Infectologista admite revolta e condena fala de Bolsonaro sobre HIV: 'não tem apreço por conhecimento científico'

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Foto: AP Photo /Eraldo Peres
Foto: AP Photo /Eraldo Peres

Durante conversa com a imprensa, na última quarta-feira (05), enquanto defendia a abstinência sexual proposta pela ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), o presidente Jair Bolsonaro citou um relato do jornalista Alexandre Garcia, apoiador declarado do presidente.

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"O próprio Alexandre Garcia, ele fala que a esposa dele, que é obstetra, atendeu uma mulher que começou com o primeiro filho com 12 anos. Outro com 15, e no terceiro, que a esposa dele atendeu, ela já estava com HIV. Uma pessoa com HIV, além do problema sério para ela, é uma despesa para todos aqui no Brasil", declarou.

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A fala de Bolsonaro gerou muita repercussão negativa. Entidades que defendem pessoas que vivem com HIV e coletivos ligados ao tema repudiaram o episódio. O Yahoo! Notícias conversou com o infectologista Ricardo Vasconcelos sobre o tema. Confira:

Quais são os riscos e a gravidade da fala do presidente?

“No meu entender, quando ele fala uma coisa dessa, ele está voltando a sociedade contra as pessoas com HIV. Subentendendo que todos estão tendo um ônus por conta de uma coisa que a pessoa ‘escolheu’. ‘Você pegou HIV por que quis e agora todos nós estamos tendo que cobrir com os custos disso’. O que é uma grande falácia, isso não é verdade. (...) Existem recomendações de saúde dadas pela autoridade e que as pessoas seguem de maneira ideal, mas algumas não seguirão. Basta você pensar que a gente ainda tem a principal causa de morte no Brasil as doenças de cardio e cérebro-vasculares, como infarte, derrame e etc., que são totalmente preveníveis se a pessoa tivesse uma vida não sedentária, controlasse pressão, e etc.. Esses são fatores controláveis e mesmo assim quando alguém tem um infarto e um derrame, chega no SUS e é atendida. Assim como alguém que fuma e tem câncer de pulmão, é atendida. A gente sabe que não é todo mundo que vai conseguir fazer tudo perfeito. Uma pessoa que tem uma gravidez indesejada, o parto é pelo SUS. Isso não é tido como um peso para o SUS, e está previsto dentro do Orçamento da Saúde Pública. Então tentar colocar a sociedade contra a pessoa que vive com HIV é muito ruim. Já são pessoas que são ‘soterradas’ com estigma e preconceito, que já lidam com muita sorofobia, que é como a gente trata a discriminação de quem vive com HIV. E aí você tem um presidente da República, com uma fala sorofóbica, voltando toda uma nação contra essas pessoas. Isso o que ele está fazendo é um crime. Existe uma lei de 2014 que fala que cometer um ato de sorofobia você corre o risco de ser penalizado com reclusão de até 4 anos. Ele não pode fazer o que está fazendo.

Como isso repercutiu entre os médicos especialistas no assunto?

Ficou todo mundo revoltado, porque basta você estudar um pouquinho de HIV, da história da epidemia no Brasil, para você perceber que nem um real que a gente gastou até hoje com tratamento de pessoas que vivem com HIV foi dinheiro jogado fora. Ao contrário, cada real que a gente gasta nesse aspecto, tanto no tratamento quanto no diagnóstico e prevenção, são reais que são investimento para o Brasil. É muito fácil que alguma quantia gasta com HIV se torne uma quantia custo-efetiva. Quem mais se infecta com o HIV é a população mais jovem, com menos de 30 anos. Então pense que uma doença que poderia matar essa população ou deixá-la com alguma complicação provocada pela Aids pelo resto da vida, evitar que essa morte ou que essa deficiência aconteça é muito muito benéfica para a nação. São pessoas que poderão passar o resto da longa vida que teriam pela frente trabalhando, produzindo, pagando imposto para o Brasil. Então gastar dinheiro para prevenir e tratar as pessoas com HIV facilmente é demonstrado como custo-efetiva, que você não está gastando para ver o país crescer.

