O caso Japinha, do CPM 22, e a necessidade de rever a erotização com mulheres

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Japinha, do CPM 22, teve conversas com uma menina de 16 anos vazadas na internet (Foto: Instagram)
Japinha, do CPM 22, teve conversas com uma menina de 16 anos vazadas na internet (Foto: Instagram)

Nesta quarta-feira (10), a notícia que não saia dos tópicos mais comentados do Twitter era a polêmica envolvendo Ricardo Di Roberto, o Japinha do CPM 22. Isso porque uma conta na rede social vazou uma conversa que ele teve, há oito anos, com uma jovem menor de idade. 

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Na época, Japinha tinha 38 anos, e a conversa parece seguir o 'protocolo' quando o assunto é a abordagem masculina com meninas mais novas: o desejo pela ideia da virgindade, uma conversa que deixa claro que há um interesse em algo mais do que um bate-papo. O próprio músico já se manifestou sobre o tema e disse em entrevista que "não vê maldade" na troca de mensagens. 

Em um momento de tanta efervescência política, econômica e social, é fato que muitas mudanças estão acontecendo. A violência e o abuso contra mulheres nunca esteve tão em pauta e falar sobre o assunto agora é um sinal de coragem. Afinal, em uma sociedade machista e patriarcal, em que é preciso muitas mulheres para gerar dúvida sobre o discurso de um único homem, abrir uma conversa tão complicada como essa é importante para gerar evolução. 

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No caso, o que houve com Japinha aconteceu há 8 anos. E por mais que a situação precise, sim, ser investigada a fundo para comprovar se houve crime - e o julgamento deve ficar a cargo dos órgãos responsáveis -, não cabe à internet julgar o que aconteceu, mas trazer uma reflexão sobre a forma como as mulheres são vistas. 

Ao comentarem sobre o assunto no Twitter, alguns usuários trouxeram à tona outros relacionamentos de famosos que deveriam, também, ser considerados. Primeiro, talvez o mais famoso deles: Marcelo Camello e Mallu Magalhães, que começaram a namorar quando ela tinha 15 anos. Depois, Caetano Veloso e Paula Lavigne, que estão juntos desde 1986 — entre idas e vindas —, mas cujo relacionamento começou quando ela tinha 13 anos. 

Vale lembrar que, pela lei brasileira de 2009, relações sexuais de qualquer natureza com menores de 14 anos são consideradas estupro (é o que caracteriza o chamado “estupro de vulnerável"), e independe do consentimento. Ou seja, mesmo que o menor esteja de acordo e consciente do que está acontecendo, a relação é considerada como estupro pelos olhos da lei. 

A partir dos 15, no entanto, o estupro acontece apenas quando a vítima não consente ou não tem consciência do que está acontecendo (é o caso da embriaguez, por exemplo). No Brasil, para esses casos a pena por estupro pode ser de 6 a 10 anos de prisão, com aumento para 8 ou 12 anos, caso a vítima seja maior de 14 anos e menor de 18. 

O assunto, porém, é um pouco mais delicado, porque a conversa parte da hipersexualização feminina. Mel Maia é um exemplo disso. Há algum tempo, ela, que tem 16 anos, recebe constantemente comentários de cunho sexual nas redes sociais, que vão de "gata" até "delícia de mulher". 

Larissa Manoela é outra. Hoje com 19 anos, ela recebe comentários dos mais variados nas redes sociais que passam, também, pela hipersexualização. Maísa, idem. Ídolo maior da geração teen, já precisou lidar com manchetes das mais absurdas a seu respeito, inclusive algumas sobre o fato de "estar solteira", quando tinha 9 anos de idade. 

A erotização de crianças é um problema global, e não à toa reflete em números tão altos de denúncias mundo afora. No Brasil, segundo dados do Governo Federal, em maio do ano passado foram registrados um total de 76.216 denúncias referentes à crianças e adolescentes, sendo que 17.093 diziam respeito a casos de abuso sexual e estupro. As perspectivas não são boas para 2020, principalmente com a pandemia de coronavírus e o distanciamento social, em que muitas crianças e adolescentes são confinados com os próprios abusadores. 

O comportamento violento é resultado de uma mentalidade que se encontra nas pequenas coisas, como comentários de cunho sexual nas redes sociais, aprender sobre sexo com pornografia (e não com educação de qualidade) ou um homem de 38 anos que flerta com uma menina de 16. O bom senso cabe sempre em toda situação e é aí que ele falha, já que o bom senso, na sociedade em que vivemos, diz que uma mulher está apta para relações sexuais a partir do momento que desperta o desejo masculino. E isso pode variar - e muito. 

Quebrar esse ciclo de abuso e violência começa, justamente, nas pequenas ações. É um trabalho de educação, que envolve todos os lados: pais, crianças e indivíduos de um modo geral, uma vez que o que um aprende é passado para frente. Assim como o racismo ou a homofobia, o trabalho de desconstrução e revisão de valores começa no âmbito individual, por isso, independente de uma foto postada nas redes sociais ou de um comentário feito por mensagem, o bom senso deve vir sempre daquele com mais experiência. 

Deixar-se levar pela mentalidade que diz que a mulher está apta para o sexo a partir do momento que menstrua ou que entra na adolescência, reforça a ideia de que o seu corpo é um objeto puramente de cunho sexual e reduzir a mulher à aparência, é o que torna a vivência das mulheres na sociedade tão complicada. A tentativa de desprendimento dos padrões de beleza é mais um exemplo disso. 

A mudança precisa começar em algum lugar: que seja na mente daqueles que têm mais consciência das próprias ações e do que esperam dos outros. A ação de Japinha aconteceu há quase uma década, mas já mostrou as suas consequências, por mais que, na visão dele, tenha parecido "sem maldade". Talvez, o bom senso deveria dizer que a conversa termina a partir do momento que a o outro lado revela que é menor de idade. 

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