Inimigo da Conmebol e de seu presidente, Chilavert dá de ombros para ameaças e processos

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Chilavert em sua partida de despedida em 2004 (Foto: MARIANO SANCHEZ/AFP via Getty Images)
Chilavert em sua partida de despedida em 2004 (Foto: MARIANO SANCHEZ/AFP via Getty Images)

Se um dos esportes favoritos dos torcedores pelo mundo é falar mal dos dirigentes do futebol, não há muitos jogadores, aposentados ou em atividade que fazem o mesmo. E entre esses poucos, ninguém chega perto de José Luis Chilavert, o histórico goleiro paraguaio.

A cada entrevista, em todas as declarações públicas, ele mostra porque é o inimigo público número 1 da Conmebol e de seu presidente, Alejandro Domínguez. O cartola tem contra o ex-goleiro campeão mundial pelo Vélez Sarsfield um processo na Justiça paraguaia.

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Domínguez quer que Chilavert seja condenado por injúria, calúnia e difamação.

Um dos motivos? É comum que, ao se referir à Confederação, ele a chame simplesmente de “corrupbol”.

“Antes só existiam três pessoas que atacavam os dirigentes e brigavam contra a corrupção no futebol: eu, Romário e Maradona. Diego se foi. Sobramos eu e Romário”, afirma ele, que sonha em se candidatar a presidente da república.

Em entrevista ao Yahoo Brasil, Chilavert não poupou os dirigentes sul-americanos. E agora ele tem um porrete a mais para acertá-los. O preço para os torcedores assistirem à final da Copa Libertadores, entre Palmeiras e Flamengo, em 27 de novembro, no estádio Centenário de Montevidéu.

A primeira pergunta é quase uma provocação, Chilavert. Como está sua relação com a Conmebol?

(rindo) Não há. Eles estão lá. Eu estou aqui. Eles estão do lado de tudo o que é sujo no futebol e eu, não.

Você mora em Assunção e a sede da Conmebol fica em Luque, cidade vizinha. Não há dirigentes paraguaios que lhe pedem para não ser tão crítico com a entidade e com o presidente Alejandro Domínguez?

Antes sim, mas todos sabem como sou e o que eu penso sobre a corrupbol. Eu recebo ameaças. Já recebi várias. Ligam no meu celular ou deixam recado na caixa postal falando para eu me calar. Domínguez pode ser o presidente da Conmebol, mas eu sou José Luis Chilavert. E não me calo ou abaixo a cabeça para ninguém. Isso de fazer ameaças anônimas pelo telefone não é coisa de gente que tem coragem.

E quem faz essas ameaças?

Não sei, mas só pode ser gente do futebol.

Não sei se acompanhou, mas nos últimos dias há muita reclamação no Brasil com relação ao preço para ir ver a final da Conmebol.

Eu vi que o ingresso vai custar US$ 200, sem contar transporte e hospedagem. Isso é mais uma prova de que essa gente vive em outra realidade, não a do torcedor comum. Como isso é possível? Fazem futebol para os ricos, não para o povo.

Incomoda ser visto como uma espécie de inimigo público número 1 da Conmebol?

De forma alguma. Não me incomoda em nada. Acho que isso mostra que eu estou certo.

Mas lhe rendeu um processo de Domínguez por calúnia, injúria e difamação.

Acho ótimo que ele tenha me processado. É uma porta de entrada para que eu fale mais ainda dele e da corrupção da organização que ele é presidente. Não me importa nada esse processo. Por que vou me preocupar? Olhe de onde eu vim. Não tinha nada e venci na vida graças ao meu talento e meu esforço. Domínguez pode dizer o mesmo?

Por que você crê que poucos jogadores se manifestam sobre casos de corrupção e mesmo outros aspectos errados do futebol?

Antes só existiam três pessoas que atacavam os dirigentes e brigavam contra a corrupção no futebol: eu, Romário e Maradona. Diego se foi. Sobramos eu e Romário. Me dá orgulho saber que sou alguém que ousa falar da corrupção da Conmebol. Eu luto para defender os jogadores, que são os que mais trabalham nessa indústria e os que menos recebem. É fácil ver os que são negociados para a Europa por milhões. E os que jogam em clubes pequenos, em divisões menores? Eles são a maioria. Já disse antes e não foi bem-visto, mas há jogadores na primeira divisão do Paraguai que vendem empanadas para sobreviver. Isso é certo?

Eu vejo isso como uma luta de classes. A minha briga com Domínguez é isso. Uma luta de classes. Eu sou o povo. Ele é a elite. Ele quebrou todas as empresas que já teve na vida. É um incompetente. Eu sou um dos jogadores mais importantes do futebol paraguaio e dei tudo o que tinha pela seleção, pelo Vélez (Sarsfield)... A família dele (Domínguez) se beneficiou da ditadura de Stroessner (Alfredo Stroessner, militar que governou o Paraguai de 1954 a 1989).

No Brasil, a CBF vive uma enorme crise, com presidente afastado por acusações de assédio moral e sexual, o cargo está ocupado por um interino e ainda há a sombra de Marco Polo Del Nero.

Domínguez é amigo de Del Nero. Assim como Gianni Infantino (presidente da Fifa). Viajaram ao Brasil para vê-lo. Todos são cúmplices nessa corrupção do futebol, estão associados. Para citar o Fifagate, é preciso lembrar que Domínguez trabalhou com Naput (Juan Ángel Naput, ex-presidente da Associação Paraguaia de Futebol e da Commebol, preso no escândalo do Fifagate).

Você disse há alguns meses que o Brasil manda na Conmebol. Por quê?

Porque os dirigentes brasileiros atualmente têm enorme influência e mandam na Conmebol. E não é nada contra o Brasil. Nenhum país pode mandar na Conmebol. Eu acho que o Boca (Juniors) foi muito prejudicado nos dois jogos contra o Atlético (pela Libertadores), por exemplo. Trouxeram o VAR e para que usam? Para ajudar os amigos. Em vez de ser uma ferramenta que acaba com todas as dúvidas, traz ainda mais problemas.

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