Hollywood x Choque de Cultura: vacinação antecipa figurinos de Doria e Bolsonaro para 2022

Matheus Pichonelli
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Brazil's Sao Paulo state governor Joao Doria speaks during a news conference about the China's Sinovac coronavirus disease (COVID-19) vaccine efficacy results at Instituto Butantan in Sao Paulo, Brazil January 7, 2021. REUTERS/Amanda Perobelli
João Doria fala a jornalistas durante coletiva sobre a vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

No dia em que o Brasil contabilizou a sua 200ª morte por coronavírus, João Doria (PSDB) e Jair Bolsonaro (sem partido), prováveis adversários na disputa presidencial de 2022, levaram a campo uma prévia do figurino que devem apresentar aos eleitores daqui a dois anos.

Ex-jornalista e apresentador de TV, o tucano vestiu os trajes de um drama épico, quase um thriller, na coletiva em que anunciou a eficácia de 78% da Coronavac, vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a fabricante chinesa Sinovac.

Era uma rara boa notícia em terras brasileiras desde o início da pandemia. A linguagem, emotiva, buscava capturar também a emoção do espectador, como uma cena final hollywoodiana em que o herói desembarca em terras inóspitas e dá início ao resgate dos prisioneiros.

“A vacina do Butantan é a vitória do planejamento e trabalho que começamos em abril, menos de dois meses depois do primeiro caso. Grandes conquistas como a de hoje não se constroem da noite para o dia”, disse o governador paulista, que fez homenagem à ciência, à pesquisa e à dedicação. “Não é fato político”, reforçou o tucano, talvez deixando entrever o efeito político da fala pela negação.

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Em vez de pontapés, Doria ofereceu flores aos jornalistas e voluntários que deram “o braço, a alma e o coração” para salvar brasileiros. “Ao longo desses mais de dez meses, perdi muitos amigos para a Covid. Creio que vocês perderam amigos, conhecidos, vizinhos. Muitos perderam parentes, pais, mães, avós, irmãos, colegas”, disse, contendo o choro.

Nos círculos de especialistas, o anúncio foi criticado por ter poucos dados e muita encenação, como se a aposta na dramaticidade compensasse eventuais detalhes e questionamentos técnicos.

Ao fim da sessão, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, correu para anunciar, numa coletiva ao estilo auto-entrevista, que o governo iria adquirir 100 milhões de doses da vacina do Butantan. A compra havia sido anunciada em outubro, mas foi suspensa após o general ser desautorizado publicamente pelo chefe, Jair Bolsonaro, que foi às redes acusar a “vacina chinesa” de provocar doença e morte.

Pouco depois, Pazuello participou da live semanal do presidente, que prometeu reestabelecer a “verdade” sobre a vacina no Brasil. O anúncio fez o espectador, ansioso por uma solução para a crise sanitária, imaginar que se tratava de um turning point do mesmo filme. Será que as caixas com os lotes da vacina seriam bombardeadas pelos inimigos do governador?

Não exatamente.

Na live, Bolsonaro não disfarçava a contrariedade com o trunfo do adversário, mas evitou citar seu nome e chamar o imunizante desenvolvido pelo instituto paulista de “vacina chinesa”.

Dessa vez, não desautorizou em público o subalterno, escalado ali para negar que estivesse dormido no ponto, como tem sido noticiado. Disse que apenas aguardava o avanço nas pesquisas e o registro da vacina na Anvisa.

Sem citar o governador, a dupla, cobrada por elaborar um cronograma e garantir a compra de seringas e agulhas, optou por desancar a imprensa que vocaliza as cobranças. A “verdade” anunciada por Bolsonaro era uma explicação técnica sobre a dificuldade em adquirir produtos que o governo sempre adquiriu em campanhas anteriores de vacinação.

Em resumo, Bolsonaro disse que estava em fogo cruzado. Se comprasse agulhas e seringas a preços altos, seria acusado de aceitar o sobrepreço.

Respondendo a questionamentos de jornalistas-apoiadores, Pazuello deu informações genéricas sobre planos e datas, mas prometeu dar conta do recado. Bastava, reiterou, a autorização da Anvisa.

Pazuello também disse que, nos países que já começaram a vacinação, o índice de pessoas imunizadas é ínfimo e que, pelo preço, prazos e cláusulas contratuais, no caso específico da vacina da Pfizer, não valeria apostar na importação de imunizantes de laboratórios que entregariam doses restritas.

Nos minutos finais, quando o público já começava a dormir tranquilo nas cadeiras --que não voaram em direção ao Palácio dos Bandeirantes-- Bolsonaro destravou a língua. Virou o pior garoto-propaganda do produto que acabava de anunciar a aquisição.

Àquela altura, o Brasil já havia cruzado a linha das 200 mil mortes por Covid, ao menos nas estatísticas oficiais.

Se, à tarde, o tom que prevaleceu no Instituto Butantan era o emotivo, na live presidencial a caneca que enfeitava a mesa parecia ter mais lágrimas a chorar por seus compatriotas do que o presidente.

Bolsonaro contestou as estatísticas, disse que muitos dos 200 mil morreram “com” coronavírus, e não “de” coronavírus, reforçou a importância do tratamento precoce com cloroquina e vermífugos garantindo que, se não há comprovação científica sobre os medicamentos agora, no futuro haverá. Ele citou como exemplo soldados de guerra que, na impossibilidade de receberem transfusão de sangue no palco dos conflitos, recebiam água de coco na veia e se salvavam. Mesmo sem que tivesse comprovação científica dos benefícios da água de coco no sangue dos soldados.

Já as vacinas, que segundo ele não tem eficácia comprovada, estas sim deveriam causas preocupação, e não podem ser obrigatórias, e sim uma escolha pessoal de quem está consciente dos efeitos colaterais. A certa altura, Bolsonaro questionou por que o medicamento na farmácia era barato e a vacina, cara. Chegou a perguntar também se o objetivo das fabricantes era salvar vidas ou ganhar dinheiro com essas “grandes negociações”.

Um grande estímulo para qualquer apoiador-raiz sair de casa e dar o braço a torcer, literalmente.

Foi quando o filme de guerra descambou para esquete ao estilo “Choque de Cultura”. Disse que, com ou sem vacina, o importante era manter a imunidade em dia com esportes, citando o caso de quem está na praia praticando exercício e fixando vitamina D no corpo sob o sol. Segundo o presidente, para estes habitantes da Terra “não acontece nada” quando o vírus ensaia a invasão.

“Você tem notícia de algum jogador de futebol que morreu?”, questionou o presidente, para comprovar sua tese a respeito do histórico de atleta. Diante da pergunta-resposta, afirmou que a gestão da pandemia deveria ser focada em pessoas acima de 50 anos ou com comorbidades e deixar o resto do país livre para trabalhar --como se eles não se encontrassem, em casa, ao fim do expediente.

Como se fosse síndico e não presidente da República, citou o exemplo de seu prédio, onde 200 pessoas foram infectadas e só uma morreu. Lembrou também de amigos que tomaram cloroquina e se curaram no “dia seguinte”.

Sobre as 200 mil mortes no país, disse lamentar e ofereceu uma frase de conforto que era uma contradição em termos: “a vida continua”. Alertou, porém, que ficar em casa poderia levar a situações mais dramáticas do que as provocadas pelo vírus.

“Não podemos nos transformar em um país de pobres e endividados”, defendeu o presidente, talvez ignorando que na mesma semana o número de compatriotas em situação de extrema pobreza tenha chegado a 14 milhões de pessoas.

Nada que coubesse no roteiro da ficção que acabava de encerrar.