Imprensa italiana vai da omissão à defesa, passando pelo machismo, no caso CR7

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A imprensa e o caso CR7 (Reprodução)
A imprensa e o caso CR7 (Reprodução)

Por Clara Albuquerque (@claalbuquerque)

A acusação de estupro ao principal jogador do futebol italiano levou uma semana para ser capa de um jornal no país. A alegação feita pela americana Kathryn Mayorga de que Cristiano Ronaldo teria tentado fazer sexo sem o consentimento dela, em junho de 2009, numa suíte de hotel em Las Vegas ganhou as manchetes em toda a imprensa mundial, mas foi tratada, nos primeiros dias, de forma suprimida pelos meios de comunicação italianos. Parte da imprensa saiu em defesa do atleta e declarações machistas não têm sido raras.

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O caso voltou à tona, no dia 29 de setembro, quando a americana que acusa o português concedeu uma entrevista à revista alemã contando detalhes da história. Apenas sete dias depois, o Corriere dello Sport, deu destaque para o assunto, em sua capa impressa: “CRSEX – O Mundo da Juve abalado”. Nos quatro dias seguintes, o assunto apareceu na primeira página do jornal outras duas vezes. A Gazzetta dello Sport, maior jornal especializado na área no país, mencionou o caso em sua primeira página, no mesmo dia 6 de outubro, mas sem grande destaque e em letras pequenas: “CR7 vai a campo, mas é nos Estados Unidos a batalha mais dura”. Desde então, o jornal trouxe o assunto em todas as suas capas. Já o Tuttosport, jornal de Turim, cidade sede da Juventus, saiu em defesa do jogador e seguiu com esse discurso nos dias seguintes: “Mais forte que a lama”, foi a manchete no dia 6 de outubro, seguido de uma fala do técnico Allegri ressaltando as qualidades do atacante.

Entre os dois maiores jornais de notícias gerais do país, Corriere della Sera e La Repubblica, apenas o Corriere fez uma menção em sua capa impressa desde que o caso veio à tona: “A acusação de estupro – O caso das provas desaparecidas”, no último domingo, 7 de outubro.

No ar
Na televisão italiana, o assunto tem sido tratado com relevância nos noticiários esportivos, mas nos programas de debate e pós rodada, em geral, o foco tem sido outro. Fabio Caressa, apresentador do programa Sky Calcio Club, que vai ao ar aos domingos, na Sky Sport, emissora detentora dos direitos do campeonato italiano e da Liga dos Campeões, na Itália, causou polêmica ao analisar a situação no último fim de semana. Num quadro chamado “Termômetro”, a importância de um tema a ser discutido de acordo com sua temperatura, nas redes sócias e meios jornalísticos na internet, é avaliada. No caso Cristiano Ronaldo, Fabio Caressa decretou que a assunto não estava quente o bastante na Itália, diferente da temperatura mundial, também medida durante o quadro: “Vamos seguir acompanhando, mas, pra mim, o que interessa mesmo é a discussão dentro de campo”, conclui o jornalista no estúdio que tinha entre os comentaristas Del Piero e Cambiasso.

As provas do caso de CR7 “sumiram” (Reprodução)
As provas do caso de CR7 “sumiram” (Reprodução)

Fabiana Della Valle, jornalista da Gazzetta dello Sport baseada em Turim, analisa a cobertura: “No início, acredito que os jornais italianos seguiram se comportando de forma típica, até porque a notícia chegou de rebote e vinha de fora, da Alemanha, então ela foi tratada com um tom abaixo do que deveria, mas depois eles aceleraram o passo e acredito que agora está sendo tratada com a relevância que deve e também com a cautela necessária”, conclui.

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O jornalista Tancredi Palmeri, da beIN Sports, é mais duro e acredita que a cobertura italiana não foi adequada: “Beirou o vergonhoso a forma como os meios italianos trataram o caso porque eles simplesmente não trataram o assunto no início. A maioria dos jornais, não só os esportivos, apenas se manifestou depois que a Juventus soltou um comunicado no tweet. Antes, alguns tinham somente publicado que Cristiano Ronaldo havia dito que era fake news”, conclui.

Defesa
Outro ponto importante citado por Palmeri é a posição que uma parte da imprensa tem adotado nos últimos dias: “Agora, estão tratando o assunto com mais relevância, com muito cuidado, como deve ser em casos assim. Mas, muitos estão fazendo uma cobertura muito perto da Juventus e julgando que as acusações à Ronaldo são falsas, algo que obviamente não cabe a eles. Alguns meios estão se destacando por uma maneira inaceitável de tratar uma notícia como essa”.

Entre os principais jornais esportivos, o Tuttosport tem utilizado uma abordagem em defesa do jogador. Desde que começou a noticiar o caso com mais destaque, o jornal de Turim faz manchetes onde o lado escolhido pela publicação está bem claro. Na edição desta terça-feira, por exemplo, o seguinte texto estava estampado nas bancas: “Tirem as mãos de CR7”. A hashtag #ronaldoestamoscontigo, em português mesmo, também ganhou destaque na primeira página.

Machismo
Ainda nessa terça-feira, o jornal de Turim deu destaque para um artigo, em seu site, do jornalista Vittorio Feltri, intitulado “Abaixo as garras à Ronaldo, onde o autor escreve que “Na sobra de tempo, algumas mulheres se divertem denunciando homens ricos, acusando-os de assediar e, depois de chantageá-los, receber quantias ricas, sem pagamento, iniciam procedimentos legais. Querem ver seus amigos atrás das grades. Assim, surgem escândalos falsos e, no entanto, esmagadores e desonrados para os envolvidos, que vão de fato para o papel de “carcereiros” e de vítimas”.

Na televisão, a polêmica ficou por conta do programa Tiki-Taka, exibido nas noites de segunda-feira no canal Italia 1, da Mediaset. Durante a discussão sobre o assunto, no último dia 8, o jornalista Giampiero Mughini declarou: “São acusações sem fundamento. O processo é claro, aconteceu uma relação, mas Cristiano Ronaldo já se desculpou. A garota em questão talvez queira mais dinheiro. Não foi um estupro, mas uma simples relação sem consentimento com uma garota”, para choque das mulheres que estavam no estúdio.

A fala de Mughini foi compartilhada e duramente criticada nas redes sociais e o perfil oficial do programa se pronunciou: “Em relação ao debate sobre uma questão tão delicada como a violência contra as mulheres, mostramos alguns trechos do programa. Neste momento, estão mostrando apenas um recorte do debate no estúdio que, na verdade, foi plural e amplo”, seguido de um vídeo editado com falas do apresentador do programa, Pierluigi Pardo, discordando e completando que toda mulher tem o direito de dizer não a qualquer hora.

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