Baseado em fake news, embaixador brasileiro nos EUA orientou Bolsonaro a não parabenizar Biden

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Foto: AP Photo/Eraldo Peres
Foto: AP Photo/Eraldo Peres

Depois de longos 38 dias, Jair Bolsonaro (sem partido) reconheceu nessa terça-feira (15) a vitória de Joe Biden nas eleições norte-americanas. O Brasil foi o último dos países que compõem o G-20 a parabenizar o futuro chefe do Executivo dos EUA. Quem recomendou essa postura foi Nestor Forster, embaixador brasileiro no país.

O jornal Estado de S. Paulo teve acesso aos telegramas que Forster enviou ao Brasil com descrições da apuração do pleito baseadas em análises e notícias falsas, que questionavam a lisura das eleições vencidas por Biden.

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Durante a contagem dos votos, Donald Trump, candidato derrotado, insistiu na tese de fraude no pleito, porém não apresentou nenhuma prova de sua versão. Ainda assim, a embaixada brasileira repassou a Bolsonaro mensagens que confirmavam a narrativa sobre fraude e apostavam numa reviravolta nos tribunais.

No dia 6 de dezembro, momentos antes do anúncio da vitória de Biden, Forster disse a Brasília que “estreitas margens tornam quase certos processos de recontagens e ações judiciais adicionais”, algo que não se provou dias depois. No dia seguinte, a vitória do democrata foi anunciada e analistas a consideraram como irreversível.

Em outros telegramas, Forster deixou de informar que outros países como Reino Unido, Alemanha e França haviam reconhecido a vitória de Biden sob Trump. Nas mensagens, o embaixador não recomenda que Bolsonaro faça o mesmo.

Baseado na narrativa de Trump, o embaixador falou em “diversos relatos” de fraudes em diferentes Estados. Na ocasião, emissores norte-americanas chegaram a interromper falas de Trump que ventilavam essa versão infundada.

Sem citar fontes, o embaixador brasileiro falou em “tráficos de cédulas em pequena escala”e “intimidação a observadores eleitorais em locais de contagem de votos". Logo após votar no segundo turno das eleições municipais, no dia 29 de novembro, Bolsonaro disse ter “informações” seguras de que haveria fraude no pleito norte-americano.

“A imprensa não divulga, mas eu tenho minhas informações, não adianta falar para vocês que vocês não vão divulgar, que realmente teve muita fraude lá. Teve, isso ninguém discute”, afirmou o presidente ao sair do seu colégio eleitoral no Rio de Janeiro.

Depois de diversos telegramas com informações infundadas, Bolsonaro acabou cedendo apenas 38 dias depois e saudou Biden pelas redes sociais.

“Saudações ao presidente, com melhores votos e a esperança de que os EUA sigam sendo ‘a terra dos livres e o lar dos corajosos. Estarei pronto a trabalhar com o novo governo e dar continuidade à construção de uma aliança Brasil-EUA, na defesa da soberania, da democracia e da liberdade em todo o mundo, assim como na integração econômico-comercial em benefício dos nossos povos", escreveu Bolsonaro.

Procurado pelo jornal, o embaixador Nelson Forster afirmou que não comentará o conteúdo dos telegramas.