O bigode realmente faz diferença na natação?

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19th April 1978:  Mark Spitz who won seven gold medals for swimming in the 1972 Munich Olympic Games.  (Photo by Graham Morris/Evening Standard/Getty Images)
Com seu bigode característico, Spitz venceu sete medalhas de ouro nos Jogos de 1972 (Graham Morris/Evening Standard/Getty Images)

Sete eventos, sete medalhas de ouro, sete recordes mundiais. Este foi o feito histórico de Mark Spitz nos Jogos de Munique, em 1972 (batido apenas 36 anos antes dos Jogos de Pequim, quando Michael Phelps tornou-se outra lenda da piscina). Embora a força de suas pernas e sua técnica excepcional fossem suficientes para torná-lo uma lenda da natação nos Jogos Olímpicos, havia outro fator que o diferenciava: seu bigode.

Um afloramento único entre o corpo bem barbeado e os calções em miniatura que usou em todos os eventos de Munique, começando com a final dos 200 m nado borboleta. O resultado: um tempo excepcional para a época (2’00’’70), que resultou em sua primeira medalha de ouro. Seguiriam-se mais seis, com o mesmo número de recordes mundiais. Isso foi o suficiente para fazer o técnico da equipe de natação russa levar muito a sério a explicação que recebeu do nadador californiano na véspera do início da competição. Examinado por todos os treinadores durante seu treinamento, Mark Spitz ficou surpreso quando um deles perguntou: “Vejo que você tem bigode. Você vai raspá-lo? Não tem medo de que isso o atrapalhe?”

A fórmula de Spitz

O americano deu ao chefe da delegação russa algo para refletir, como ele explicou décadas depois no site do Comitê Olímpico Internacional: “Não sei o que me levou a dizer isso, mas alisei meu bigode e disse: 'O bigode desvia a água da minha boca, o que me permite nadar em maior profundidade e, portanto, com mais leveza, durante a disputa. E tenho menos probabilidade de engolir água. Isso me permite nadar mais rápido'”. No ano seguinte, todos os membros da equipe masculina russa usavam bigodes. Uma lenda nasceu.

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Cinquenta anos depois, no entanto, você não vê nenhum nadador ostentando os míticos bigodes ao entrar na piscina. A fórmula do Spitz saiu de moda, como os anos 70, as calças de cintura baixa e os tampos de fórmica? Será que as virtudes hidrodinâmicas do bigode foram exageradas por seu brilhante sucesso? Para descobrir, vamos perguntar aos especialistas. O professor Ludovic Seifert trabalha na Faculdade de Ciências do Esporte da Universidade de Rouen e coordena o ambicioso projeto NePTUNE, cujo objetivo é melhorar o desempenho dos nadadores franceses para os Jogos Olímpicos de Paris, em 2024. Podemos afirmar que ele tem um excelente conhecimento de hidrodinâmica, o que, em termos simples, significa agilizar o fluxo de água sobre um corpo. “É o que atenua as várias fontes de resistência ao avanço na água, nomeadamente resistência ao arrasto, às ondas e ao fluxo”, explica o pesquisador.

Tubarões, golfinhos e Lenny Kravitz

Resta saber como o bigode se encaixa nessa luta física contra a água. Serve de freio ou acelerador? Para o professor Seifert, seu papel é certamente marginal: “Para ser honesto, não acho que o bigode tenha um impacto significativo, seja positivo ou negativo”, afirma ele. “A menos que o cabelo seja extremamente proeminente, é claro. Por exemplo, se você tivesse pedido a Lenny Kravitz para nadar em seu auge, seu cabelo quase certamente teria gerado arrasto significativo e resistência na água. Não é por acaso que todos os nadadores usam touca ou têm cabelo curto. No caso do bigode, estamos falando de pequenas porcentagens. Um especialista em mecânica de fluidos poderia explicar isso melhor que eu”. É uma coisa boa termos um especialista esperando nos bastidores.

Rémi Carmigniani também está a caminho do NePTUNE. Imbatível quando se trata da destreza dos nadadores olímpicos, uma fonte inesgotável de conhecimento sobre o número de Reynolds (comparando os efeitos viscosos aos efeitos inerciais, como é amplamente conhecido) e o número de Froude (que compara a velocidade das ondas à velocidade do corpo), o pesquisador confia em conjecturas ao considerar a influência exercida pelo bigode. “Não sei se alguém já o estudou, mas tenho tendência a pensar que o efeito é negativo ou zero. Se tivesse um efeito positivo, todo nadador teria um”, afirma, antes de minimizar sua importância no caso de Mark Spitz. “Ele era um nadador de velocidade, então eu não acho que ele ganhou suas corridas com a cabeça. Se você observar, por exemplo, como evoluíram as velocidades médias dos dez melhores nadadores de estilo livre nos 100 m do mundo, verá que a introdução dos óculos em 1976 não teve um impacto significativo”.

