Inspiração e superação vindas do mar: conheça a história da heptacampeã mundial de surfe Stephanie Gimore

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(ASP)
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Por Emanoel Araújo e Guilherme Daolio

Nascer na Austrália é reconhecer, desde a infância, a forte relação que você terá com o mar. Não à toa, a agora heptacampeã do mundo, Stephanie Gilmore aprendeu surfar, aos 10 anos, com lições diárias  do pai, que obrigava as três filhas a acompanhá-lo pelas praias de Queensland, a 100 quilômetros da capital Melbourne.

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A menina, que também tinha talento para o futebol e hóquei na grama  nos tempos de escola, logo se transformou em uma competidora voraz nas praias australianas.  Aos 12 anos, venceu seu primeiro campeonato e aos 15 selou seu destino no quintal de casa. A etapa de Gold Coast do Mundial de Surfe feminino acontecia a 100 metros de onde morava. Ao ver as melhores do mundo surfando as mesmas ondas que ela, Gilmore teve certeza que poderia vencer qualquer atleta profissional.

Em 2005, aos 17 anos, veio o primeiro convite para uma etapa do circuito. O que antes parecia arrogância, agora era realidade. Ela venceu todas as feras da elite e, dois anos depois, conquistou seu primeiro título mundial.

Ao ataque

O ano de 2010 foi um ano chave na carreira da australiana. Contratos milionários, reconhecimento pelo trabalho e os prêmios, que já a tornavam, aos 22 anos, um ícone no esporte.

As sequelas embaixo da pele: o ataque mudou a vida da surfista
As sequelas embaixo da pele: o ataque mudou a vida da surfista

Dois dias depois do Natal, Stephanie voltava do cinema. No caminho entre o estacionamento e a sua casa, percebeu que um homem a observara. De repente, um mendigo – que sofria de paranoia esquizofrênica – desferiu um golpe que acertou sua cabeça. Numa tentativa de defesa, protegeu o rosto e a barra de ferro acertou sua mão. Os gritos de socorro foram ouvidos pelos vizinhos. O criminoso fugiu, mas logo foi capturado e condenado a quatro anos de prisão.

No dia seguinte, Stephanie acordou no hospital com uma notícia boa: estava viva e sem sequelas físicas permanentes. A notícia ruim tinha a ver com o tempo de repouso: ficaria seis semanas fora da água e não iniciaria a temporada com as demais surfistas.

Com o quinto título ameaçado por um lance do destino, Stephanie desobedeceu aos médicos e entrou na água cinco semanas depois. Foi necessário entrar no mar e perceber que ainda faltaria força e equilíbrio para brigar por mais um troféu. Frustrada, a campeã se questionou pela primeira vez.

“[Após a eliminação] eu sentei na praia, coloquei minha prancha sobre a cabeça e comecei a chorar”

A partir disso começaram as consequências mentais da agressão. Dormir com luzes ligadas e repetir o ritual de checar portas e janelas repetidas vezes mexeram com ela. Aos 23 anos, a imprensa especializada deduzia que todo o trauma, somada a volta nada gloriosa ao Circuito Mundial decretava o fim de uma carreira promissora.

Em meio a caminhos confusos, Stephanie resolveu voltar ao começo. Juntou amigos e viajou o mundo para surfar, apenas por diversão. Encontrou a resposta na sua essência. Afinal, o espírito olímpico dos pais (Jeff e Tracy Gilmore) que foram atletas não deixava dúvidas: ela estava ali porque nasceu para competir.

Não demorou muito para os resultados aparecerem. Pódio nas três primeiras etapas de 2012 e, junto ao título da etapa da França, o pentacampeonato mundial.

O hexa veio em 2014 e ontem a australiana voltou a ser a melhor do mundo após três temporadas. E a competição nem acabou, já que a taça foi garantida com a derrota da vice-líder Lakey Peterson ainda na 2ª fase.

Feminismo à prova

A França seria palco de mais um marco em sua carreira. Dessa vez, a unanimidade encontrada na água seria colocada à prova em outros mares.

Em parceria com uma grife de surfe voltada ao público feminino, a atleta desenhou as roupas da campanha e se arriscou como modelo em um vídeo polêmico:

As imagens dividiram opiniões. Críticos chegaram a afirmar que as imagens eram uma “exploração sexual” e “mais pareciam comercial de lingerie”.

A maior ícone do surfe feminino sabe da responsabilidade que tem. Ao longo dos anos acompanhou a adesão do esporte entre as mulheres. Em entrevista, ela define qual é o momento que o surfe vive.

“No começo, eu não acho que os caras gostaram, e as mulheres sentiram que tinham que competir contra os caras para ganhar respeito. Agora, os garotos e garotas aprendem uns com os outros. Estamos florescendo para nós mesmos. Nós amamos ser poderosos, belos e fortes

Stephanie foi protagonista do anuncio na igualdade nas premiações do surfe (DIVULGAÇÃO/WSL)
Stephanie foi protagonista do anuncio na igualdade nas premiações do surfe (DIVULGAÇÃO/WSL)

Fato é que Stephanie Gilmore, aos 30 anos e com sete títulos mundiais no currículo, ainda tem muito a conquistar. Mas não duvide de alguém que tirou inspiração para os momentos mais difíceis da vida dentro do mar.

“Tentar dominar um dos elementos mais poderosos do planeta pode ser assustador”

 

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