Uma pessoa que vive com HIV quando faz o seu tratamento corretamente mantendo a quantidade de vírus no sangue zerada (carga viral indetectável), essa é uma pessoa que deixa de transmitir o seu vírus para outras pessoas por via sexual, mesmo que tenha relações sem preservativo. Além de ser bom porque a pessoa não morre, ela continua viva, trabalhando e pagando imposto. É bom gastar dinheiro com tratamento porque ela deixa de transmitir o seu vírus para outras pessoas. Então, essa fala nos causa revolta porque é uma fala unicamente baseada em uma opinião pessoal. Mais uma vez o presidente despreza o que a ciência está nos mostrando e faz um ato de sorofobia pública, baseada na convicção própria dele. Ele tem uma equipe técnica que o assessora, ele tem um ministro da Saúde e uma coordenadoria de HIV. Por que ele não ouve o que eles falam? Porque essa fala tem desdobramentos, ele está validando a rejeição a pessoa que vive com HIV, considerando-a como um fardo.

Como avalia o tratamento do governo com o tema HIV e sexualidade?

O que o governo tem feito dentro desse tema do HIV em termos de assistência não mudou muito, o que não quer dizer que é uma coisa boa. Estou querendo dizer que não foi péssimo, a gente não perdeu nada, mas também não incorporamos nada de novo. Existem medicamentos mais novos disponíveis no mundo para tratar HIV, existem tecnologias mais novas de prevenção e diagnóstico de HIV que não foram incorporadas. Então, continuar tudo igual não é exatamente uma coisa ótima, dá para dizer apenas que não foi péssimo.

As pessoas adoram falar que o Brasil é uma referência dentro do assunto HIV no mundo. Prefiro dizer que o Brasil já foi referência, agora estamos fazendo o mínimo. Quanto a parte de sexualidade, eles estão indo na contramão do que o mundo todo preconiza como o que funciona para melhorar a saúde sexual da população e diminuir os desfechos negativos relacionados a uma sexualidade não debatida. Quando uma ministra [Damares Alves] dele propõe abstinência também baseada em uma opinião pessoal, dá pra ver que é um governo que não tem muito apreço por conhecimento científico produzido.

Dentro desse tema HIV, todas as vezes que um governante decidiu tomar as suas medidas baseadas em opinião pessoal e não em conhecimento técnico-científico, as coisas deram muito errado. Um exemplo é a África do Sul no começo da década de 90. Lá havia uma epidemia de HIV muito parecida com a do Brasil. No meio da década de 90, com o surgimento da terapia anti-retroviral [tratamento do HIV], o Brasil conseguiu aprovar uma lei (9313, de 13 de novembro de 1996) que garante terapia anti-retroviral para as pessoas que viviam com HIV. Isso fez com que a mortalidade diminuísse muito e não estourasse uma epidemia como pensavam que ia acontecer.

A África do Sul, por sua vez, não fez isso. O presidente da época não acreditava que tratar era uma coisa boa, inclusive, ele nem acreditava que estava acontecimento uma epidemia. Agora, quase 20 anos depois, o Brasil possui uma população geral que tem uma prevalência de 0,4% de infecção por HIV, enquanto a África do Sul tem uma prevalência de 18%. Tudo isso se deu enquanto a África do Sul era governada por uma pessoa que fazia suas políticas públicas baseadas em suas próprias convicções. Então, tenho medo de que algo parecido aconteça por aqui.

Bolsonaro pode até não concordar que o tratamento seja dado, mas existe uma lei que garante isso. Se ele quer mudar isso, então ele precisa fazer uma proposta de emenda constitucional, igual ele fez na Reforma da Previdência. Não é com uma caneta ou com uma fala na porta do Palácio do Planalto que ele vai conseguir mudar isso, e ele sabe disso. Existe uma constituição que ele precisa respeitar.

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