Jogos dos Povos Indígenas são interrompidos pela pandemia de Covid-19

Gabriel Leão
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Imagem dos Jogos Mundiais Indígenas de 2015, em Palmas. Foto: Christophe Simon/AFP via Getty Images
Imagem dos Jogos Mundiais Indígenas de 2015, em Palmas. Foto: Christophe Simon/AFP via Getty Images

Iniciados em 1996 e organizados pelo Comitê Intertribal – Memória e Ciência Indígena (ITC), com suporte do Ministério dos Esportes, hoje parte do Ministério da Cidadania, os Jogos dos Povos Indígenas (JPI) possuem como lema: “o importante não é competir, e sim, celebrar”; portanto unificam povos indígenas de diversas partes do Brasil, mas também atraem povos de outros países para os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas (JMPI). Entretanto, diferente de Tóquio 2020, a pandemia de Covid-19 causou o cancelamento das edições de 2020 e 2021.

Marcos Terena, Presidente do ITC e Coordenador Internacional dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas recorda em relato ao Yahoo Brasil o “nascimento” do evento, quando os líderes Carlos Terena, Jeremias Xavante, Tabata Kuikuro, Iuraru Karajá e ele, todos atletas, ainda organizavam atividades esportivas junto a sociedade não indígena de Brasília, a ideia foi se desenvolvendo com a “possibilidade de reunir vários povos com suas formas de flechas, bordunas e corridas de tora para apresentar a força natural do índio brasileiro”.

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Marcos Terena discursa no Fórum Social dos JMPI 2015. Foto: Divulgação
Marcos Terena discursa no Fórum Social dos JMPI 2015. Foto: Divulgação

Carlos Terena redigiu o documento com auxílio dos demais e após 16 anos conseguiram um encontro com o então Ministro dos Esportes Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, e o Secretário de Esportes de Goiás Ricardo Yano. Em outubro daquele ano se deu a primeira edição, a qual foi iniciada com acendimento do fogo sagrado pelo atrito de pedras usando a técnica do povo Krahô.

Em entrevista por WhatsApp ao Yahoo Brasil, o competidor Mutuá Mehinaku do povoado Kuikuro define que os Jogos dos Povos Indígenas “tem grande relevância porque este encontro dá a oportunidade de mostrarmos a riqueza do nosso conhecimento e da nossa cultura para a sociedade não indígena, e também apresentar nossa cultura para outros povos indígenas que desconhecem a nossa realidade.”

A sociedade brasileira em geral trata povos indígenas por estereótipos como se fossem um grupo homogêneo ignorando sua diversidade. O país abriga 850.000 povos indígenas distribuídos entre 300 povoados vivendo em terras que ocupam 13% do território nacional, sendo que 180 desses povos vivem na floresta amazônica. Mutuá Mehinaku em suas pesquisas acadêmicas aponta que durante a chegada dos colonizadores existiam 1.300 línguas, hoje apenas aproximadamente 180.

Os JPI já conseguiram reunir em uma oportunidade quase 110 povos indígenas, mas geralmente têm média de mil participantes divididos em 40 grupos étnicos. Após 12 edições em várias localidades brasileiras, em 2013 foram convidados 16 países, dentre os quais Austrália, Nova Zelândia, EUA e Canadá, e então foram lançados os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas.

Mutuá Mehinaku é um deles que além de lutador de huka-huka, tradicional arte marcial indígena que lembra o wrestling e o judô, também é youtuber, acadêmico e professor de Educação Básica para as crianças de sua aldeia, e vê no evento uma maneira de chamar atenção do mundo por meio da mídia nacional e internacional enfocando na “nossa luta de sobrevivência dentro do país”, além de afirmar a identidade política e reconhecer seus direitos humanos.

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A porta-voz da Survival International no Brasil, Priscilla Oliveira, corrobora as posições de Mutuá Mehinaku: “Os Jogos dos Povos Indígenas representam um espaço de construção do ser indígena. É um momento de visibilidade e de reconhecimento da diversidade cultural e de fortalecimento da união dos povos. Isso é especialmente importante no contexto atual de intensos ataques e ameaças contra os povos indígenas do Brasil.”

O povoado Kuikuro é formado por aproximadamente 900 pessoas divididas em oito aldeias no alto Xingu e é um dos que melhor responderam ao vírus da Covid-19, e, devido a sua rápida e informada ação de prevenção não viu a morte de nenhum dos seus, tendo apenas 160 infectados. O Brasil é o segundo no ranking mundial em mortes e infecções por Covid-19 segundo estudo da universidade americana Johns Hopkins.

Os Kuikuro obtiveram boa resposta ao vírus, utilizando ciência e financiamento coletivo, inclusive lockdown, entretanto de forma geral indígenas estão entre os mais vulneráveis sendo que 45 mil foram infectados e 622 morreram entre seus quadros conforme dados oficiais da Sesai (Secretaria de Saúde Indígena), porém a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) aponta que os números chegam a 1.022 mortes e mais de 51 mil infectados. O exterior tem levado em conta os dados providos por um consórcio de veículos de imprensa ao invés dos fornecidos pelo governo federal.

Além do inimigo invisível, indígenas ainda lidam com agentes ilegais buscando usurpar suas terras e direitos como madeireiros e garimpeiros, e também atividades de empresas nacionais e multinacionais atuando com sanções legais que já vinham antes do atual governo.

