Intensa e certeira, Juventus deu uma lição no Barcelona e pôs um pé na semifinal da Champions

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Por Tauan Ambrosio 

“O Barcelona dá espaços lá atrás, e nós devemos saber aproveitar isso”. Se você não acompanhou a vitória por 3 a 0 da Juventus sobre o Barça, no jogo de ida das quartas de final da Champions League, a frase dita pelo técnico italiano Massimiliano Allegri na véspera do confronto resume muito do que foi a partida realizada em Turim.

Porque apesar de ter dominado amplamente a posse de bola (68% contra 32%), a equipe catalã sofreu quase todas as vezes em que a Juve subia para o ataque. Além disso, encontrava dificuldades para entrar na área italiana. Ou seja: dominava o jogo, mas não tinha o controle do mesmo. Enquanto isso, a melhor defesa da Champions League [apenas 2 gols sofridos em 9 jogos] mostrava o seu valor ao marcar o famigerado Trio MSN, e o ataque se mostrou certeiro. Do jeito que o ‘professor’ Allegri queria.

Quando Paulo Dybala abriu o placar, aos 7 minutos, a Juventus já havia levado perigo em lance de bola parada – cabeçada de Higuaín, após cobrança de falta. Dybala, que além de Neymar talvez seja o grande candidato à futura vaga de ‘herdeiro de Messi’, mostrou toda a sua capacidade de marcar gols quando recebeu o passe de Cuadrado e, da maneira mais objetiva possível, ajeitou a bola e chutou no canto de Ter Stegen. Um lance que deixou claro a habilidade do camisa 21 e o desastre que era a defesa barcelonista.

Luis Enrique Cuadrado Mathieu Juventus Barcelona Champions League 11 04 2017

No 1º tempo, Juve focou 43,8% das jogadas lado defendido por Mathieu (Foto: Getty Images)

A Juventus apostava o seu jogo no seu lado direito de ataque, nas constantes trocas de passes entre Paulo Dybala e Juan Cuadrado, para o terror do francês Jeremy Mathieu. Zagueiro de origem, ele foi a aposta de Luis Enrique para ocupar o flanco esquerdo na primeira linha de quatro homens da defesa. No lance do primeiro gol, Cuadrado não encontrou resistência de Mathieu ao entrar na área antes de entregar a bola para Dybala. E enquanto armava a rápida finalização, talvez o argentino não tivesse notado que, apesar de vários jogadores do Barcelona estarem no caminho entre a bola e o gol, nenhum deles o pressionava.

O Barcelona quase respondeu aos 20’.  A defesa juventina estava fechadinha, parecia impenetrável, mas Lionel Messi conseguiu criar espaço e, com um só passe, praticamente inutilizou seis adversários que marcavam a jogada ferozmente. A bola chegou aos pés de Iniesta, no lado esquerdo da área, mas na hora do chute Buffon se agigantou. Sem alarde, sem se jogar, mas com muita comemoração após o desfecho do lance. Foi assim a reação do goleiraço de 39 anos após ter feito a defesa mais espetacular da noite. Ele parecia adivinhar, porque logo depois o seu time ampliou para 2 a 0. Novamente com Paulo Dybala, em lance que mostrou tanto a habilidade do argentino e intensidade da equipe italiana quanto mais uma falha defensiva dos catalães.

Paulo Dybala Juventus Barcellona Champions League

Dybala: 3 chutes, 2 gols (Foto: Getty Images)

Enquanto Mandzukic avançava pela esquerda, Dybala corria livremente pelo meio de campo enquanto Javier Mascherano parecia pensar na morte da bezerra. A função do excelente jogador do Barcelona, jogando na proteção da zaga, era colar em seu conterrâneo. Não foi o que aconteceu, e o chute de primeira desferido pelo melhor jogador da noite encontrou o cantinho de Ter Stegen. A estratégia de Massimiliano Allegri funcionava às mil maravilhas, enquanto as decisões de Luis Enrique se mostravam equivocadas.

Por isso, o comandante asturiano voltou para o segundo tempo com mudanças. Saía Mathieu para a entrada de André Gomes no meio de campo. Mascherano voltava para a zaga. O Barcelona melhorou, ganhou a batalha no meio de campo... mas seguia com dificuldades para chegar dentro da área juventina. O jeito era sair da característica apresentada nos últimos anos: arriscar de fora da área (foram 4 chutes no segundo tempo). Por que tanta dificuldade? Uma combinação de fatores, demonstrados pela seguinte equação: exibição impecável da defesa juventina + partida fraca de Neymar e Suárez. Pelo Barça, Messi era quem mais tentava as jogadas e deixou Luis Suárez na cara do gol uma vez: a bola triscou na trave antes de sair, após a finalização do uruguaio. Quando os visitantes conseguiam passar pela defesa, Buffon se mostrava gigante. E quando Buffon nada poderia fazer, a bola cismou em não seguir o caminho de outras 26 vezes nesta Champions League.

Mascherano Chiellini Juventus Barcelona Champions League 11 04 2017

Chiellini vence facilmente Mascherano e cabeceia para o gol (Foto: Getty Images)

Se o Barcelona não era efetivo no ataque ou na defesa, a Juventus era absolutamente o contrário [exceção feita a uma grande oportunidade desperdiçada por Higuaín]. Após escanteio, o zagueirão Giorgio Chiellini aproveitou a péssima marcação individual feita por Mascherano para, de cabeça, fazer o terceiro e deixar a situação do rival bastante complicada para o jogo de volta. Ao Barça, de nada adiantou a maior posse de bola: a Juventus acertou o alvo o dobro de vezes (8 chutes na direção do gol contra 4) e foi melhor dentro de suas características.

No Camp Nou, o Barcelona é capaz de milagres. Mas a Juventus é gigante, tem o exemplo recente do Paris Saint-Germain para não cantar vitória antes da hora e sabe muito bem jogar na defesa. Com o regulamento debaixo do braço, a ‘Velha Senhora’ deu um grande passo para seguir com o sonho de voltar a conquistar a Europa após 21 anos: poderá jogar no contra-ataque e aproveitar até mais espaços em relação aos que apareceram hoje.