Indústria automotiva do Brasil tem maior desafio em 100 anos; entenda

Luiz Anversa
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Volkswagen, Nissan , Toyota e GM tinham previsão para retomar a produção nesta semana
Volkswagen, Nissan , Toyota e GM tinham previsão para retomar a produção nesta semana
  • 29 fábricas ficaram paradas desde o início deste ano

  • 300 mil veículos podem deixar de ser produzidos esse ano

  • Setor tem importante participação no PIB como um todo

Além das irreparáveis perdas humanas, a pandemia do novo coronavírus vem afetando a economia brasileira com força. O setor automobilístico, que tem importância na cadeia de empregos, enfrenta seu maior desafio em 100 anos no Brasil

No último levantamento da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), de 30/3, estavam paradas Mercedes, Renault, Scania, Toyota, Volkswagen, Volkswagen Caminhões e Ônibus, BMW, Agrale, Honda, Jaguar e Nissan. GM e Volvo não pararam totalmente, mas reduziram fortemente a produção.

O movimento de paralisar atingiu 13 das 23 montadoras do país, que somam 29 fábricas paradas, de um total de 58.

Essa não é a primeira vez que parte da indústria interrompe atividades neste ano.

Entre janeiro e fevereiro, durante a crise de falta de oxigênio em Manaus, ao menos quatro fabricantes de motocicletas da Zona Franca paralisaram temporariamente a produção, segundo a Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares).

Especialistas apontam que até 300 mil veículos podem deixar de ser produzidos esse ano.

Marcas explicam a paralisação

No mês passado, Volkswagen Veículos, Scania, Volvo, Mercedes Benz, Nissan, Renault, Toyota, GM, Honda e a Volkswagen Caminhões comunicaram que iriam suspender a produção em razão do desabastecimento de peças e o avanço da pandemia.

Na Toyota, a paralisação atingiu suas quatro unidades localizadas em São Bernardo do Campo, Indaiatuba, Sorocaba e Porto Feliz, todas em São Paulo. A Toyota tem 5.600 funcionários no país.

A Volkswagen Caminhões e Ônibus informou que "desde a retomada de suas atividades após a primeira onda da pandemia em 2020, a montadora adotou rigorosos protocolos que obedecem a todas as normas sanitárias para proteger seus colaboradores e familiares".

Na Renault, cuja fábrica fica em São José dos Pinhais, no Paraná, a paralisação foi negociada com o Sindicato dos Metalúrgicos e os dias não trabalhados serão compensados. Nas fábricas serão mantidas apenas atividades essenciais. Funcionários das áreas administrativas seguem em home office.

Já GM, que parou sua produção em São Caetano do Sul, apontou que que a cadeia de suprimentos da indústria automotiva na América do Sul foi impactada pelas paradas na produção durante a pandemia e pela recuperação do mercado mais rápida que o esperado.

"Isso está afetando de forma temporária o cronograma de produção na fábrica de Gravataí, no Rio Grande do Sul. A produção nesta unidade será interrompida nos meses de abril e maio, podendo ter efeitos em junho, retornando ao volume de produção regular em julho", informou a montadora em nota.

A fabricação de automóveis, caminhões, ônibus e autopeças representa 0,9% do PIB brasileiro e 6,7% do PIB da indústria de transformação
A fabricação de automóveis, caminhões, ônibus e autopeças representa 0,9% do PIB brasileiro e 6,7% do PIB da indústria de transformação

A Volvo disse que iria "reduzir a produção de caminhões em sua fábrica de Curitiba". "O motivo é o alto nível de instabilidade na cadeia - global e local - de abastecimento de peças, principalmente semicondutores, combinado com o agravamento da pandemia".

Volkswagen, Nissan, Toyota e GM tinham previsão para retomar a produção nesta semana. Na Honda a volta ao trabalho nas fábricas deve ser feito a partir de 12 de abril. 

Somado a tudo isso, vale lembrar também a saída da Ford do Brasil, movimento que pode voltar a acontecer com outras companhias do setor.

Efeito em cadeia

Segundo o Sistema de Contas Nacionais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a fabricação de automóveis, caminhões, ônibus e autopeças representa 0,9% do PIB brasileiro e 6,7% do PIB da indústria de transformação; 0,4% do emprego total do país e 4,1% do emprego da indústria; além de 1,4% dos salários da economia e 8,8% dos salários do setor industrial.

Projeção do PIB

A paralisação de parte da indústria piora a perspectiva para o PIB em 2021. As projeções vêm sendo reduzidas desde janeiro. No início do ano, a projeção mediana do mercado para o avanço do PIB era de 3,4%, após queda de 4,1% em 2020.

No boletim Focus do Banco Central mais recente (de 29/3), a previsão de crescimento para esse ano já estava em 3,18%. Analistas mais pessimistas já apostam em números abaixo dos 3%.