Clube do interior do Ceará trava briga milionária contra CBF na Justiça

Afonso Ribeiro
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Icasa voltou à elite do futebol estadual e tenta reaparecer no cenário nacional (Antônio Josimar Segundo/FCF)
Icasa voltou à elite do futebol estadual e tenta reaparecer no cenário nacional (Antônio Josimar Segundo/FCF)

Sensação no futebol cearense e até brasileiro no início da década, o Icasa tenta dar os primeiros passos em um trabalho de reconstrução. Após anos de penúria em crise financeira e maus resultados, o clube de Juazeiro do Norte, no interior do Ceará, tenta se reerguer esportivamente em meio a uma disputa judicial milionária contra a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

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A briga na Justiça Comum contra a entidade máxima do futebol nacional surgiu em 2013, quando o Verdão do Cariri disputava a Série B do Campeonato Brasileiro. Na ocasião, a equipe cearense lutava pelo inédito acesso para a elite com o Figueirense. O time catarinense, mesmo sem contrato registrado, utilizou o jogador Luan Niedzielski na competição e acabou dentro do G-4, enquanto o clube de Juazeiro do Norte ficou uma posição abaixo, com um ponto a menos.

A chance perdida de marcar presença no Brasileirão custou caro - literalmente - para o Icasa. A equipe verde e branca passou a despencar nos certames nacionais - Saiu da Segunda Divisão e ficou sem série - e também caiu de patamar no cenário local, rebaixado para a Série B do Campeonato Cearense.

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"Em 2017 e 2018, o que nós vimos? Energia cortada, pessoal passando fome, torcida levando pão e carne para a sede porque não tinha, faltava arroz, café, ameaça de despejo do hotel... Uma série de coisas. A coisa mudou em 2019. Depois que nós assumimos, não tivemos mais corte de energia, não tivemos mais problema com hotel, nem com alimentação. Tudo resolvido na ordem administrativa. Isso é um diferencial que tem em uma equipe", recordou o presidente França Bezerra, em entrevista à Icasa TV.

"Estamos aqui para recuperar, inclusive, o descrédito que tem o Icasa e essa decepção que nos causaram os dirigentes irresponsáveis. Não quero citar nomes, mas foram muito irresponsáveis, todo mundo sabe disso. A gente quer resgatar para que o torcedor sinta-se novamente valorizado e valorize também o time", garantiu Zacarias Silva, atual presidente do Conselho Deliberativo e mandatário do clube nos tempos de glória.

A falha no sistema da CBF, então, tornou-se uma via de amenizar o prejuízo. Após acionar a Justiça em 2014, o Verdão teve a primeira resposta positiva em 2018, ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro decidir que a agremiação deveria receber R$ 20 milhões por danos morais e materiais.

Em 2020, em segunda instância, a 6ª Câmara Cível do TJ-RJ condenou a entidade nacional a pagar aproximadamente o mesmo valor, considerando valores das cotas dos direitos de transmissão da época e danos morais - R$ 15 milhões referente à primeira demanda e mais R$ 3 milhões da segunda. O Yahoo Esportes teve acesso à íntegra da decisão, da qual a confederação pode recorrer no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Decisão da 6 Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro condenou a CBF a pagar R$ 18 milhões ao Icasa (Reprodução)
Decisão da 6 Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro condenou a CBF a pagar R$ 18 milhões ao Icasa (Reprodução)

Pouco depois da nova vitória nos tribunais, o Icasa solicitou a execução de indenização de R$ 52 milhões da CBF. A intenção, no entanto, não é faturar esse montante, mas tentar mobilizar os dirigentes a discutirem um acordo para o pagamento dos valores determinados pela Justiça, apurou o Yahoo Esportes.

"Que eu tenho conhecimento dessa tentativa de negociação, isso eu tenho, claro. É um filiado meu e desde 2013 que eu entendo que foi injustiçado, a CBF sabe da minha posição, por conta da interpretação que fizeram na competição, o registro do jogador irregular. Foi totalmente injusto, um preconceito nordestino, e isso eu digo em qualquer canto. E nós estamos tentando negociar. Agora, quanto a valores, quando vai ser, isso não chegou ainda a um valor concreto sobre isso. Agora há um interesse do Icasa em compor, para poder receber o mais rápido possível e há o interesse da CBF também em pagar, claro, um pouco menor do que essa condenação. Valor, propostas e tudo já fica a cargo do clube, já é uma coisa íntima. Não gosto de tratar", explicou o presidente da Federação Cearense de Futebol (FCF), Mauro Carmélio, em entrevista ao programa Futebol do Povo.

Em meio à disputa nos tribunais e a expectativa por um acordo, o Verdão do Cariri tenta retomar os tempos áureos dentro de campo. O time de Juazeiro do Norte conquistou o título da Segundona Estadual e voltou a disputar a elite local na temporada 2021. Além disso, foi vice-campeão da Taça Fares Lopes, torneio cearense que dá vaga ao campeão na Copa do Brasil. O objetivo é conseguir uma vaga na próxima edição da Série D do Brasileiro para voltar a figurar no cenário nacional em busca da ascensão.

"Queremos parabenizar a todos pelo trabalho que tem sido feito dinamicamente, inclusive a nossa comissão técnica. Acho que o Icasa nunca passou um período de tanta tranquilidade como agora. Em tempos anteriores, era confusão para cá e para lá, mas a gente vem fazendo nosso trabalho caladinho, sem muito 'pavonismo'", analisou França Bezerra.