Descontrole e aposta no medo: os passos de Bolsonaro rumo ao isolamento

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O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Andressa Anholete / Getty Images
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Andressa Anholete / Getty Images

Para engrenar no sono em tempos de quarentena, baixei no celular um aplicativo de filmes antigos. Clássicos, na verdade, embora a nomenclatura soe blasé.

Toda noite, antes de dormir, escolho um, de preferência em preto e branco, de preferência longe daqui.

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Mas que jeito?

Noite passada, comecei a ver “O Pão Nosso”, de King Vidor. Lançado em 1934, o filme acompanha a história de John e Mary Sims, um casal empobrecido da cidade grande após o crash da Bolsa nos EUA e que, sem recursos para colocar carne dentro de casa, aceita viver em um sítio abandonado pelo tio. A propriedade não vale nada. Tem só uma casa sem móveis e uma terra onde nada parece brotar.

Até que a família de um viajante, também fugindo da crise, para em frente da porteira e pede ajuda para abastecer o carro. Sem poder ajudar, John convida os forasteiros a ficarem por lá.

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Juntas, as famílias começam a trabalhar em parceria. Vendo o progresso no arado, o casal resolve abrir a propriedade para outras famílias em situação de desespero.

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A ideia é recrutar pedreiros, carpinteiros, encanadores, agricultores e outros profissionais que ajudassem a transformar aquela área em uma espécie de cooperativa: sem dinheiro, cada um ofereceria seu talento como escambo. Inclusive o professor de violino, que nunca tinha visto um arado antes.

As famílias começam a chegar aos montes.

Em pouco tempo, o sítio se torna modelo e aquelas famílias, uma comunidade. Até que vem a seca e uma nova moradora, trazendo para as plantações os muitos vícios da cidade grande. John, que até então liderava a comunidade, começa a se perder, sem esconder o desânimo com o desastre na lavoura que se anunciava.

Vendo a desolação, Mary chama o marido num canto e pergunta o que há. Ele confessa o desespero e diz estar cansado daquela porcaria de sítio.

Ela então o provoca: as pessoas esperavam outra postura dele. E, se ele quisesse mudar aquela situação, não poderia demonstrar desalento. Não mais do que os outros trabalhadores, ensinou a mulher.

É então que toda história tem uma reviravolta.

Não sei se dá para comparar o tombo de uma economia ainda primitiva do início do século passado com os perrengues de uma sociedade high tech e hiperconectada como a atual. Mas a metáfora da terra arrasada parece ainda atual.

É certo que a contemporaneidade pede decisões coletivas, mas as lideranças ainda existem. A de Jair Bolsonaro está à prova, e os resultados o próprio leitor pode avaliar.

Na videoconferência com governadores do Sudeste, na quarta-feira (25), João Doria (PSDB-SP), sabendo dos pontos fracos do seu potencial adversário em 2002, lançou uma casca de banana daquelas para o presidente.

A casca foi arremessada num tom de voz pausado, em que pedia ao capitão briguento “serenidade, calma e equilíbrio”. E que, por favor, seu governo não confiscasse os respiradores do epicentro da pandemia. Bolsonaro, diante da cobrança, demonstrou tudo, menos serenidade, calma e equilíbrio.

Doria plantou a casca e colheu a reação. E, mesmo que pense 24 horas, sete dias por semana, na cadeira de Bolsonaro, foi Bolsonaro quem trouxe o tema das eleições para a conversa.

Deu, assim, a brecha para que João Doria fosse às redes interpretar seu novo papel: o anti-Bolsonaro versão moderada.

“Recebi como resposta um ataque descontrolado do presidente. Ao invés de discutir medidas para salvar vidas, preferiu falar sobre política e eleições”, ironizou.

Enquanto um berra, o outro esconde as cascas de banana e diz manter o equilíbrio, uma ferramenta em falta nos tempos de crise.

Funcionou. Ao fim do dia, Bolsonaro estava ainda mais isolado. Alvo de panelaços pelo oitavo dia seguido, viu ex-aliados como Ronaldo Caiado (DEM-GO) desembarcarem e certamente foi dormir com a pulga atrás da orelha ao rever as caras e bocas de seu vice, Hamilton Mourão, enquanto subia no tamanco na videoconferência.

Diferentemente do personagem de “O Pão Nosso”, o presidente já não disfarça o descontrole. Goste-se ou não, isso certamente será usado politicamente. Já é.

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