Com Brasil perto dos 100 mil mortos, Bolsonaro pede para país "tocar a vida" e aumenta coleção de falas polêmicas

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Foto: REUTERS/Adriano Machado
Foto: REUTERS/Adriano Machado

O Brasil passou nesta quinta-feira (6) das 98 mil mortes por Covid-19 e dos 2,9 milhões de casos confirmados da doença. À noite, em sua transmissão semanal ao vivo por uma rede social, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) recebeu o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, e comentou sobre o avanço do novo coronavírus no país.

“A gente lamenta todas as mortes, está chegando ao número de 100 mil talvez hoje, é isso?”, disse Bolsonaro. Pazuello respondeu que o número provavelmente será alcançado ainda essa semana, e então o presidente afirmou: “Mas vamos tocar a vida, tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”.

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Esta não foi a primeira vez que o presidente deu uma declaração sobre a pandemia do novo coronavírus que gerou muitas críticas. Em 24 de março, num pronunciamento em rede nacional de televisão, Bolsonaro, que já havia chamado a doença de gripezinha dias antes, afirmou: “Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria acometido, quando muito, de uma gripezinha ou resfriadinho”.

Dois dias depois, no Palácio da Alvorada, o presidente disse que o brasileiro “não pega nada”, ao comentar o avanço da pandemia: “O brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo? E não acontece nada com ele. Eu acho até que muita gente já foi infectada no Brasil, há poucas semanas ou meses, e ele já tem anticorpos que ajuda a não proliferar isso daí”.

“Não sou coveiro”

Em 29 de março, depois de fazer um passeio em Brasília, causando aglomeração, Bolsonaro disse: “O vírus tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, não como um moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Todos nós iremos morrer um dia”.

Em 20 de abril, o Brasil chegou a 2.575 mortes por Covid-19. Ao ser perguntado sobre o número de óbitos, o presidente interrompeu o jornalista que o indagava e disparou: “Ô, cara, quem fala de... Eu não sou coveiro, tá certo?”. Oito dias depois, o país ultrapassou a China em mortes pela doença, chegando a 5..007. Na porta do Palácio da Alvorada, o presidente disse: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias (seu nome do meio), mas não faço milagre”.

Em 7 de maio, quando o país estava às vésperas de chegar a 10 mil mortes pelo novo coronavírus, Bolsonaro disse que faria um churrasco no sábado seguinte, no Palácio da Alvorada. Depois, algumas pessoas que afirmaram terem sido convidadas para o churrasco disseram que o evento havia sido cancelado. No sábado, 9, Bolsonaro afirmou que o churrasco era fake news, apesar de ter sido anunciado por ele mesmo. Naquele sábado, o Brasil chegou a 10 mil mortes e Bolsonaro saiu para passear num lago de moto aquática.

Em 7 de julho, Bolsonaro confirmou que havia sido infectado pelo novo coronavírus. Ele se isolou no Palácio da Alvorada e anunciou que estava tomando hidroxicloroquina, sob prescrição médica, apesar de o remédio não ter eficácia comprovada para o tratamento da Covid-19. Na semana seguinte, ele fez um novo teste e voltou a ter resultado positivo. O presidente ainda teve mais um resultado positivo, divulgado no dia 21. Dois dias depois, ele passeou de moto na área interna do Palácio da Alvorada e parou para cumprimentar funcionários que faziam a limpeza do local. Ele tirou o capacete e, sem máscara, conversou com os funcionários.

No dia 25 de julho, Bolsonaro anunciou que havia feito mais um teste e o resultado deu negativo. Após divulgar que estava curado, ele saiu de moto por Brasília e disse a repórteres: “Não senti nada desde o começo, se eu não tivesse feito teste eu nem sabia que tinha contraído o vírus. É uma coisa que acontece, tem que cuidar dos mais idosos e tocar a vida”. No entanto, ao anunciar o primeiro resultado positivo para a Covid-19, o presidente disse que tinha apresentado febre de 38 graus, mal-estar, cansaço e dor no corpo.

Presidente levanta suspeitas sem explicar origem

Também durante a live, Bolsonaro disse que as estatísticas mostrariam "menos pessoas morrendo de determinadas doenças" porque elas estão sendo classificadas como mortas pela covid-19, e afirmou que isso pode estar ligado a médicos querendo "poupar autópsias". Ele não explicou a origem dessa dúvida e disse ter recebido essa informação de fontes que não podem ser chamadas de "confiáveis".

"Não é uma regra isso, mas, em alguns casos, o médico poupa uma autópsia. É isso ou não?", questionou Bolsonaro a Pazuello – o ministro não respondeu, fazendo apenas uma expressão de dúvida em relação à fala do presidente. "Tem chegado ao conhecimento da gente. Não vou dizer que são fontes confiáveis, mas chegam essas informações, de que se poupa uma autópsia", voltou a dizer.

O presidente, então, falou que existe uma diferença entre "morrer de covid e morrer com covid", repetindo seu questionamento habitual de que muitos pacientes infectados com o coronavírus que têm outras doenças morrem pela ação das outras doenças, e não do vírus.

***Com informações do Extra