Iniciativas ajudam migrantes africanos que vivem da informalidade em São Paulo

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Barracas de comerciantes africanos ainda não retomaram à República por conta da pandemia. Foto: Heitor Salatiel
Barracas de comerciantes africanos ainda não retomaram à República por conta da pandemia. Foto: Heitor Salatiel

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Nataly Simões

Os migrantes africanos que vivem na cidade de São Paulo e trabalham, principalmente, em comércios na região da República, no centro, têm passado por situações de vulnerabilidade desde o início do isolamento social decorrente da pandemia da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Muitos dos migrantes são legalizados, possuem CPF e direito ao benefício emergencial de R$ 600, oferecido pelo governo federal. As dificuldades no sistema, no entanto, ainda impedem a chegada do dinheiro às suas mãos.

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Grande parte desses trabalhadores ajudam financeiramente a família nos países em que nasceram e agora precisam de ajuda para se manter no Brasil. O auxílio tem vido por meio de doações e campanhas feitas pela própria comunidade.

A maioria dos migrantes na capital paulista vem da Nigéria, Senegal, Angola, República Democrática do Congo e Camarões. Nem todos estão no cadastro de estrangeiros da Polícia Federal. Somente em 2019, 179 mil estrangeiros pediram a regularização, dos quais 5.564 são do continente africano – alguns deles com pedido de refúgio. Aqueles que foram legalizados possuem CPF e têm direito a receber o auxílio emergencial.

Os cerca de dez comerciantes que têm barracas na rua Barão de Itapetininga, na República, ainda não retomaram o trabalho. Já a Galeria Presidente, também conhecida como Galeria do Reggae, localizada na rua 24 de Maio, 116, um dos maiores expoentes da migração africano, que reúne empreendedores de diversos países em seus cinco andares, reabriu na última segunda-feira (15). O acesso em cada loja é restrito e o uso de máscara é obrigatório. Na quinta-feira (18), o Alma Preta esteve na Galeria do Reggae e poucas pessoas circulavam pelo local.

Uma comerciante abordou a reportagem para oferecer cabelos. Vinda da Guiné-Conacri para tentar a vida em são Paulo, ela continua a fazer tranças na casa em que vive na região central. “Está muito difícil”, afirma, com suas roupas com estampas coloridas, enquanto mostra fotos no celular de penteados feitos por ela.

Além da dificuldade de se manter financeiramente, muitos precisam continuar trabalhando, como ressalta Douglas de Toledo Piza, que pesquisa migração e é doutorando e mestre em Sociologia pela New School for Social Research, em Nova York. “Trabalhadoras e trabalhadores migrantes são mais vulneráveis ao Covid-19 por estarem desproporcionalmente representadas em atividades consideradas essenciais, incluindo aquelas que necessitam de pouca qualificação e não garantem condições trabalhistas e de seguro social dignas”, escreve em artigo publicado no site do Museu da Imigração de São Paulo.

Quem trabalha com comida tem se reinventado por meio do delivery. É o caso do Restaurante Biyou’z, da camaronesa Melanito Biyouha, que funciona há dez anos na República e tinha aberto uma segunda unidade na Bela Vista. “Estamos fornecendo marmitas. É a maneira de continuarmos funcionando”, afirma Melanito. Os funcionários que não tinham carteira assinada foram dispensados e apenas dois se revezam na cozinha.

Iniciativas

A ONG África do Coração, fundada e composta por imigrantes e refugiados, tem recebido doações para auxiliar famílias de imigrantes durante a pandemia do novo coronavírus. As ações prevêem doações de cestas básicas e artigos como máscaras e produtos de higiene pessoal. Os contatos para doações podem ser feitos pelo e-mail contato@africadocoracao.org ou WhatsApp (11) 96737-8710.

Vensam Iala, de 30 anos, que há dez anos deixou a Guiné-Bissau para viver no Brasil, também criou uma ação para ajudar imigrantes e mulheres refugiadas que estão em situação de extrema vulnerabilidade, principalmente por causa da pandemia. “Focamos em mães solo e gestantes. A maioria delas não tem um trabalho formal e com a pandemia estão sem nenhuma fonte de renda”, afirma. De acordo com o empreendedor, o objetivo é conectar as pessoas para que a ajuda possa ser permanente. “Quem se interessar pelo projeto e quiser conhecê-las pode fazer chamadas por videoconferência para saber quais as reais necessidades”, afirma. O contato com projeto pode ser feito pelo Instagram.

Já a Bibli-ASPA, que promove ações sociais aos povos árabes, africanos e sul-americanos, mobilizou sua estrutura e equipes para promover ações emergenciais de apoio a essas pessoas e outros grupos vulneráveis durante a pandemia de coronavírus. A ONG tem recebido doação de materiais de prevenção, como álcool e álcool em gel, luvas e máscaras descartáveis, toucas e aventais descartáveis, óculos de proteção e máscaras N95; produtos de higiene pessoal e produtos de limpeza; alimentos não perecíveis; cestas básicas; e bilhetes de metrô e ônibus. O posto de coleta é a sede da Bibli-ASPA em São Paulo, localizada na rua Baronesa de Itu, 639 – Santa Cecília. Os horários de recebimento são de quinta a segunda-feira (incluindo domingo), das 8h às 17 horas.

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