Jesualdo Ferreira, o 'dinossauro' que é referência tática em Portugal

Goal.com
Novo técnico do Santos, português de 73 anos é adepto do 4-3-3 e inspirou a nova geração que tem brilhado na Europa
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Jesualdo Ferreira tem 73 anos e já estava cogitando a aposentadoria, mas, curiosamente, resolveu esticar a carreira assim que começou a ver – e também a analisar como comentarista – o sucesso do amigo e compatriota Jorge Jesus no Flamengo. Mais do que isso, passou a vislumbrar uma chance de trabalhar exatamente no Brasil.

Licenciado em Educação Física pelo ISEF (Instituto Superior de Educação Física de Lisboa), Manuel Jesualdo Ferreira é um dos "dinossauros" (é um elogio!) do futebol português. Ao lado de Carlos Queiroz, hoje na seleção da Colômbia, carrega o posto de maior referência viva de uma classe que tem dado o que falar nos últimos anos.

José Mourinho e Jorge Jesus sempre admiraram Jesualdo. Inspirou, sobretudo, os "mais jovens", entre eles Leonardo Jardim (Monaco), André Villas-Boas (Olympique de Marselha), Paulo Sousa (Bordeaux), Paulo Fonseca (Roma), Marco Silva (que deixou recentemente o Everton), Nuno Espírito Santo (Wolverhampton), Abel Ferreira (PAOK), Pedro Martins (Olympiacos) e Luís Castro (Shakhtar Donetsk).

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Fã absoluto dos eternos Mário Wilson e José Maria Pedroto e até hoje adepto do 4-3-3, iniciou a trajetória profissional nas seleções de base e foi auxiliar no Benfica antes de investir de fato como treinador principal, tão logo ficando conhecido como "equilibrado" (não é ofensivo e nem defensivo).

Estuda dia e noite. É um viciado em questões táticas, tendo criado o termo "o saber português", que, segundo o próprio explicou anos atrás na "FPF 360", a revista oficial da Federação Portuguesa, significa que o futebol português tem dois pilares essenciais: o futebol de rua e a capacidade de absorção de conhecimento.

"O treinador português (tal como o jogador) nasceu cá, no nosso futebol, na rua, e entende o nosso jogo. Percebe os nossos jogadores como ninguém, mas ao mesmo tempo nunca negligenciou as tendências vindas de toda e qualquer parte do mundo", escreveu.

Tem como grande feito o tricampeonato nacional (2006/07, 2007/08 e 2008/09) com o Porto, onde ajudou no crescimento de grandes jogadores, como Falcao Garcia e Ricardo Quaresma, e passou a ser reconhecido como "paizão rabugento" no vestiário. Antes, foi o responsável direto por modernizar e "popularizar" o Braga, que, no começo dos anos 2000, assumiu o papel de quarta força do futebol português, deixando para trás Boavista e Belenenses.

"Jesualdo me ensinou o que um atacante precisa e deve fazer. Corrigiu o meu futebol", destacou Falcao, em recente entrevista à France Football.

Teve como pontos baixos as passagens sem êxito por Málaga, Panathinaikos e Sporting, entre 2010 e 2014. Reencontrou o caminho das vitórias na temporada 2014/15, quando resolveu se aventurar no Egito. Foi campeão nacional com o Zamalek. Embalado, assumiu em 2015/16 o milionário Al-Sadd, do Qatar, onde acabou por erguer quatro taças em quatro anos.

Cansado e alegando motivos particulares, Jesualdo Ferreira deixou o clube qatari nas mãos de Xavi, com quem havia trabalhado nos meses anteriores, e retornou para Portugal. Mas não deixou o futebol de lado. Rapidamente aceitou a posição de comentarista no recém-criado Canal 11, responsável por transmitir em Portugal os jogos do Flamengo no Brasileirão.

Ao analisar taticamente Jorge Jesus, o "Mister" – sim, também é chamado assim, muito antes dos outros – voltou a sentir o prazer de respirar no dia a dia o esporte que tanto ama. Diferentemente do compatriota, que antes de rumar ao Flamengo acompanhava até mesmo os jogos da Série B do Brasileirão, Jesualdo não conhece tão bem a realidade brasileira. Precisa de tempo, confiança e, quem sabe, um auxiliar brasileiro do lado. Tem qualidade e experiência de sobra para desempenhar um bom papel.

Jesualdo Ferreira sabe, por exemplo, que as viagens no Brasil são longas, constantes e cansativas. Isso, aliás, por muito pouco não o fez rejeitar o convite do Santos, com quem acordou um contrato válido até o fim de 2020. As questões determinantes para topar o desafio, segundo confidenciou a pessoas próximas, foram: a oportunidade de treinar o clube histórico de Pelé e, principalmente, de ser campeão em quatro continentes. O tão esperado sucessor de Jorge Sampaoli, verdade seja dita, ainda tem muita lenha para queimar.

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