Bolsonaro, guaraná Jesus e o mito do homem viril que não bebe rosa

Matheus Pichonelli
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Brazil's President Jair Bolsonaro holds a doll depicting him riding a toy buffalo during a ceremony at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil March 3, 2020. REUTERS/Adriano Machado     TPX IMAGES OF THE DAY
O presidente Jair Bolsonaro . Foto: Adriano Machado/Reuters

Sob qualquer ponto de vista, é (ou deveria ser) lamentável que uma fala homofóbica seja o ponto mais comentado de uma viagem oficial de um chefe de Estado por seu país. Sobretudo quando este país é recordista de assassinatos de pessoas LGBT.

Jair Bolsonaro chegou ao Maranhão em um contexto adverso, com dólar em alta e bolsa em queda diante da nova onda de Covid-19 pela Europa e a total falta de ideias sobre como segurar o tufão que se avizinha.

Na véspera, seu ministro do Meio Ambiente havia atacado o presidente da Câmara em uma postagem infantil no Twitter. Seu ministro da Economia propagava ataques sem provas à federação dos bancos e se enrolava para explicar como o governo pretende manter o tecido social sem aumento de impostos.

Em São Luis, o presidente foi escalado para inaugurar um trecho da BR-135 meses após dizer que, dos governadores “paraíbas”, o maranhense Flávio Dino (PCdoB) era o pior. Ambos não se bicam e chegaram a trocar alfinetadas em público.

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Bolsonaro sabe que o que fala repercute. Sabe que estava diante de uma pequena multidão e algumas câmeras. E, num misto de tentativa de desconversar sobre outras querelas e reunir as atenções para si, tomou o famoso Guaraná Jesus, iguaria local de tonalidade cor-de-rosa, e anunciou entre risos: “virei boiola, igual maranhense”.

Bolsonaro parece doutrinado pela cartilha de Damares Alves, para quem menina veste rosa e menino veste azul.

No campo da psicanálise, é possível fazer uma tese de doutorado sobre a masculinidade frágil encarnada por líderes como ele e o ídolo, Donald Trump. A análise incluiria capítulos sobre insegurança, necessidade de afirmação, falsa virilidade, eventual autocensura Seria levada e aplaudida em auditórios compostos por iniciados.

Fora das páginas, a declaração de Bolsonaro repercute porque causa indignação e causa indignação porque repercute. É a fórmula mágica para obter engajamento em suas redes, uma plataforma política e discursiva que poucos ainda dominam. Ele foi eleito com ela.

É lá que Bolsonaro forja e tem forjado não só o mito do homem durão, mas principalmente o mito do homem simples e que ofende quando não quer ofender por ignorância e não por cálculo. É possível que tudo seja calculado, mas vá lá.

A postura homofóbica gera a justa indignação. E, contra a justa indignação, há sempre os que se identificam com a conversa, repetida diariamente na turma do futebol ou no ambiente de trabalho, e observa a reação como as travas da castração apresentadas por uma patrulha que vê maldade em tudo. Para boa parte da população, logo dos eleitores, a simples menção à palavra homofobia é mais ofensiva do que a sua perenização. É a interrupção do gozo, diriam os entendidos.

No caso da fala sobre o guaraná cor-de-rosa o mito do líder simplão que escorrega na própria língua encontra o mito produzido em outras terras sobre o cabra-macho nordestino. A falsa provocação (“virei boiola, igual maranhense”) é assim o encontro de dois arquétipos que podem ser facilmente desmontados e que já fazem hora extra, mas que produz, como já produziu, o efeito político esperado.

O presidente é um brincalhão, dizem os que se negam a ver problema na fala -- e assim ele não só ganha o rótulo de líder bonachão, o que mais o aproxima do que distancia do brasileiro médio, a quem quer atingir, como lança os contestadores da vez na vala comum dos amargurados, patrulheiros dos bons modos, fiscais do chamado “politicamente correto”.

Bolsonaro é o brasileiro médio que chegou ao poder dizendo que o país estava muito chato porque não podia fazer piada com quem já era maltratado pela vida.

É um pensamento torto, rude e cínico -- todo estandarte da virilidade vira um poço do vitimismo que critica quando tem as fragilidades e contradições expostas; e neste quesito nunca houve presidente mais chiliquento do que Bolsonaro.

Mas é também uma ponto de conexão com uma multidão que pensa e se comunica com a mesma linguagem.

Por isso, nessas horas, após lançar a mensagem e fazer o serviço, Bolsonaro apenas se recolhe e assiste de camarote a uma multidão sair em defesa do direito desse homem comum se manifestar livremente sem ver maldade onde pisa.

Tão batida quanto a fórmula de guaraná, a estratégia de sempre não demorou a se converter em pedido de desculpas: “Pessoal, fiz uma brincadeira. Se alguém se ofendeu, me desculpa aí, tá certo”.

Em sua live semanal, Bolsonaro disse que falou “uns troços lá, alguém pegou, divulgou, não sei o que, como se eu tivesse ofendendo quem quer que seja no Maranhão”. “Muito pelo contrário. Com quem eu tava brincando era um maranhense, que levou na esportiva. Agora, a maldade está aí.”

Aos ofendidos, a armadilha é uma cola difícil de se desvencilhar. Se eles se ofenderam, é porque entenderam errado. Se insistem no “erro”, é porque estão tomados por maldade. São incapazes até de aceitar a desculpa.

O presidente, afinal, é um homem simples. Tem até amigos maranhenses. Brinca e leva a piada na esportiva. E vive sendo perseguido por quem traz a malícia no olho.

É com essa conversa, tão autêntica quanto a coloração artificial de um refrigerante cor-de-rosa, que ele cresce em popularidade nas camadas que veem antes uma identificação do que deslize na postura errática.