Jogos do Irã na Copa são marcados por protestos devido às tensões que assolam o país


A estreia do Irã na Copa do Mundo de 2022 não ficou marcada apenas pela goleada por 6 a 2 que a seleção sofreu para a Inglaterra. Houve sucessivos protestos tanto no campo quanto nas arquibancadas do Estádio Khalifa. O grupo do Irã desembarcou no Qatar com os efeitos de um momento turbulento, convivendo com ecos de um regime teocrático que está no poder há 40 anos.

Pouco antes do início da partida, uma sequência de sons e imagens (entre elas, vaias) chamaram atenção do mundo. Durante a execução do hino nacional, os atletas iranianos se mantiveram em silêncio. Nas arquibancadas, bandeiras e cartazes em favor da liberdade feminina no país foram levantadas pelos milhares de iranianos presentes no estádio. Parte da torcida vaiou o próprio hino do Irã.

Inglaterra x Irã - Protestos
Inglaterra x Irã - Protestos

Jogadores do Irã não cantaram o hino (AFP)

O silêncio do time durante o hino foi noticiado abertamente pela imprensa reformista iraniana, que definiu a atuação do time no primeiro tempo como uma humilhação. A agência de notícias pró-governo Fars não fez menção ao protesto em uma extensa cobertura do jogo.

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O ESTOPIM

O Irã viu uma grave tensão política desencadear em agosto, quando Mahsa Amini foi morta após ter sido presa. A jovem não havia coberto a cabeça com o véu como mandam as leis no país para as mulheres. O episódio gerou intensos protestos dentro do país e a comunidade do futebol iraniano reagiu fortemente. O uso das baias no país é obrigatório desde o estabelecimento do regime teocrático que tornou o Irã uma república islâmica na década de 1980.

Os levantes em todo o país contaram também com uma forte repressão das forças policiais do governo iraniano, deixando milhares de feridos. Desde 1981, nenhuma mulher tem a permissão para assistir a um jogo de futebol, mesmo que esteja acompanhada de um homem. Em 2019, o procurador geral do país Mohamed Montezeri disse que se uma mulher assiste a homens com as pernas de fora praticando esportes estaria sendo guiada ao pecado.

A COMUNIDADE ESPORTIVA E AS TENSÕES
Astro do futebol iraniano, Sardar Azmoun se manifestou por diversas vezes nas redes sociais com mensagens contra o governo. Ídolos do passado como Ali Karimi, que jogou no Bayern de Munique, também demonstrou apoio à causa feminina no país.

Principal jogador do futebol iraniano nos anos 2000, o ex-meia é um dos que protestam contra a proibição de mulheres frequentarem estádios. Após a morte de uma torcedora que foi disfarçada para ver uma partida de seu time de coração, ele pediu para que o público boicotasse os estádios iranianos. O capitão da seleção na época também se pronunciou dizendo que o banimento se dava por ideias ultrapassadas e vergonhosas.

O protesto por parte de atletas e torcedores também foi além da causa feminina. Recentemente, na cidade curda de Mahabad, que foi invadida pelo exército do país, 11 pessoas morreram, segundo relatos. Soldados chegaram em veículos blindados e atiraram em prédios no que foi descrito como uma forma de lei marcial.

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O treinador Carlos Queiroz disse em uma coletiva de imprensa que os atletas iranianos são livres para se manifestar, apesar dos riscos envolvendo o relacionamento dos jogadores com a federação.

Em entrevista antes do jogo, Ehsan Hajsafi, o capitão iraniano, abriu suas falas dizendo “em nome do deus do arco-íris”, frase proferida por um menino Kian Pirfalk de dez anos, morto por forças de segurança iranianas.

No fim de semana, o chefe da federação de boxe, Hossein Souri, e dois boxeadores da equipe juvenil não conseguiram retornar ao Irã com sua equipe. Com isto, buscaram asilo político. O fato levou o jornal conservador Kayhan a exigir que as autoridades tomassem mais cuidado ao examinar altos funcionários em federações desportivas.

Nos últimos tempos, o governo do Irã tem liberado a presença de mulheres em alguns jogos, principalmente, da seleção iraniana.. A FIFA também promete contribuir para ajudar nesta questão, mas a aberturas casuais são consideradas, na maioria das vezes, como uma demonstração de estabilidade às autoridades globais.