Jogo 'agarrado'... 'Cera' dos goleiros entra em debate na reta final do Campeonato Brasileiro

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A ânsia das equipes por agarrarem pontos decisivos na reta final do Campeonato Brasileiro fez entrar em campo uma discussão controversa: o excesso de "cera" dos goleiros. O atacante Hulk, do Atlético-MG, ficou na bronca com a demora do goleiro Diego Alves no revés por 1 a 0 para o Flamengo. Outros goleiros também são alvos de críticas ao caírem em campo no decorrer de jogos e solicitarem atendimento médico. Neste contexto, sobram dúvidas em torno da conduta da arbitragem para evitar este gasto exagerado de tempo.

Ao LANCE!, o ex-árbitro Evandro Rogério Roman expõe que há um grande desafio para quem conduz o jogo.

- O árbitro não é médico. Não sabe exatamente se é uma "cera" do goleiro para retardar a partida, amarrar o jogo, ou se é uma contusão... Como o goleiro é o único jogador que tem de ser atendido em campo, a alternativa do árbitro é ser mais rigoroso com a equipe médica, não deixar que eles demorem para atender o goleiro que está caído - disse.

O ex-árbitro Alfredo Loebeling também aponta que os procedimentos da Comissão de Arbitragem deveriam mudar.

- Hoje, o goleiro cai e fica dois, três minutos lá, atrasando o jogo. O primeiro passo é perguntar ao goleiro que se queixar de dor: "você quer receber atendimento?". Caso ele peça, tem que cobrar uma agilidade do médico - e destacou:

- O árbitro não tem como julgar questão física de nenhum jogador. Por isso, a ética dos médicos dos clubes é muito importante. Eles não podem agir como torcedores. A sensação é de que hoje muitos estão exagerando - completou Loebeling.

Roman, que atualmente é deputado federal, vê com muita preocupação esta demora no atendimento.

- Era uma exceção atender os goleiros. Atualmente, são os que mais demoram em campo. A impressão é de que a orientação vem da própria comissão técnica de cada equipe - declarou.

'HÁ EXAGERO EM CAMPO', DIZEM EX-GOLEIROS

Everson - Atlético-MG
Everson - Atlético-MG

Everson, do Atlético-MG, também foi criticado por retardar partida (Divulgação/Atlético-MG)

A solicitação de atendimento médico durante a partida não chega a ser algo inédito entre quem está na meta dos clubes de futebol brasileiro. Ex-preparador de goleiros da Seleção Brasileira e de diversos clubes do país, Nielsen recorda.

- Desde os anos 1980, 1990, era um caminho que o goleiro usava após um choque ou uma dividida. A demora para cobrar o tiro de meta era outra alternativa outra muito utilizada. Esses artifícios eram feitos para quebrar o ritmo do adversário. Inclusive, os pedidos vinham às vezes da comissão técnica ou até dos próprios companheiros. Quando o time estava ganhando e era defendido, um defensor vinha e pedia "cai, cai, cai", aí o goleiro caía para receber atendimento médico no gramado. Não tinha como o árbitro dizer que era "cera" - afirmou Nielsen, que também foi goleiro e defendeu as metas do Fluminense, Flamengo e Seleção Brasileira.

No entanto, o preparador aponta que atualmente as coisas se acentuaram.

- Teve jogo no qual os goleiros dos dois times caíram com cãibras (risos)! Aí fica complicado, né?! Pelo que vejo, estão demorando demais para reiniciar as partidas quando um goleiro é atendido. Num futebol que é dinâmico, você segurar o ímpeto do adversário por um minuto pelo menos já é uma vantagem - disse o preparador que formou nomes como Taffarel e Zé Carlos.

Preparador de goleiros com passagens por Fluminense e Vasco, Acácio evidencia outras maneiras de "picotar" a partida que estão em voga.

- O goleiro tem seis segundos para repor a bola, mas a gente vê uma demora muito grande agora. Os árbitros não conseguem evitar isso. Além disso, muitos estão caindo sem que tenham sofrido qualquer tipo de contato - e alerta:

- isso faz parte do jogo, por mais que seja prejudicial. É válido, não condeno, é uma forma de ajudar sua equipe. Cabe à arbitragem ter a percepção - completou.

Campeão carioca de 1987 e 1988 e do Brasileiro de 1989 pelo Vasco, Acácio frisou.

- Dá para o árbitro ter sensibilidade de quando o goleiro sofreu um contato realmente e quando não houve nada no lance - enfatizou.

O técnico Jair Pereira lamenta o excesso de paralisações. Comandante campeão sul-americano e mundial com a Seleção Brasileira Sub-20 em 1983, ele vê isto como um empecilho para o atual futebol brasileiro se desenvolver.

- É verdade que sempre houve a malícia para segurar o jogo. Mas da forma como vem acontecendo atualmente é muito chato, atrapalha o andamento das partidas. A bola rola muito pouco, são 35, 40 minutos de jogo rolando - afirmou.

Treinador que tem conquistas da Copa do Brasil com o Flamengo, da Supercopa Libertadores no Cruzeiro, além de estaduais no Corinthians, Atlético-MG e Vasco, Jair Pereira critica outras atitudes vistas em campo.

- Toda hora que o goleiro faz uma grande defesa, ele cai e fica aquele mistério se vai ou não ter atendimento médico. Outra coisa que ficou comum é jogador falar com o árbitro. Perde-se muito tempo com reclamação de falta. Aí a bola não rola, vira um jogo "amarrado" - disse.

CAMINHOS PARA MINIMIZAR A 'CERA'?

Gaciba
Gaciba

Acréscimo ou advertência (verbal e, em seguida, cartão) são os caminhos orientados pela Comissão de Arbitragem, que é presidida por Leonardo Gaciba (Divulgação/CBF)

O quadro de arbitragem da CBF é orientado a tentar coibir o atraso causado por uma eventual "cera". Em nota enviada à reportagem, a Comissão de Arbitragem destacou.

"A orientação da Comissão de Arbitragem da CBF é repor o período utilizado para eventuais atendimentos médicos e atitudes que diminuem o tempo de bola em jogo. Na insistência em conduta intencional visando ao atraso na reposição da bola por parte do goleiro, o árbitro deve seguir a regra e advertir. Num primeiro momento, verbalmente. Se houver repetição, com cartão".

Contudo, quem vivenciou a rotina de campo contesta a forma como vem acontecendo a aplicação atual das regras. Alfredo Loebeling cita a cobrança de tiro de meta.

- É patético o goleiro que está em vantagem fazer "cera" o jogo inteiro e só receber cartão nos minutos finais! É preciso cumprir a regra à risca. Se o goleiro recebeu amarelo e continua demorando, tem de receber o vermelho. Mas é difícil dar segurança para o árbitro, pois há toda uma questão cultural em torno do futebol. Você não vai dar um cartão vermelho que pode desfalcar um goleiro de um clássico ou jogo também decisivo na rodada seguinte - afirmou.

Evandro Rogério Roman reforça a necessidade do árbitro ser enérgico na reta final da partida.

- A conduta só vai começar a mudar de fato quando as partidas tiverem, por exemplo, 12 minutos de acréscimo, um número bem elevado. Atualmente, a gente vê partidas que ficam paradas por oito a dez minutos mas que árbitros dão cinco ou seis de desconto. Quando isso mudar, as equipes vão repensar as coisas - declarou.

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