Futebol feminino bate recorde de público na Itália

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<em>Quase 40 mil pessoas acompanharam a vitória da Juventus sobre a Fiorentina (Daniele Badolato/Juventus FC via Getty Images)</em>
Quase 40 mil pessoas acompanharam a vitória da Juventus sobre a Fiorentina (Daniele Badolato/Juventus FC via Getty Images)

O futebol feminino segue quebrando recordes e barreiras. Uma semana depois da partida entre Atlético de Madri e Barcelona reunir mais de 60 mil pessoas no estádio Wanda Metropolitano no Espanhol, Juventus e Fiorentina fizeram história ao levar 39 mil torcedores ao Juventus Stadium, em Turim, na tarde de domingo. É o maior público na modalidade que a Itália já viu.

O duelo, que valia a liderança do Italiano e foi vencido pela Juve por 1 a 0, com gol de Sofie Pedersen, foi assistido por 39.027 fãs em um estádio onde cabem 41.500. É mais do que o triplo do recorde anterior no futebol feminino do país, de 2008, quando 12.500 mil pessoas viram a semifinal da Liga dos Campeões entre Verona e Frankfurt no estádio Marc Antonio Bentegodi, segundo os registros do Wikipedia.

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“Olhar para cima e ver todas aquelas pessoas foi extraordinário”, disse Rita Guarino, técnica de Juve. “Eles vieram assistir ao futebol feminino, não ao futebol masculino. Vou levar essa lembrança comigo. Nossa expectativa inicial era para ser 10 mil, mas o clube foi corajoso o suficiente para abrir todo o estádio e todas estamos muito gratas para isso.”

Jogar em Turim não é hábito da equipe feminina da Juventus, que manda seus jogos em Vinovo. O clube, contudo, aproveitou a pausa da data Fifa no calendário masculino para abrir as portas para as mulheres, além de ter divulgado amplamente o evento. O resultado foi arquibancadas lotadas para vibrar pelo jogo delas.

Os números recentes começam a por em cheque as “certezas” ditas por tantos anos sobre futebol feminino ser chato, não ter a mesma graça ou não atrair interesse do público como o masculino. São preconceitos repetidos por gente que, na maioria das vezes, não acompanha ou nem sequer parou para assistir a um jogo da modalidade.

O futebol feminino tem suas particularidades. Afinal, diferente dos homens, meninas não foram incentivadas a chutar bolas desde crianças e muitas vezes não têm escolinhas de base para treinar Portanto, podem levar mais tempo para desenvolver técnicas e habilidades com os pés do que os meninos. Mas isso é assunto para um outro texto. O que ressalto aqui é que os exemplos vem mostrando que, se há investimento e boa vontade, a modalidade cresce.

<em>Juve chegou a 50 pontos e abriu quatro de vantagem a três rodadas do fim (Daniele Badolato/Juventus FC via Getty Images)</em>
Juve chegou a 50 pontos e abriu quatro de vantagem a três rodadas do fim (Daniele Badolato/Juventus FC via Getty Images)

Assim como a Espanha, onde os clubes passaram a montar equipes de mulheres nos últimos anos, a Itália vive uma dessas fases evolutivas. A Juventus puxou o bonde ao montar uma equipe feminina do zero em 2017 e inspirar o debate sobre a modalidade no país, chamando atenção do público e da mídia.

O clube ofereceu uma estrutura de primeira para elas. Pensando a longo prazo, os dirigentes usaram parte do orçamento do masculino para que o feminino pudesse se fortalecer e atrair seus próprios fãs e patrocinadores – o que já começa a acontecer. Outros tradicionais “times de camisa”, como Milan, Fiorentina e Roma, também seguem por este caminho.

O resultado do esforço para valorizar as atletas e a modalidade já pode ser observado dentro de campo. A liga está mais forte, os jogos mais competitivos, e o público cada vez mais interessado. E há também um impacto no coletivo: a seleção feminina italiana, que não vai para a Copa desde 1999, conquistou uma vaga no Mundial da França com uma vitoriosa campanha nas eliminatórias.

O futebol feminino precisa de investimento, divulgação, boa gestão e paciência para reverberar. Não acontece de um dia para o outro: é preciso primeiro plantar para depois colher, como em qualquer outra área, como em qualquer outra modalidade.

<em>Juventus Stadium registrou novo recorde de público no futebol feminino (Juventus FC/Juventus FC via Getty Images)</em>
Juventus Stadium registrou novo recorde de público no futebol feminino (Juventus FC/Juventus FC via Getty Images)

A realidade brasileira ainda está longe disso. Segundo levantamento feito pela Época, menos de 10 mil pessoas prestigiaram os oito jogos da primeira rodada do Campeonato Brasileiro Feminino, que começou na semana passada.

Há exceções em que o futebol feminino lota estádios no Brasil, como Manaus, onde o frenesi causado pelo Iranduba é incomparavelmente maior do que causa qualquer equipe masculina da região, ou as Sereias da Vila, responsáveis pelo maior público da Vila Belmiro em 2018, na final do Paulistão contra o Corinthians. Porém, na semana passada tivemos partidas que não passaram de 200 ou 300 torcedores, mesmo com ingressos a baixo custo ou entrada franca. Mas o calendário, com várias partidas em horários inviáveis, como o meio da tarde de um dia útil, também não ajuda.

Nos lugares onde o esporte de mulheres ainda é sucateado e a regra geral é só receber atenção  por imposição das federações, os modelos de sucesso – que vem surgindo um atrás do outro – são importantes para mostrar que o futebol feminino tem, sim, potencial para se desenvolver, virar negócio e atrair grandes públicos. Basta um esforço coletivo dos clubes, federações e da mídia. E que, de “chato”, só mesmo o preconceito.

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