Braga nas semifinais da Taça da Liga na próxima semana e o Sporting no fim do mês, Jesus terá de fazer, então, a sua equipe falar por ele. É a sua única chance de encontrar a paz.

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