Com esquerda na lona, João Doria reivindica o posto de anti-Bolsonaro em meio à crise do coronavírus

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João Doria discursa ao lado e Wilson Witzel e Jair Bolsonaro em novembro de 2018. Foto: Adriano Machado/Reuters
João Doria discursa ao lado e Wilson Witzel e Jair Bolsonaro em novembro de 2018. Foto: Adriano Machado/Reuters

No meio da gritaria, pode ter passado desapercebida, mas a crise do coronavírus deixou ainda mais evidente a reposição no tabuleiro de forças políticas no Brasil.

Se, desde a eleição presidencial de 1994, PT e PSDB polarizavam os campos em disputa, em 2022 ambos provavelmente brigarão pelo posto de anti-Bolsonaro. Será, ao que tudo indica, uma mudança e tanto num dos polos, já que na última eleição o que estava em disputa era o posto de candidato anti-Lula/PT.

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Nessa corrida, que ocorre paralelamente aos esforços de contenção da pandemia, é João Doria (PSDB-SP), e não alguma liderança à esquerda, quem desponta como principal opositor do presidente. Wilson Witzel (PSC-RJ) vem logo atrás.

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O antagonismo foi reforçado nos últimos dias, com trocas de acusações mútuas. Sem citar nomes, mas mirando em Doria e Witzel, Bolsonaro chamou de irresponsáveis os governadores que anunciaram o fechamento de serviços não essenciais em seus estados. Dizia temer pela explosão de desemprego. 

Para Bolsonaro, o governador paulista, que chamou de “lunático”, está fazendo cálculo político para “se promover”. “Ele nega que usou o meu nome para se eleger governador e está aproveitando para crescer politicamente.”

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O tucano rebateu no Twitter: “Jair Bolsonaro chama coronavírus de gripezinha e eu que sou lunático? Lidere seu país, presidente. Faça seu papel. Os governadores do Brasil estão fazendo o seu”.

Bolsonaro, que teme receber ao fim da crise a fatura pelos impactos econômicos da pandemia, retrucou. “Brevemente o povo saberá que foi enganado por esses governadores e por grande parte da mídia nessa questão do coronavírus”, disse o capitão, em entrevista à TV Record. “A grande mídia, governadores, de olho na minha cadeira, se puder antecipar minha saída, eles farão isso aí, mas da minha parte não terão oportunidade disso, nós vamos continuar nosso papel”.

Sem que se percebesse, a troca de acusações dava pistas sobre quem está no páreo na disputa presidencial de 2022. Doria se coloca como um governador que arregaça as mangas e peita o presidente mostrando serviço. Para entendidos da área da saúde, Doria mostrou ser um governador que sabe ouvir especialistas, recuar nas avaliações iniciais e tomar decisões, como o fechamento do comércio, a ampliação do suprimento de medicamentos de alto custo e o aumento da capacidade de produção de testes para o covid-19. Se vai manter esse protagonismo até o fim da crise é outra história. (É possível supor que será um baque a perda temporária de seu braço direito na crise, o infectologista David Uip, que testou positivo para o coronavírus).

Em outros tempos, quem faria este papel seria Lula. Era o que se esperava desde que deixou a prisão no fim do ano passado.

A contraposição neste campo, porém, tem praticamente como única plataforma as redes sociais. Na quinta-feira (19), por exemplo, o ex-presidente disse que “Bolsonaro deveria governar para 210 milhões e não apenas ficar governando para satisfazer seu ego ou o ego dos seus filhos". 

“Não temos alguém que seja capaz de orientar as pessoas. (Bolsonaro) Está preocupado com a sua imagem, está preocupado com os seus panelaços, com as suas manifestações, está preocupado em se autodenominar mito”, disse Lula.

No conteúdo, como se vê, a crítica não era tão diferente da de Doria. Mas já não tinha o mesmo efeito nem repercussão.

Vendo de longe a nova polarização, coube a Fernando Haddad, o último presidenciável da legenda, descer alguns degraus para conquistar algum engajamento nas redes, onde escreveu que o país precisa enfrentar um vírus e um “verme”. Lacrou? Com exceção de uma coluna em jornal, com lamento ao desmonte do programa Mais Médicos, foi mais ou menos essa a contribuição do ex-prefeito paulistano para o debate.

Não à toa, é João Doria quem virou o principal alvo do bolsonarismo. Desafiado, Bolsonaro percebeu a desvantagem e decidiu estrear a nova roupa de suposto estadista em reunião online com os governadores do Nordeste, que ele já chamou pejorativamente de “paraíbas”, para rascunhar um plano de ação. Foi elogiado até pelo governador da Bahia, Rui Costa (PT). “Hoje caiu a ficha, é nítida a mudança de postura do presidente”, disse o petista depois da reunião à distância.

A cena era impensável até poucos dias. O novo jogo de forças também. Tudo leva a crer que o posto de anti-Bolsonaro vai ser ocupado por quem aderiu ou bebeu no campo bolsonarista até outro dia. Seu maior adversário, ao que parece, será uma defecção.

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