Nova política de Bolsonaro é uma churrascaria lotada rindo de você

Matheus Pichonelli
·4 minuto de leitura
Jair Bolsonaro arranca aplausos e gargalhadas ao mandar imprensa enfiar leite condensado "no rabo"
Jair Bolsonaro arranca aplausos e gargalhadas ao mandar imprensa enfiar leite condensado "no rabo"

Fosse um presidente qualquer, as perguntas relacionadas às compras de um super-carregamento de leite condensado, chicletes e alfafa, diante da comoção provocada nas redes (e, por ironia, praticamente ignoradas pela grande imprensa), seriam respondidas num depositário de senões, portantos, entretantos e doravantes das notas oficiais com terno e gravata. Michel Temer, em seus tempos, certamente gastaria o latim para explicar que, veja bem, data venia, mas verba volant, lac manent --tudo com aquelas mãozinhas de moribundo que sorri disfarçando o desejo de trucidar o interlocutor enquanto range os dentes e faz a veia jugular explodir sem alterar o tom de voz.

Mas Jair Bolsonaro não. Jair Bolsonaro é nova política. É o vento patriota e cristão do novo dia do novo tempo que começou. Começou em 1.500.

A nova política encarada por Bolsonaro não abusa de latim nem precisa dar satisfação. Manda quem fez a pergunta enfiar a pergunta no rabo e segue o jogo.

A nova política de Bolsonaro fecha churrascaria em dia de semana enquanto a equipe econômica estuda qual carne humana cortará em caso de extensão de auxílio emergencial. Promove regabofe e recebe aplausos do servilismo mais vergonhoso ao dizer que não deve explicação sobre o que seu governo faz, gasta ou deixa de fazer. Seja com chicletes, seja com remédios sem eficácia.

Bolsonaro não precisa de lã e algodão para se disfarçar de cordeiro. Bolsonaro é lobo em pele de lobo --e o desfile com o figurino que não pede licença para destroçar é a concessão mais próxima à honestidade de que é capaz.

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Ele já fazia isso quando deputado e era questionado sobre por que embolsava auxílio-moradia na Câmara se possuía apartamento na capital. Era pra comer gente em um dos imóveis, disse. E por que tinha uma vendedora de açaí na lista de funcionários de seu gabinete se ela trabalhava em Angra dos Reis.

As respostas do agora presidente tinham o cinismo de quem pega as notas de dinheiro alheio, queima com charuto e depois pergunta “e daí?”.

Mas, como os convivas da churrascaria, muitos observavam a troça com a paciência e recursos públicos e bateram palma e chamaram de “mito”.

De palma em palma, eis a imagem mais bem acabada da condolência do comandante-em-chefe diante das mortes dos compatriotas: um regabofe onde sobram risadas entre coices e patadas. Se era dia de festa, ninguém avisou.

Dois anos depois de ser eleito prometendo fazer tudo diferente de todos os que o antecederam, é preciso dar o braço a torcer: Bolsonaro realmente conseguiu demonstrar que não é como os outros. É pior. Na intenção, nas ações e nas respostas.

Naquilo que o aproxima dos demais, a novidade é que, alçado a mito, o presidente patriota não tem nada a explicar aos súditos. O que faz está investido de um direito divino, e quem questiona não tem outra resposta a receber se não as botas.

Colapso virou pleonasmo no rescaldo da onda que elegeu não apenas um “mito” mas pequenos figurões bons de papo e ruins de serviço alinhados a ele na onda de 2018.

Incapaz de oferecer respostas, o ex-racialista e neófito em assuntos políticos Wilson Lima, do Amazonas, se limita hoje a pedir orações à população que não pode salvar. Em Rondônia, o governo carne-e-unha aos desejos do capitão incluiu leitos clínicos e unidades inativas de tratamento intensivo em relatórios de ocupação de hospitais para mentir, segundo o Ministério Público, que não precisava de medidas de restrição. No Rio, Wilson Witzel (PSC), um pastiche de Bolsonaro, caiu em meio ao agravamento da crise com um assombro de denúncias de corrupção.

Em Santa Catarina, o governador eleito na mesma onda precisou responder a um processo de impeachment, também em meio à pandemia, e deixou o comando do estado na mão da filha de um hitlerista que, para não brigar com o pai, prefere não condenar com todas as palavras os horrores da experiência nazista.

Isso para ficar em apenas alguns exemplos mais notórios do pasto que se transformou o país com o estouro da boiada de 2018.

A imagem mais bem-acabada desse novo país é a da reunião de marmanjos gargalhando impunes no dia em que atingimos 220 mil mortes e vimos o mundo fechar as fronteiras com o país para salvar seus cidadãos.

Em seu momento Maria Antonieta, entre um corte nobre e outro na churrascaria, Bolsonaro pensa que ataca a imprensa quando, na verdade, caçoa de um país inteiro. Não tem vacina? Não conseguimos controlar a proliferação da nova cepa que assusta o Planeta? Que comam brioches com leite condensado. Ou façam uso da iguaria como bem preferirem.

Bolsonaro e todo mundo ao redor daquela mesa não poderiam se importar menos com a tragédia que poderiam e foram incapazes de conter.