Marcos Terena aponta que a pandemia matou “muitos atletas e dirigentes dos JPI e membros do ITC. Isto foi muito triste, pois foram jovens e sábios que partiram e nada pudemos fazer”. O mesmo ressalta que apenas garantir transporte e alimentação aos atletas e comitivas não é suficiente se não há postos médicos no local para atender algum incidente. Para aprimorar seu trabalho, o ITC está formatando um novo modelo de participação que traz o básico de qualquer evento esportivo contando com atestados médicos e seguros de vida, o que já é vigente nos JMPI.

“Muita gente, inclusive alguns indígenas mais jovens, pensam que basta tocar um apito e já se realiza os Jogos dos Povos Indígenas, mas não é fácil você organizar esse trabalho, pois acima de tudo é preciso respeitar a realidade e os sonhos de cada povo, seus líderes e suas forças culturais e espirituais, e essa parte ninguém entende...”, desabafa Marcos Terena. Devido à pandemia os indígenas consentiram em não realizar a competição e a Survival International está de acordo com tal decisão.

Oliveira aponta que a vacinação de indígenas já está em andamento no Brasil, porém devido às constantes invasões de terra é precoce afirmar que já estão imunizados à Covid-19 e outras doenças infectocontagiosas.

Para se manterem ativos Mutuá Mehinaku conta que os atletas de seu povoado têm treinado dentro da própria comunidade, sem viajar, e “apesar da pandemia estamos fortes e continuamos praticando nossa atividade.”

A saúde do indígena já vinha sendo afetada antes da pandemia, segundo Marcos Terena, “pela chegada de grandes fazendas do agronegócio e as formas de produção” de seus alimentos. Porém, os indígenas seguem com suas culturas tradicionais de caçar, remar, nadar e se alimentar e trabalham também dentro dos códigos olímpicos: amizade, respeito, excelência, igualdade, inspiração, determinação e coragem.

“É importante destacar que a participação do governo federal, estadual e municipal são partes relevantes” no desenvolvimento destes eventos, acredita Marcos Terena que explica o processo realizado: “O Comitê Intertribal apresenta a demanda, o projeto é feito com uma equipe técnica e especializada indígena considerando os custos, os desenhos arquitetônicos, e outros aspectos, enquanto o governo como no caso do Ministério do Esporte, que já não existe mais, passa a centralizar as relações com os outros órgãos públicos federais, estaduais e municipais, mas não podem interferir nas relações indígenas e formatação do evento.”

O indígena brasileiro ao longo de sua história vivencia atritos e abusos por parte dos governantes, desde a chegada dos colonizadores com seus autos de fé, a chuva de napalm da ditadura militar sobre aldeias da Amazônia visando utilizar os terrenos para construir estradas, a instalação da usina hidrelétrica de Belo Monte que deslocou muitos povoados durante o governo Dilma e a onda de preconceito e exploração de suas reservas durante o governo Bolsonaro. Perguntado como é a relação do indígena com o governo, Marcos Terena é estoico: “Para nós como indígenas tem sido um fracasso em todos os sentidos.”

Legados que desafiam barreiras

Os Jogos dos Povos Indígenas e os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas ainda enfrentam barreiras na sociedade, e poucos atletas saem das aldeias para participar de competições profissionais. Oliveira destaca a arqueira Graziela Paulino dos Santos, 24, do povo Karapana, que atuou nos últimos Jogos Pan Americanos. Questionada sobre os principais obstáculos para eles, Oliveira responde: “Os atletas indígenas são tão capazes de competir como os não indígenas. Mas sem dúvida eles enfrentam inúmeros obstáculos, como por exemplo o racismo.”

Graziela dos Santos durante os treinos no Pan-americano de Lima, Peru. Foto: Reprodução/Funai
Graziela dos Santos durante os treinos no Pan-americano de Lima, Peru. Foto: Reprodução/Funai

O lutador Mutuá Mehinaku adiciona: “falta de estímulos, financiamento para atletas indígenas se tornarem profissionais e oportunidades para entrar como profissional nas modalidades ‘normais’”, ou seja, as disputas convencionais de esportes como canoagem, arco-e-flecha, lançamento de dardo, wrestling e outras ainda são um sonho distante.

Além das competições e fraternização, os Jogos servem para reuniões de caciques e outras lideranças, nos quais são efetuados debates abordando demarcação de terras indígenas, valorização e continuidade de práticas culturais e definição de como abordar o governo para que o mesmo “reconheça nossa cultura como patrimônio do Brasil, e para que financie a documentação e registros do nosso povo”, aponta Mutuá Mehinaku com um misto de saudosismo e melancolia em sua voz.

Entre as memórias mais tenras de Marcos Terena está “a experiência de encontrar no arco e flecha com os indígenas da Mongólia, descendentes de Genghis Khan, foi maravilhoso”. Mas destaca que não perderam para eles. Mutuá Mehinaku recorda do ritual de Kuarup, onde se celebra pessoas importantes, um festejo para os falecidos e seus legados.

Um legado que apesar de pouco reconhecido exerce muita influência na nação brasileira, como em São Paulo, com espaços públicos e cidades nomeadas com palavras da língua Guarani ou no tratamento de doenças usando recursos da natureza como a ayahuasca que vem sendo estudada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) para combater a depressão. Um legado marginalizado que ganha um pouco de reconhecimento por atividades como os Jogos dos Povos Indígenas.