Ouvimos a mesma história em outro laboratório onde Mathias Samson, um professor pesquisador em biomecânica na Universidade de Poitiers, está envolvido em um grande estudo relacionado à natação. “A piscina é um meio de viscosidade razoavelmente baixa, onde as forças de atrito são mais baixas, pesando apenas alguns por cento. Portanto, se o bigode tivesse alguma função, seria mínima”, afirma o pesquisador, concordando com seus colegas. No entanto, ele faz uma (pequena) ressalva: “O bigode pode ter um leve impacto no refluxo quando vai do nariz à boca. No caso do nado borboleta em particular, ao emergir da água, o bigode de Mark Spitz talvez pudesse oferecer alguma forma de proteção acima da superfície ao inspirar. Por que não? Se ele disse isso, então talvez seja verdade”.

Sua cabeça... e suas pernas

Sem surpresa, Mathias Samson sente que as façanhas do nadador americano em 1972 foram o início de uma nova era. “O Spitz marcou uma virada na história da natação. Nas décadas de 1960 e 1970, o esporte evoluiu significativamente, principalmente com o advento da fisiologia do esporte. Spitz foi um pioneiro da era profissional. Ele treinou duro e trabalhou sua força todos os dias, em uma época em que nem todos os nadadores faziam musculação com tanta frequência. Não é nenhuma surpresa que ele tenha sido o primeiro a chegar em menos de 52 segundos nos 100 m livre. Antes dos Jogos Olímpicos de 1968, os melhores tempos eram em torno de 53 segundos. Spitz tirou mais de um segundo desse tempo em uma única Olimpíada”. Com bigode ou não, isso já diz tudo.

No entanto, Rémi Carmigniani recusa-se a encarar a questão do cabelo com leviandade. “O cabelo é importante na natação, mas não é fácil determinar seu impacto. Podemos dividi-lo em uma simples questão física: o que é melhor, suave ou áspero? Na natureza, as estratégias diferem, mas às vezes dão o mesmo resultado. Por exemplo, a pele áspera dos tubarões tem propriedades hidrodinâmicas, mas o mesmo acontece com a pele lisa e oleosa dos golfinhos. Essa dicotomia pode ser encontrada em certos esportes como o remo, onde existem diferentes escolas de pensamento. Alguns competidores preferem ter o barco mais liso possível, enquanto outros colocam fibra de vidro no casco antes das corridas para adicionar fricção. Então, quem está certo? A resposta não é clara”. O pesquisador, que também é nadador, fez sua escolha: “Pessoalmente, faço a barba porque sinto que deslizo melhor. Mas talvez isso esteja apenas na minha cabeça”.

É possível desafiar essa ideia se ampliarmos nosso foco para incluir outros traços. “Talvez algumas pessoas possam se acostumar com mais pelos. Como o nado peito, em que você precisa ‘impulsionar-se’ na água com as pernas para fazer o movimento da tesoura corretamente. Nesse caso, ser muito elegante pode ser contraproducente”. Pensando bem, o pesquisador passa para uma nova consideração: “Poderíamos ir tão longe a ponto de perguntar se existe uma maneira ideal de se barbear”. Uma questão delicada que, no caso do bigode, exige mais conhecimentos especializados. E aqui, nos voltamos para Kevin Vela.

Faça como Dalí

O nome pode não significar nada para você, mas, quando se trata de pelos faciais, este chef confeiteiro de 28 anos alcançou algo próximo da perfeição. Ele é o campeão francês de 2019 na categoria “Bigode inglês” e ficou em 7º lugar no último Campeonato Mundial de Barba e Bigode na Bélgica. Este foi o fruto de quatro anos de muito trabalho. “O segredo é a paciência”, explica o nativo de Perpignan. Embora não tenha certeza dos benefícios de um bigode no final das contas, Kevin Vela tem fortes opiniões sobre como manter a fera: “Eu escovo, aparo e aplico óleos e bálsamos 100% naturais. O truque é mimá-lo o máximo possível e nunca usar secador de cabelo ou produtos ásperos, pois o cabelo é frágil e pode quebrar ou cair”. O resultado deste cuidado meticuloso é um bigode que faria José Bové parecer um pré-adolescente e um grande trunfo no que diz respeito ao ambiente social.

“Usar bigode é uma forma de afirmar sua identidade”, diz nosso campeão do bigode inglês. Você nunca passa despercebido, chama a atenção das pessoas e, no fim das contas, é uma verdadeira vantagem em termos de socialização. De certa forma, o bigode é uma forma de se abrir para os outros”. Além disso, é um ótimo acessório de moda: “Você pode combinar com seu humor ou roupa. Posso decidir usar no estilo Dalí, estilo húngaro ou estilo imperial”, conta o especialista. Aos nadadores, fica a dica: sejam amadores ou profissionais, se você não consegue vencer a competição de nado borboleta, um belo bigode também é uma ótima maneira de se destacar da multidão. E isso também vale seu peso em ouro.

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